Levar um filho ao psiquiatra pela primeira vez costuma vir acompanhado de muitas dúvidas. Alguns pais chegam preocupados porque perceberam uma mudança importante no comportamento. Outros foram orientados pela escola, pelo pediatra, neurologista ou psicólogo. Há também famílias que convivem há algum tempo com determinadas dificuldades, mas ainda não sabem exatamente o que está acontecendo.
E existe uma pergunta que aparece com frequência antes mesmo da consulta: como funciona uma consulta psiquiátrica com uma criança ou um adolescente?
Na minha prática, costumo explicar que a primeira consulta não é simplesmente uma busca por um diagnóstico. É uma avaliação ampla. Precisamos entender aquela criança ou adolescente, sua história, seu desenvolvimento, sua família, a escola, as relações, o comportamento e, principalmente, aquilo que está causando sofrimento ou prejuízo naquele momento.
A consulta começa antes dos sintomas atuais
Na psiquiatria da infância e adolescência, conhecer apenas a queixa que trouxe o paciente ao consultório geralmente não é suficiente.
Se uma criança apresenta dificuldade de atenção, por exemplo, é importante entender desde quando isso acontece, em quais ambientes aparece, como está seu desempenho escolar, como se relaciona com outras crianças, como dorme, como foi seu desenvolvimento e se existem outros sintomas associados.
Uma irritabilidade intensa pode estar relacionada a diferentes situações. Uma queda no rendimento escolar também. Isolamento, agressividade, ansiedade, alterações de sono, recusa escolar, crises de choro, hiperatividade ou mudanças bruscas de comportamento precisam ser compreendidos dentro de um contexto.
Por isso, durante a primeira consulta, costumo perguntar sobre a gestação e o nascimento, os primeiros anos de vida, desenvolvimento da fala e da motricidade, alimentação, sono, desfralde, adaptação escolar, socialização, comportamento, relações familiares e antecedentes médicos e psiquiátricos.
Não é curiosidade. Cada uma dessas informações ajuda a construir a história clínica daquele paciente.
Os pais participam da consulta?
Sim. E sua participação é muito importante.
Crianças e adolescentes não existem separados do ambiente em que vivem. Os responsáveis possuem informações fundamentais sobre desenvolvimento, comportamento, rotina e mudanças percebidas ao longo do tempo.
Normalmente, gosto de iniciar a consulta com o paciente e seus responsáveis juntos. Esse primeiro momento permite ouvir qual é a preocupação da família, entender o motivo que levou à procura por atendimento e também observar como a própria criança ou adolescente percebe o que está acontecendo.
Mas a consulta não necessariamente acontece inteira dessa maneira.
Existe um momento para conversar sozinho com a criança ou adolescente?
Sempre que a idade e as condições do paciente permitem, considero muito importante que exista um espaço individual.
Principalmente na adolescência, há assuntos que dificilmente aparecem quando os pais estão na sala.
Relacionamentos, sexualidade, conflitos familiares, bullying, uso de álcool ou outras substâncias, automutilação, pensamentos de morte, dificuldades na escola e situações de violência são alguns exemplos.
Às vezes, inclusive, o que o adolescente considera seu maior problema é completamente diferente daquilo que trouxe os pais ao consultório.
É nesse espaço individual que ele pode começar a construir uma relação própria com o médico, deixando de ocupar apenas o lugar de “filho que foi levado ao psiquiatra”.
Com crianças menores, essa dinâmica é adaptada. A conversa pode acontecer por meio de brincadeiras, desenhos, perguntas simples e observação do comportamento. Não existe uma fórmula única: a avaliação precisa respeitar a idade, o desenvolvimento e as características de cada criança.
E o sigilo do adolescente?
Essa é uma questão muito importante.
O adolescente precisa saber que pode conversar com seu médico e que aquele espaço será respeitado. Sem alguma garantia de privacidade, dificilmente conseguiremos acessar determinados assuntos com sinceridade.
Ao mesmo tempo, o sigilo não é absoluto quando existe risco significativo para o próprio paciente ou para outras pessoas.
Quando identifico uma situação que exige participação dos responsáveis para proteção do adolescente, isso é conversado e conduzido de maneira cuidadosa. A intenção não é quebrar a confiança construída, mas zelar pela segurança.
Costumo deixar essas regras claras desde o início, tanto para o adolescente quanto para sua família.
É possível ter um diagnóstico já na primeira consulta?
Às vezes, sim. Outras vezes, não.
E não fechar um diagnóstico imediatamente não significa que a consulta não tenha sido conclusiva.
Na infância e adolescência, diferentes condições podem produzir sintomas muito semelhantes. Desatenção não significa necessariamente TDAH. Isolamento não significa necessariamente autismo. Irritabilidade não significa necessariamente transtorno bipolar. Uma dificuldade escolar pode ter inúmeras causas.
Além disso, estamos avaliando uma pessoa em desenvolvimento.
Em algumas situações, preciso acompanhar a evolução, conversar novamente com a família, solicitar informações da escola, receber relatórios de outros profissionais ou indicar uma avaliação complementar antes de chegar a uma conclusão diagnóstica.
Na minha prática, prefiro dizer “ainda precisamos entender melhor” do que colocar precocemente um diagnóstico que talvez não explique adequadamente aquela criança.
É preciso levar relatórios da escola e de outros profissionais?
Se existirem, sim.
Relatórios escolares, avaliações neuropsicológicas, exames anteriores, relatórios de psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, neurologistas, pediatras ou outros profissionais podem trazer informações importantes.
Também é útil levar a lista das medicações que a criança ou adolescente utiliza ou já utilizou, incluindo dose e, quando possível, como respondeu a cada tratamento.
Mas a ausência desses documentos não impede a primeira consulta. Eles são ferramentas complementares à avaliação clínica.
Toda criança que vai ao psiquiatra vai precisar tomar medicação?
Não.
Essa é uma preocupação frequente dos pais, principalmente quando se trata de crianças pequenas.
Procurar um psiquiatra não significa automaticamente sair da consulta com uma receita.
O tratamento depende do que encontramos na avaliação. Em alguns casos, a psicoterapia pode ser a principal intervenção. Em outros, podem ser necessárias orientações familiares, adaptações escolares, mudanças na rotina, acompanhamento multidisciplinar ou investigação complementar.
Existem também situações em que a medicação é indicada e pode fazer uma diferença importante na qualidade de vida e no desenvolvimento daquela criança ou adolescente.
Quando há indicação, a decisão precisa considerar diagnóstico ou hipótese diagnóstica, intensidade dos sintomas, prejuízos, idade, riscos, benefícios e alternativas disponíveis. E tudo isso deve ser explicado à família.
A escola também faz parte dessa avaliação?
Muitas vezes, sim.
Uma criança passa uma parte considerável do dia na escola, e alguns comportamentos aparecem de maneira diferente dependendo do ambiente.
Há crianças que funcionam muito bem em casa e apresentam grandes dificuldades na escola. Em outras situações acontece exatamente o contrário.
Por isso, informações de professores e da equipe pedagógica podem ajudar bastante, especialmente quando investigamos questões relacionadas à atenção, aprendizagem, comportamento, socialização, ansiedade ou desenvolvimento.
Isso não significa que a escola faça diagnóstico psiquiátrico. Ela fornece informações sobre um ambiente muito importante da vida da criança, e essas informações são integradas à avaliação médica.
O que observo durante a consulta?
Muito mais do que as respostas às minhas perguntas.
Observo como a criança entra na sala, como interage com os responsáveis, como reage quando falamos sobre determinados assuntos, como se comunica, brinca, sustenta atenção e estabelece contato.
Com adolescentes, observo também a forma como narram suas experiências, a percepção que possuem sobre suas próprias dificuldades, humor, pensamento, comportamento e capacidade de reconhecer aquilo que estão vivendo.
Na psiquiatria infantil, aquilo que acontece durante a consulta também fornece informações clínicas.
E o que acontece depois da primeira consulta?
Ao final da avaliação, conversamos sobre aquilo que foi possível compreender naquele primeiro encontro.
Dependendo do caso, podemos estabelecer uma hipótese diagnóstica, iniciar um tratamento, solicitar exames ou avaliações complementares, orientar psicoterapia, conversar sobre intervenções na escola ou programar novas consultas para continuar a investigação.
Quando necessário, o tratamento também pode envolver outros profissionais.
Mais do que entregar um diagnóstico, meu objetivo é que a família saia da consulta entendendo o que estamos observando, o que ainda precisamos investigar e qual será o próximo passo.
Quando procurar um psiquiatra infantil?
Não é necessário esperar que uma situação se torne grave.
Mudanças persistentes de comportamento, ansiedade intensa, tristeza, irritabilidade importante, isolamento, prejuízo escolar, dificuldade significativa de atenção ou controle dos impulsos, alterações importantes do sono ou alimentação, crises frequentes, automutilação, pensamentos de morte ou qualquer mudança que esteja causando sofrimento ou comprometendo o funcionamento da criança ou adolescente merecem avaliação.
Também é válido procurar ajuda quando os pais simplesmente percebem que “alguma coisa não está bem”, mesmo que ainda não consigam definir exatamente o quê.
No consultório, muitas vezes encontro famílias que chegam com medo de estarem exagerando. Outras chegam depois de meses, ou anos, tentando entender sozinhas o que estava acontecendo.
A consulta psiquiátrica não precisa ser o último recurso.
Ela pode ser justamente o lugar onde começamos a organizar essas dúvidas: ouvir a família, ouvir aquela criança ou adolescente, compreender sua história e diferenciar aquilo que faz parte do desenvolvimento daquilo que precisa de cuidado.
Porque, na infância e na adolescência, quanto mais cedo conseguimos compreender um sofrimento e oferecer a intervenção adequada, maiores são as possibilidades de proteger não apenas o presente, mas também o desenvolvimento daquele paciente.
Se você percebe mudanças emocionais, comportamentais ou dificuldades que estão interferindo na vida do seu filho, uma avaliação psiquiátrica pode ajudar a entender o que está acontecendo e quais são os próximos passos.








