Você pode ter chegado até este texto porque está preocupado com alguém. Ou porque alguma coisa aqui diz respeito a você.
Não precisa ser um pensamento sobre suicídio. Às vezes é uma vontade de sumir, de dormir e não precisar acordar amanhã, de desaparecer por alguns dias ou simplesmente de não precisar mais dar conta de tudo. E, apesar disso, você continua trabalhando, cuidando da casa, dos filhos, encontrando pessoas, respondendo mensagens e fazendo tudo aquilo que esperam de você.
No consultório, eu escuto isso com muito mais frequência do que as pessoas imaginam. Pessoas que chegam, sentam na minha frente e dizem: "Doutora, eu não quero me matar. Eu só não queria acordar amanhã."
E eu não escuto essa frase e simplesmente concluo que aquela pessoa quer morrer. Mas também não a ignoro.
Eu quero entender.
Se você está em risco agora, ligue 188. O CVV atende de graça, 24 horas por dia, todos os dias. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo ou ligue 192. Este texto não substitui atendimento de urgência.
Quem pensa em morrer nem sempre parece estar sofrendo
Porque nem todo pensamento de morte significa a mesma coisa, assim como nem toda pessoa em sofrimento psíquico grave parece estar em sofrimento. Existe uma imagem muito marcada de que alguém deprimido ou pensando em suicídio necessariamente estará chorando, isolado, sem conseguir trabalhar ou levantar da cama. Às vezes é assim. Muitas vezes, não.
Na minha prática, eu vejo pessoas que continuam trabalhando, estudando, cuidando dos filhos, saindo com amigos e fazendo planos. Algumas riem comigo durante a própria consulta e, minutos depois, quando eu pergunto diretamente, contam que têm pensado em morrer.
Uma coisa não anula a outra.
Você pode estar funcionando e não estar bem. Pode trabalhar e estar deprimido. Pode rir e estar sofrendo. Pode amar sua família e, ainda assim, sentir uma desesperança profunda. Pode ter uma vida que, vista de fora, parece boa e não conseguir mais suportar aquilo que sente quando está sozinho.
É por isso que "mas ele parecia tão bem" é uma frase tão frequente quando falamos de suicídio. Sofrimento psíquico não tem uma aparência específica.
Por que perguntar diretamente é parte da prevenção ao suicídio
E também é por isso que, quando alguma coisa me preocupa durante uma consulta, eu pergunto. Eu pergunto sobre morte. Pergunto sobre suicídio. Uso essas palavras.
Ainda existe muito medo de que perguntar diretamente possa colocar a ideia na cabeça de alguém. Não coloca. E eu prefiro uma pergunta difícil a deixar uma informação tão importante escondida porque todos tivemos medo de tocar no assunto.
Mas não basta perguntar "você quer se matar?", ouvir um "não" e seguir a consulta.
Nem todo pensamento de morte é igual
Às vezes o paciente me diz que gostaria de desaparecer. Outro diz que queria dormir e não acordar. Alguém pode dizer que não faria nada contra si, mas que, se morresse naquele dia, não se importaria. Outra pessoa já está pensando diretamente em suicídio.
Clinicamente, essas situações não são iguais.
Eu preciso saber há quanto tempo isso acontece, com que frequência, qual a intensidade desses pensamentos, se estão piorando, se existe intenção, planejamento, tentativas anteriores, uso de álcool ou outras substâncias, o que aconteceu recentemente, quais são os fatores de proteção e quem está por perto. Preciso entender aquela pessoa dentro da história dela.
E existe uma pergunta que faço e considero particularmente importante: "Você se sente seguro com você mesmo hoje?" Às vezes, é a partir daí que começa a verdadeira conversa.
Porque avaliação de risco de suicídio não é uma lista de perguntas que gera automaticamente uma resposta "baixo, médio ou alto". Estamos falando de uma pessoa. De uma história. De um sofrimento que pode mudar de intensidade e de um risco que também é dinâmico. E, muitas vezes, existe ambivalência.
Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis para quem está de fora compreender. Nem sempre existe um desejo absoluto e constante de morrer. Às vezes, existe uma pessoa desesperada para que alguma coisa pare.
A ansiedade precisa parar. A culpa precisa parar. A angústia precisa parar. A sensação de fracasso precisa parar. A dor precisa parar.
E quando tudo isso ocupa espaço demais, o futuro vai ficando cada vez menor. A pessoa pode deixar de conseguir imaginar uma vida diferente daquela que está vivendo e a morte começa a aparecer como uma possibilidade de interromper o sofrimento. Às vezes, a pessoa não quer morrer. Ela quer que aquilo pare.
As frases prontas que atrapalham mais do que ajudam
É justamente aí que precisamos ter cuidado com nossas frases prontas.
"Pense nos seus filhos."
"Mas você tem tanta coisa boa."
"Você é tão amado."
"Tem gente passando por coisa pior."
Eu entendo de onde essas frases vêm. Quando alguém que amamos diz que não quer mais viver, nosso primeiro impulso é tentar mostrar todos os motivos pelos quais deveria querer. Queremos resolver aquilo imediatamente porque nós também ficamos angustiados.
Mas alguém em uma crise suicida não precisa que você prove que a vida dela deveria ser boa. Ela precisa perceber que você acredita que a dor dela é real.
Às vezes, eu não preciso pedir a um paciente que imagine como será sua vida daqui a dez anos. Naquele momento, preciso ajudá-lo a chegar em segurança até amanhã. Depois nós pensamos no restante.
E, se você estiver diante de alguém em risco imediato, não tente assumir sozinho a responsabilidade por mantê-lo seguro. Não deixe essa pessoa sozinha e procure atendimento de urgência.
"Foi só para chamar atenção": por que essa frase precisa sair
Existe outra frase que escuto e que precisamos abandonar: "foi só para chamar atenção".
Minha reação diante dela é quase sempre a mesma: e se foi? Desde quando precisar de atenção significa não precisar de cuidado?
Se uma pessoa chegou ao ponto de colocar a própria vida ou o próprio corpo em risco para conseguir comunicar uma dor, talvez a pergunta mais importante não seja "ela queria atenção?", mas "por que ela precisou chegar até aqui para conseguir ser ouvida?".
Comportamento suicida pode ser impulsivo. Pode haver ambivalência. Pode existir desejo de morrer e desejo de ser salvo ao mesmo tempo. Pessoas são contraditórias. Sofrimento também é. E tentar encaixar tudo em categorias simples muitas vezes nos impede justamente de compreender quem está na nossa frente.
Você não precisa chegar ao fundo do poço
Mas existe uma coisa que eu gostaria muito que acontecesse antes de chegarmos a qualquer uma dessas situações: que as pessoas procurassem ajuda mais cedo.
No consultório, escuto com frequência: "Doutora, eu nem estou tão mal assim." E, quando começamos a conversar, descubro que aquela pessoa está há meses dormindo mal, perdeu o prazer pelas coisas, vive cansada, está mais irritada, não consegue se concentrar, começou a se afastar das pessoas ou sente que está fazendo um esforço enorme apenas para manter uma rotina que antes era natural.
Às vezes, depois de algum tempo de tratamento, ela mesma me diz: "Eu deveria ter vindo antes."
Eu gostaria que tivesse.
Existe uma ideia de que é preciso chegar ao fundo do poço para procurar um psiquiatra. Como se fosse necessário primeiro parar de trabalhar, não conseguir levantar da cama ou entrar em uma crise para que o sofrimento finalmente se tornasse legítimo. Você não precisa estar no fundo do poço para pedir ajuda.
E não precisa chegar à consulta sabendo o que tem. Essa é justamente uma parte do meu trabalho: ouvir o que está acontecendo, entender quando começou, como aquilo está interferindo na sua vida, avaliar se existe um transtorno psiquiátrico ou outra condição envolvida e pensar junto com você no tratamento mais adequado.
Psiquiatria não deveria existir apenas para tratar alguém quando tudo já desmoronou. Uma parte muito importante do nosso trabalho é cuidar antes, e é isso que prevenção ao suicídio significa na prática.
Depois de uma tentativa, o cuidado continua
E quando uma tentativa de suicídio já aconteceu, o cuidado precisa continuar.
Existe um enorme alívio quando alguém sobrevive. É natural. Mas sobreviver à emergência não significa que o sofrimento terminou junto com ela. Depois podem aparecer vergonha, culpa, medo do julgamento, constrangimento e dificuldade de falar sobre o que aconteceu. Pode existir arrependimento pela tentativa e pode existir algo que assusta muito mais a família: a pessoa pode ter sobrevivido e ainda não estar feliz por ter sobrevivido.
Isso precisa poder ser dito. A pessoa não deveria precisar tranquilizar todo mundo dizendo que agora está ótima.
Da mesma forma, receber alta de um pronto-socorro ou de uma internação não significa estar curado. A pessoa volta para casa, para a rotina, para suas relações e, muitas vezes, para alguns dos mesmos problemas que estavam presentes antes da crise. É por isso que o acompanhamento depois da alta é tão importante.
Na prática, isso significa reavaliar o diagnóstico e o tratamento, acompanhar a evolução, envolver a rede de apoio quando necessário, reconhecer sinais de alerta, trabalhar um plano de segurança e reduzir o acesso a meios potencialmente letais. Mas existe um equilíbrio que considero fundamental: cuidado não pode virar vigilância.
Uma tentativa anterior é uma informação clinicamente muito importante. Mas não é uma sentença. Eu não quero reduzir um paciente ao pior dia da vida dele. Quero compreender o que aconteceu e ajudá-lo a construir uma vida na qual morrer deixe de parecer a única forma possível de interromper a dor.
Quem fica: o luto de quem perde alguém para o suicídio
E quando alguém morre, começa outra história. A história de quem fica.
Depois de um suicídio, aparecem perguntas que podem acompanhar os sobreviventes por muito tempo. "Como eu não percebi?", "por que não me contou?", "e se eu tivesse ligado?", "e se eu tivesse chegado antes?", "e se eu tivesse feito alguma coisa diferente?".
Quem fica volta às mensagens, reconstrói conversas, procura sinais, relê o que foi dito na última semana e repassa os últimos dias como se existisse, em algum ponto daquela história, um momento exato em que uma palavra diferente, uma ligação a mais ou uma pergunta feita na hora certa teria bastado para mudar o final, e é justamente essa procura por um ponto de virada que nunca aparece que costuma manter a culpa viva por anos.
Fica a culpa. Mas pode ficar raiva também, e isso ainda é muito difícil de admitir.
É possível amar profundamente alguém e sentir raiva porque essa pessoa foi embora. É possível sentir abandono. É possível sentir raiva porque ela não pediu ajuda e depois sentir uma culpa enorme por estar com raiva de alguém que morreu.
Luto não é feito apenas de sentimentos bonitos.
Também existe uma busca quase inevitável pelo "porquê". Foi a depressão? O relacionamento? Uma dívida? O trabalho? Uma discussão? Alguma coisa que alguém fez?
Nós queremos encontrar uma resposta porque uma única causa parece organizar o caos. Mas suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Pode haver fatores psiquiátricos, psicológicos, sociais, relacionais e ambientais, uso de substâncias, impulsividade, perdas e acontecimentos recentes. Pode existir um gatilho próximo à morte, mas o último acontecimento não necessariamente explica uma vida inteira.
Eu poderia falar sobre tudo isso apenas como médica com pós-graduação em psiquiatria. Poderia falar sobre fatores de risco, fatores de proteção, diagnóstico, tratamento e prevenção. Tudo isso faz parte do meu trabalho. Mas existem coisas que, para mim, já não pertencem apenas aos livros.
E uma das mais difíceis é compreender que amar profundamente alguém não nos dá o poder de salvá-lo de tudo.
Isso não diminui a importância da prevenção. Pelo contrário. Talvez seja justamente por conhecer a dimensão desse sofrimento que eu insista tanto que o cuidado precisa começar antes.
E também insisto que alguém que morreu por suicídio não pode ser transformado apenas na forma como morreu.
Antes daquele último dia existiu uma vida inteira. Existiram aniversários, viagens, domingos comuns, músicas preferidas, manias irritantes, defeitos, risadas, brigas, reconciliações, planos e pessoas que foram amadas. Existiu uma pessoa, não "um suicida", e ela é infinitamente maior do que o último capítulo da própria história.
Prevenção ao suicídio não começa quando alguém diz que quer morrer
É por tudo isso que, apesar de considerar o Setembro Amarelo importante, eu não gosto da ideia de que prevenção ao suicídio pareça pertencer a um único mês.
Porque setembro acaba.
A depressão não.
A ansiedade não.
A desesperança não.
As crises não.
O luto não.
E o cuidado também não pode acabar.
No dia 1º de outubro haverá gente acordando e pensando que não gostaria de estar viva, gente escondendo uma depressão enquanto trabalha normalmente, famílias tentando descobrir como ajudar, pessoas saindo de uma internação e precisando continuar o tratamento. E haverá também aquela pessoa que está há meses pensando em marcar uma consulta, mas continua dizendo a si mesma que "ainda não está tão ruim assim". Talvez essa pessoa seja você.
Se for, eu gostaria de lhe dizer a mesma coisa que digo tantas vezes dentro do meu consultório: você não precisa esperar piorar para procurar ajuda.
Você não precisa saber se é depressão, ansiedade, esgotamento ou qualquer outro diagnóstico antes de marcar uma consulta. Não precisa chegar sabendo explicar perfeitamente o que sente. E não precisa provar para mim que está sofrendo o suficiente.
Pode começar simplesmente dizendo: "Eu não estou bem e não sei exatamente o que está acontecendo."
A partir daí, nós começamos a entender juntos.
É isso que uma boa avaliação psiquiátrica deveria ser: não apenas prescrever uma medicação ou dar um nome para um conjunto de sintomas, mas conhecer aquela pessoa, compreender o que mudou, avaliar riscos, entender seu contexto e construir um tratamento possível para a vida que ela realmente tem.
Por isso, se alguma coisa neste texto pareceu familiar demais, não espere necessariamente que ela se torne insuportável.
Procure ajuda.
E, se você está lendo porque está preocupado com alguém, não espere que essa pessoa encontre sozinha as palavras perfeitas para pedir.
Aproxime-se. Pergunte. Escute. Ajude-a a chegar ao cuidado.
Porque prevenção ao suicídio não começa apenas quando alguém diz "eu quero morrer". Muitas vezes, começa muito antes, quando alguém consegue dizer: "Eu não estou conseguindo."
E encontra alguém disposto a levar essa frase a sério.
Setembro acaba. O nosso compromisso com a vida não.
E cuidado em saúde mental não deveria ter mês, campanha ou data para começar, muito menos para terminar.
Prevenção ao suicídio: onde pedir ajuda agora
CVV · 188 · ligação gratuita, 24 horas por dia, todos os dias. Também por chat e e-mail em cvv.org.br.
SAMU · 192 · Emergência · 190
Em risco imediato, procure o pronto-socorro mais próximo e não deixe a pessoa sozinha.








