“Doutora, ele falou que queria morrer, mas foi durante uma briga. Eu não sei se ele falou sério.”
Essa é uma frase que eu escuto no consultório.
Às vezes é a mãe de um adolescente que começou a se isolar e, no meio de uma discussão, disse que preferia estar morto. Às vezes são os pais de uma criança que, durante uma crise de raiva ou frustração, falou que queria morrer e, minutos depois, estava brincando normalmente. Em outras situações, a família encontrou mensagens, percebeu marcas no corpo ou descobriu que aquele jovem vinha pensando ou falando sobre morte sem que ninguém soubesse.
E quase sempre existe a mesma pergunta:
“Como eu sei se é sério?”
Minha resposta talvez não seja a que os pais esperam: você não precisa saber.
Essa avaliação não deveria ser responsabilidade da família.
Quando uma criança ou um adolescente fala sobre morrer, eu não concluo automaticamente que existe intenção suicida. Mas também não parto da ideia de que é “drama”, “manipulação”, “coisa de adolescente” ou que falou apenas porque estava com raiva.
Eu quero entender.
Quero saber o que aquela criança entende por morte. Quero saber o que estava acontecendo quando disse aquilo, se foi a primeira vez, se já pensou nisso antes, se existem comportamentos de autoagressão, como está o humor, o sono, a escola, os amigos, a relação com a família e o que mudou recentemente.
Porque, quando falamos de suicídio em crianças e adolescentes, uma frase isolada não conta toda a história.
Mas algumas frases são importantes demais para serem simplesmente ignoradas.
Se uma criança ou adolescente estiver em risco agora, procure atendimento de urgência. Não a deixe sozinha. O SAMU atende pelo 192 e, em situações de emergência, também é possível acionar o 190. O CVV atende pelo 188, gratuitamente, 24 horas por dia. Este texto não substitui uma avaliação presencial de urgência.
“Meu filho falou que quer morrer. O que eu faço?”
Primeiro, tente não entrar imediatamente em pânico na frente dele.
Eu sei que é muito mais fácil escrever isso do que fazer. Para um pai ou uma mãe, ouvir o próprio filho falar em morte pode ser assustador. O impulso pode ser perguntar mil coisas de uma vez, chorar, brigar, dizer “não fala uma coisa dessas” ou tentar convencê-lo imediatamente de que ele tem uma vida boa.
Mas pense no que pode acontecer do outro lado.
Um adolescente finalmente consegue contar algo que talvez esteja guardando há semanas ou meses e vê o adulto à sua frente completamente desesperado. Muitas vezes, a reação seguinte é tentar voltar atrás:
“Esquece.”
“Eu estava brincando.”
“Falei de raiva.”
“Não é nada.”
Isso não significa necessariamente que ele mentiu antes. Pode significar apenas que percebeu o impacto que causou e decidiu fechar aquela porta novamente.
Se existe preocupação, pergunte.
“Você tem pensado em morrer?”
“Isso acontece só quando você fica muito nervoso ou você pensa nisso em outros momentos também?”
“Você já pensou em fazer alguma coisa para provocar a própria morte?”
Perguntar sobre suicídio não coloca a ideia na cabeça de uma criança ou adolescente. O silêncio não é mais seguro do que uma conversa cuidadosa.
E, se a resposta preocupar você, procure uma avaliação.
Crianças também podem falar sobre morte e precisamos entender o que isso significa
Quando uma criança pequena diz “eu quero morrer”, existe uma particularidade importante: precisamos entender o que morrer significa para ela.
A compreensão da morte se desenvolve durante a infância. Dependendo da idade e do desenvolvimento, uma criança pode não compreender morte, irreversibilidade e consequências da mesma maneira que um adolescente ou um adulto.
Por isso, no consultório, eu não escuto apenas as palavras. Eu investigo o significado delas.
“O que você acha que acontece quando alguém morre?”
“Quando você falou que queria morrer, o que queria que acontecesse?”
“Você queria não estar mais aqui ou queria que aquela situação acabasse?”
“Você já pensou nisso outras vezes?”
Às vezes aquela fala apareceu em um momento de raiva ou frustração. Em outros casos, existe sofrimento emocional persistente por trás dela. Pode haver conflitos familiares, dificuldades escolares, bullying, ansiedade, sintomas depressivos, perdas ou outras situações que aquela criança ainda não consegue organizar e comunicar.
E aqui existe um ponto que considero fundamental: levar uma fala a sério não significa concluir que aquela criança está prestes a tirar a própria vida.
Entre ignorar e entrar em pânico existe um espaço muito importante chamado avaliação.
É nesse espaço que precisamos estar.
Depressão em adolescentes nem sempre parece tristeza
“Doutora, mas ele não parece deprimido. Ele parece com raiva.”
Eu escuto isso bastante.
Quando pensamos em depressão, imaginamos tristeza, choro, desânimo, alguém quieto e recolhido. Mas, em crianças e adolescentes, a irritabilidade pode ser uma manifestação importante.
De repente, aquele adolescente parece estar permanentemente irritado. Tudo incomoda. As discussões aumentam. Ele responde agressivamente, passa mais tempo no quarto, começa a evitar a família.
Isso significa automaticamente depressão?
Não.
Adolescentes se irritam, questionam, buscam autonomia, mudam a relação com os pais. Nem toda porta batida é sintoma psiquiátrico e transformar qualquer comportamento típico da adolescência em doença também não ajuda.
Por isso, uma das perguntas que mais me interessa em uma avaliação é:
“O que mudou?”
Como esse jovem era antes?
Há quanto tempo está diferente?
Como está dormindo? Como está o apetite? Ainda sente prazer nas coisas de que gostava? Continua encontrando os amigos? Houve queda importante no rendimento escolar? Começou a faltar às aulas? Abandonou atividades que antes eram importantes? Está se isolando? Está mais impulsivo? Começou a usar álcool ou outras substâncias? Tem falado que não serve para nada, que é um peso ou que ninguém sentiria sua falta?
Eu não procuro um único “sinal de suicídio”.
Eu procuro compreender uma mudança dentro da história daquele jovem.
Porque a adolescência tem mudanças.
Mas nem todo sofrimento é “coisa da adolescência”.
Automutilação significa que meu filho quer morrer?
Não necessariamente.
E fazer essa diferenciação é muito importante.
Quando os pais descobrem que um filho está se machucando, frequentemente a primeira pergunta é: “Ele está tentando se matar?”
Comportamentos de autoagressão podem acontecer sem intenção suicida. Para alguns jovens, machucar o próprio corpo aparece como uma maneira disfuncional de lidar com uma tensão emocional muito intensa, tentar aliviar sentimentos difíceis ou expressar algo que não consegue ser colocado em palavras.
Isso não torna o comportamento menos importante.
Na minha prática, quando descubro que existe autoagressão, eu quero entender o que acontece antes, durante e depois daquele comportamento. Quero saber com que frequência ocorre, há quanto tempo, qual função parece ter para aquele jovem e, principalmente, se pensamentos de morte ou suicídio também estão presentes.
Autoagressão sem intenção suicida e tentativa de suicídio não são a mesma coisa.
Mas uma não nos autoriza a deixar de avaliar a outra.
O que eu evitaria é transformar a casa em um interrogatório ou fazer daquela descoberta uma acusação.
“Como você pôde fazer isso?”
“Você está fazendo isso para nos atingir?”
“Você tem tudo, por que faz uma coisa dessas?”
Naquele momento, precisamos tentar compreender o sofrimento do jovem, e não fazê-lo assumir também a responsabilidade pelo sofrimento que a descoberta causou nos adultos.
“Ele está fazendo isso para chamar atenção”
Talvez essa seja uma das frases que mais atrapalham quando falamos de sofrimento emocional em crianças e adolescentes.
“Ela se machuca para chamar atenção.”
“Falou que queria morrer porque eu tirei o celular.”
“Ele sabe que, quando fala isso, consegue o que quer.”
“É manipulação.”
Minha pergunta é muito parecida com a que faço quando escuto isso sobre um adulto:
E se estiver pedindo atenção?
Desde quando uma criança ou adolescente precisar desesperadamente de atenção significa que devemos oferecer menos cuidado?
Jovens nem sempre conseguem dizer: “Eu estou vivendo um sofrimento emocional intenso e não tenho recursos para lidar com ele.”
Às vezes eles mostram.
Isso não significa que os pais devam ceder a todas as exigências, retirar limites ou aceitar qualquer comportamento por medo.
Acolher sofrimento não significa abandonar limites.
Podemos dizer não para alguma coisa e, ao mesmo tempo, querer entender por que a reação àquele “não” foi tão intensa.
Podemos manter uma regra e ainda perceber que existe sofrimento.
Podemos não reforçar determinado comportamento e, ainda assim, cuidar da pessoa que está por trás dele.
Chamar tudo de manipulação pode ser uma maneira muito perigosa de parar de escutar.
Bullying, redes sociais e uma adolescência que continua depois que a porta do quarto fecha
Quando converso com adolescentes, uma parte da vida deles necessariamente passa pelo mundo digital.
E isso precisa ser levado a sério.
Para muitos pais, chegar em casa significava, na própria adolescência, afastar-se fisicamente da escola e de boa parte dos conflitos daquele ambiente.
Para os filhos de hoje, não necessariamente.
O filho chega em casa, fecha a porta do quarto e a escola pode continuar dentro do celular.
O grupo continua ali. A comparação continua. A exclusão continua. Uma discussão pode atravessar a madrugada. Uma humilhação pode alcançar dezenas ou centenas de pessoas. Uma imagem pode continuar circulando quando aquele adolescente já não consegue fazer nada para interrompê-la.
Ao mesmo tempo, eu não gosto do discurso simplista de que “o problema são as redes sociais”.
A internet também é espaço de amizade, pertencimento, diversão, informação e construção de identidade.
O que importa é entender como aquele jovem está vivendo naquele ambiente.
Por isso, quando avalio um adolescente, eu quero saber sobre escola, amigos e família, mas também quero saber sobre o celular.
Existe bullying ou cyberbullying? Houve exposição? Rejeição? Ameaças? Algum relacionamento terminou? Existe pressão de grupos? O que esse jovem está consumindo? O que acontece quando ele fica online?
A vida digital não é uma vida falsa.
Para um adolescente, ela faz parte da vida real.
O que eu avalio quando uma família chega ao consultório
Muitos pais ficam inseguros antes da primeira consulta.
Não sabem se devem contar tudo na frente do filho, se vou conversar com o adolescente sozinho, se uma consulta psiquiátrica significa necessariamente receber um diagnóstico ou sair com uma prescrição de medicação.
Não precisa ser assim.
Quando recebo uma criança ou adolescente, eu preciso conhecer aquela história.
Quero saber sobre desenvolvimento, saúde, comportamento, escola, sono, alimentação, relações familiares, amizades, sintomas, tratamentos anteriores, medicações quando existem e o que fez aquela família procurar ajuda naquele momento.
Preciso ouvir os responsáveis.
Mas também preciso ouvir meu paciente.
Principalmente na adolescência, pode ser importante reservar uma parte da consulta para conversar individualmente. Existem assuntos que um jovem talvez não consiga falar na frente dos pais.
Isso não significa colocar adolescente e família em lados opostos.
Eu não estou ali para formar uma aliança com o adolescente contra os pais, nem com os pais contra o adolescente.
Meu paciente é aquele jovem. E, muitas vezes, cuidar dele também significa ajudar a família a compreender o que está acontecendo.
Existe confidencialidade na consulta, mas ela tem limites quando estamos falando de segurança. Eu considero importante que isso seja explicado de maneira clara. Um adolescente pode ter um espaço de privacidade comigo, mas precisa saber que, se eu identificar uma situação de risco importante, os responsáveis precisarão participar da proteção dele.
Confiança não deveria depender de prometer um segredo que talvez eu não possa manter.
Ela precisa ser construída com clareza.
“E se meu filho não quiser ir ao psiquiatra?”
Isso acontece.
Já recebi adolescentes que deixam muito claro desde o início:
“Eu só estou aqui porque minha mãe me trouxe.”
Tudo bem.
Eu não espero que um adolescente entre no consultório querendo contar sua vida para uma pessoa que acabou de conhecer.
Confiança leva tempo.
Às vezes, os pais estão muito preocupados e o adolescente acha que não existe problema nenhum. Em outras situações, o jovem sabe exatamente o tamanho do sofrimento, mas não queria que a família descobrisse.
Eu preciso ouvir as duas versões.
E também não parto do princípio de que todo jovem que chega a uma consulta psiquiátrica precisará tomar medicação.
Primeiro vem a avaliação.
Dependendo do quadro, o tratamento pode envolver psicoterapia, orientação familiar, intervenções na rotina e na escola, tratamento medicamentoso ou uma combinação dessas estratégias.
A conduta depende do que eu encontrar naquela pessoa.
Não trato uma idade. Não trato apenas um sintoma. Trato aquele paciente.
Quando é necessário procurar atendimento de urgência?
Essa é uma das perguntas mais importantes para os pais.
E existe um limite para aquilo que um artigo na internet consegue responder.
Se uma criança ou adolescente apresenta risco imediato de provocar a própria morte ou de se ferir gravemente, se houve uma tentativa, se existe uma situação em que você não consegue manter a segurança dele ou se alguma coisa no comportamento faz você acreditar que não é seguro esperar por uma consulta ambulatorial, procure atendimento de urgência.
Nessas situações, segurança vem primeiro.
Não deixe o jovem sozinho enquanto busca ajuda. Medicamentos e outros meios potencialmente perigosos devem ficar sob responsabilidade de um adulto, e o ambiente precisa ser organizado pensando em segurança.
Na minha prática, em determinados momentos, também oriento que um responsável fique encarregado da administração das medicações.
Isso não é punição.
É proteção durante um período de maior vulnerabilidade.
E não é necessário que os pais consigam determinar sozinhos “o tamanho” do risco para merecer procurar um pronto-socorro. Se você genuinamente não se sente seguro em deixar seu filho sozinho, isso já merece atenção imediata.
Falar em suicídio significa que meu filho precisa ser internado?
Não.
E esse medo faz algumas famílias, e alguns adolescentes, evitarem falar sobre o assunto.
Ideação suicida não significa automaticamente internação psiquiátrica.
Uma avaliação de risco considera muitos elementos: intensidade e persistência dos pensamentos, intenção, planejamento, comportamentos recentes, tentativas anteriores, impulsividade, condições psiquiátricas associadas, capacidade de permanecer seguro, rede de apoio e possibilidade de acompanhamento próximo.
Há crianças e adolescentes que podem ser tratados ambulatorialmente com segurança.
Em outras situações, entretanto, uma internação psiquiátrica pode ser necessária para proteção, avaliação e estabilização.
O que não deveríamos fazer é usar internação como ameaça.
“Se você continuar falando essas coisas, eu vou te internar.”
Pense no que um adolescente aprende ao ouvir isso.
Talvez ele não deixe de pensar em morrer.
Talvez apenas deixe de contar.
Quando existe indicação, internação é tratamento. Não castigo.
Você não precisa esperar seu filho tentar suicídio para procurar ajuda
Talvez você tenha chegado até aqui porque alguma coisa mudou e você não consegue decidir se deve se preocupar.
- Seu filho está mais isolado.
- Mais irritado.
- Parou de fazer coisas de que gostava.
- O rendimento escolar caiu.
- O sono mudou.
- Começou a faltar às aulas.
- Está tendo crises frequentes.
- Você encontrou marcas no corpo.
- Ele começou a falar muito sobre morte.
Ou talvez não exista nada tão objetivo.
Você só olha para ele e pensa:
“Meu filho não está igual.”
No consultório, pais chegam até mim exatamente assim.
“Doutora, eu não sei se isso é adolescência ou se existe alguma coisa acontecendo.”
Você não precisa chegar sabendo.
Essa é justamente uma das funções de uma avaliação psiquiátrica.
Eu vou querer entender quem era essa criança ou adolescente antes, o que mudou, quando mudou, como está funcionando em casa e na escola, como estão as relações, o desenvolvimento, o humor, a ansiedade, o sono, a impulsividade e tudo aquilo que fizer sentido naquela história.
Vou ouvir você e vou ouvir seu filho.
A partir daí, conseguimos pensar no que está acontecendo e no que precisa ser feito.
Você não precisa esperar uma tentativa de suicídio para marcar uma consulta.
Aliás, eu gostaria muito que não esperasse.
Psiquiatria da infância e adolescência não existe apenas para atender crises graves. Existe também para reconhecer sofrimento mais cedo, fazer diagnóstico quando houver um transtorno, orientar famílias e construir tratamento antes que aquela criança ou adolescente chegue ao limite.
Se você percebeu uma mudança persistente no seu filho, se alguma fala o preocupou ou se simplesmente existe uma sensação de que alguma coisa não está bem, procurar uma avaliação não significa que você está exagerando.
Significa que decidiu entender.
E, muitas vezes, é exatamente aí que o cuidado começa.
Porque prevenção ao suicídio em crianças e adolescentes não começa apenas quando um jovem diz:
“Eu quero morrer.”
Começa muito antes.
Quando percebemos uma mudança.
Quando levamos uma fala a sério.
Quando perguntamos em vez de supor.
Quando escutamos antes de julgar.
E, principalmente, quando não esperamos o sofrimento se transformar em emergência para finalmente procurar ajuda.
Suicídio em crianças e adolescentes: onde pedir ajuda agora
Em risco imediato ou após uma tentativa de suicídio, procure o pronto-socorro mais próximo e não deixe a criança ou adolescente sozinho.
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Emergência · 190
CVV · 188 · atendimento gratuito, 24 horas por dia, também por chat em cvv.org.br
Para situações que não configuram uma emergência, mas em que existem mudanças de comportamento, sofrimento emocional, autoagressão, pensamentos de morte ou outras preocupações, uma avaliação com profissional de saúde mental pode ajudar a compreender o que está acontecendo e definir a conduta adequada.
Para agendar uma avaliação psiquiátrica de crianças ou adolescentes comigo, entre em contato com a equipe da clínica.








