A necessidade de aprovação costuma se revelar num intervalo de meio segundo, entre o pedido e a resposta. Uma amiga pergunta se você pode ficar com o cachorro dela no feriado. Você tinha outros planos, sente o corpo inteiro dizer não e ouve a própria boca responder: "claro, pode deixar". Mais tarde vem a irritação, e ela não é com a amiga.
Se essa cena é familiar, vale olhar para ela com calma. É como se, em algum momento da vida, você tivesse assinado uma procuração sem ler: um documento que autoriza os outros a decidir por você o que aceitar, o que vestir, o que dizer e até o que querer.
Ninguém assina esse papel por falta de personalidade. Ele tem uma história.
De onde vem a necessidade de aprovação?
A necessidade de aprovação costuma nascer cedo, quando o afeto parecia depender do comportamento. A criança que recebia carinho quando era boazinha ou útil aprende que agradar é o caminho seguro para ser amada. O adulto leva essa regra adiante sem perceber que ela foi escrita para outra época.
Algumas histórias deixam essa marca com mais força, como a de uma casa com muita crítica ou a de pais de humor imprevisível, em que agradar evitava a briga. Em muitas famílias, a educação também premia a menina prestativa e cala a que discorda.
Querer a aprovação dos outros é humano. Todo mundo gosta de um elogio e sente uma crítica. O problema aparece quando a aprovação vira condição. Sem ela, você não consegue se sentir bem nem ter certeza de que fez a coisa certa.
Quais os sinais de que você vive para o olhar do outro?
O sinal mais claro é não saber o que você quer sem antes checar o que os outros esperam. A pergunta "o que você prefere?" trava e a resposta automática é "tanto faz" ou "o que você quiser". Outros sinais costumam andar junto:
- pedir desculpas por coisas que não são culpa sua;
- mudar de opinião conforme a pessoa com quem você fala;
- passar dias remoendo uma crítica pequena;
- ensaiar conversas simples para não desagradar;
- aceitar tarefas e depois se ressentir em silêncio;
- precisar do aval de alguém até para escolher a roupa ou o restaurante.
No trabalho, isso aparece como o prazo que você nunca negocia e a tarefa extra que sempre cai na sua mesa. No relacionamento, como o gosto que você guarda para não parecer difícil, até o dia em que já não lembra qual era.
Se você se reconheceu em vários itens, a procuração anda sendo usada demais.
Qual é o preço de viver para agradar?
O preço é a perda do eu. De tanto ajustar o que você quer ao que os outros esperam, você deixa de saber quem é quando ninguém está olhando. A vida passa a girar em torno de evitar desagrado. O que faz sentido para você fica para depois. E o depois quase nunca chega.
Esse custo aparece aos poucos. Primeiro vem o cansaço de vigiar o tempo todo as reações alheias. Depois, um ressentimento com pessoas que nem sabem que pediram demais. E um dia aparece uma sensação de vazio, como se a própria vida estivesse sendo vivida por procuração.
Não é o mesmo que deixar de se cuidar. O blog tem um texto da Dra. Amanda sobre o autoabandono, quando a pessoa esquece de si. Aqui a pessoa pode estar impecável, justamente porque até a aparência é feita para o olhar do outro. Esse lado é um dos motores da pressão estética, sobre a qual já escrevi.
Por que dizer não parece tão perigoso?
Dizer não parece perigoso porque, para quem aprendeu que o afeto depende de agradar, cada recusa soa como risco de perder a relação. O corpo reage como a uma ameaça. O coração acelera, a culpa chega antes da resposta e o "sim" sai para acabar com o desconforto.
Muita gente trata o não como egoísmo. Um não dito com respeito protege a relação, porque dá valor ao sim. Quem nunca recusa nada oferece um sim que ninguém consegue ler, já que não dá para saber se é vontade ou medo.
Dá para aprender a dizer não aos poucos:
- pedir um tempo antes de responder ("deixa eu ver e te falo amanhã");
- começar por recusas pequenas, em situações de baixo risco;
- recusar sem um parágrafo de justificativa, porque "dessa vez não vou conseguir" já é uma frase completa;
- observar o que acontece de fato depois do não e comparar com o que o medo previa.
Como a terapia ajuda a se reencontrar?
A terapia ajuda porque é um lugar onde ninguém precisa ser agradado. Só isso já é parte do trabalho. Na psicoterapia, a gente investiga de onde veio a regra de agradar e o que você deixou de lado para cumpri-la.
Aos poucos, o trabalho vira reconstrução. Você volta a fazer perguntas que ficaram anos sem resposta, como "do que eu gosto?" e "o que eu quero?". Aprende a aguentar a culpa que aparece depois do primeiro não, sem voltar atrás. E descobre que as relações que valem a pena resistem a um desacordo.
Um dos primeiros sinais de que o trabalho está andando parece pequeno. Você percebe o sim automático meio segundo antes que ele saia. Nesse meio segundo cabe uma escolha.
Se a necessidade de aprovação vier com ansiedade forte ou tristeza que não passa, vale somar uma avaliação psiquiátrica. No Instituto, psicologia e psiquiatria acompanham o mesmo caso.
Toda procuração pode ser revogada. O olhar do outro importa, porque a gente vive de vínculos. A assinatura, daqui em diante, é sua.








