Você se olhou no espelho hoje e não gostou do que viu. O corpo mais inchado, de um jeito que você não reconhece. O cabelo que faz tempo que você não cuida direito. As unhas mais fracas, quebrando à toa. Você abre a gaveta e pega qualquer lingerie, aquela de sempre, porque escolher já virou esforço demais. Passa a maquiagem e reclama que nunca fica boa. E vai dormir com uma sensação difícil de nomear: a de que alguém te abandonou. Só que não foram os outros. Foi você.
Muitas mulheres relatam essa cena, quase sempre com a voz baixa, como se fosse vergonhoso. Acham que é bobagem, que é frescura, que não deveriam estar gastando o tempo da consulta com "isso". Mas, eu preciso te dizer uma coisa antes de qualquer explicação: isso não é bobagem. E você não está exagerando.
Antes de ser médica, gosto de dizer: eu também sou mulher, eu te entendo e também sinto como você. Sei o quanto a gente aprende cedo a colocar todo mundo na frente. É a empresa do pai, as prioridades da mãe, o irmão que faz aquilo, os amigos da escola e é assim, que a gente se esquece. Por isso reconheço rápido quando uma paciente descreve esse tipo de cansaço. Não é o cansaço de um dia difícil, mas o cansaço de quem sumiu de si mesma sem perceber a hora em que isso aconteceu.
O que é o auto-abandono?
Auto-abandono é quando você deixa de se cuidar de forma persistente, não por preguiça ou falta de tempo, mas porque perdeu o vínculo consigo mesma. Você continua cuidando de todo mundo. De si, não. Os pequenos gestos de existir para você vão desaparecendo, um a um, quase em silêncio.
Repare que a chave está na palavra persistente. Todo mundo tem um dia em que se olha no espelho e não gosta. Isso é humano, passa. Nem todo dia estamos perfeitas. Porém, o que preocupa é quando esse abandono vira rotina, quando cuidar de si deixou de ser algo que você faz sem pensar e virou uma tarefa que você adia toda semana.
Parei de me cuidar. Isso é só vaidade?
Não é vaidade. É um sinal. Quando uma mulher para de cuidar do corpo, do cabelo, das unhas, da roupa que veste por baixo, ela raramente está sendo relaxada. Ela está esgotada de um jeito mais fundo. O corpo que ela não reconhece é, muitas vezes, o primeiro lugar onde o sofrimento aparece.
Existe uma diferença enorme entre não ter tempo para se arrumar e não conseguir mais se importar. A primeira é logística. A segunda é clínica. Quando a vontade de cuidar de si evapora, a gente precisa olhar com atenção, porque o auto-abandono costuma andar junto de coisas que valem a pena investigar.
Por que a mulher esquece de si mesma?
Porque ela aprendeu que cuidar dos outros vem primeiro. Da empresa que depende dela, do marido, dos filhos, dos pais que envelhecem, da casa que nunca está pronta. A conta de tudo isso é paga na moeda mais silenciosa que existe: ela mesma.
Penso numa metáfora simples, dessas de dentro de casa. Você é aquela panela que fica no fogo alimentando a família inteira, refeição após refeição, e que ninguém lembra de lavar. No fim do dia ela está lá, encardida, esquecida na pia. Não é que a panela seja menos importante. É que ela virou invisível de tanto servir.
Só que a gente não é panela. Quando uma mulher se apaga desse jeito, o corpo cobra. E ele cobra pelos sinais que ela mais tenta ignorar: a aparência que se descuida, a energia que não volta, o prazer que some das coisas que antes davam gosto. Escrevi sobre esse esgotamento que ninguém vê mas todo mundo cobra em outro texto sobre a sobrecarga feminina, se você quiser se aprofundar.
Auto-abandono é o mesmo que depressão?
Nem sempre, mas pode ser o começo. O auto-abandono às vezes é um dos primeiros sinais de um quadro depressivo, ou aparece junto de outras condições. Sozinho, ele não fecha um diagnóstico. Somado à perda de energia, de prazer e de vontade que não passa, ele merece uma avaliação cuidadosa.
Preciso ser precisa com você aqui, porque no consultório não trabalho com adivinhação. Não gostar da própria imagem num dia ruim é uma coisa. Ela vai embora quando o dia melhora. O padrão que se instala é bem diferente: você para de se cuidar, some a energia, some o prazer nas coisas, e isso já dura semanas sem dar trégua. Esse conjunto pode indicar depressão, e vale levar a sério.
E existe ainda um terceiro quadro, que não se confunde com nenhum dos dois: a preocupação obsessiva e exagerada com algum "defeito" na aparência, aquela que consome horas do dia e gera muito sofrimento. É outra história clínica, com outro cuidado. Não cabe a nenhum texto separar essas possibilidades. Cabe a uma avaliação individual, feita com tempo, olhando você inteira e não um sintoma solto. Já falei da depressão que se disfarça de outras coisas naquele texto sobre sinais silenciosos que a gente confunde com cansaço.
Como o auto-abandono aparece no dia a dia?
Ele aparece nas pequenas coisas, quase nunca de forma dramática. É a escova de cabelo que fica na gaveta. É a consulta médica sua que você remarca pela terceira vez, enquanto lembra sem falha das dos filhos. É o prato que você monta para a família e o seu que fica pela metade, comido em pé, sem fome real.
São gestos miúdos, cada um fácil de justificar. O peso não está em nenhum deles isolado. Está na soma, no padrão que se repete até você olhar no espelho e não se reconhecer mais. Foi assim, aos pouquinhos, que a depressão invadiu a vida de tantas mulheres que dão conta de tudo, um tema sobre o qual escrevi aqui neste texto.
O que fazer quando percebo que parei de me cuidar?
O caminho de volta começa pequeno. Não é uma reforma da vida inteira de uma vez. É voltar a existir para si mesma em gestos mínimos: lavar o cabelo com um pouco de calma, escolher a roupa de baixo que te faz sentir bem, marcar aquela consulta sua e não desmarcar. Cada gesto miúdo é uma forma de você se colocar de volta na própria lista.
E quando o sofrimento persiste, quando ele não cede aos gestos pequenos e continua pesando semana após semana, buscar ajuda deixa de ser opção e vira cuidado. Procurar um profissional não é sinal de que você falhou. Só uma avaliação individual consegue enxergar o que está por trás do que você sente, e definir com você o melhor caminho.
A vida do outro lado
Imagine se olhar no espelho de novo e reconhecer a mulher que está ali. Não perfeita, não pronta, mas presente. Voltar a sentir gosto por coisas pequenas: o cheiro do próprio cabelo lavado, a roupa que agrada, o gesto de se arrumar não por obrigação, mas porque você existe e merece. O auto-abandono se desfaz do mesmo jeito que se instalou, aos poucos, um cuidado de cada vez.
Você passou tempo demais cuidando de todo mundo. Se a mulher do espelho anda difícil de reconhecer, esse pode ser o momento de trazer alguém para caminhar com você.
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Cuidar de si não é o que sobra depois de cuidar dos outros. É o que sustenta todo o resto.








