Você conta os dias até poder fazer o teste, lê cada cólica como resposta e, quando a menstruação desce, sente uma tristeza que os outros chamam de exagero, como se infertilidade e saúde mental não tivessem relação? Durante duas semanas, cada cansaço e cada seio dolorido parecem sinal. Você evita a taça de vinho, faz a conta da data provável do parto. E depois desfaz tudo em silêncio, de novo.
Esse movimento lembra pôr a mesa para uma visita. Todo mês você arruma a mesa inteira, com cuidado, para alguém que ainda não chegou. E todo mês tira a mesa sozinha, muitas vezes sem contar a ninguém que ela esteve posta.
Não é exagero. É luto. E ele se repete a cada ciclo.
Por que cada menstruação dói como uma perda?
Porque é uma perda. A cada ciclo, você perde uma possibilidade que já tinha começado a imaginar: a data provável, o jeito de contar para a família, às vezes o nome. Esse luto não tem velório nem licença do trabalho e por isso passa despercebido, inclusive por quem sente.
É o chamado luto não reconhecido: uma perda real que as pessoas em volta não enxergam como perda. Ninguém manda mensagem no dia em que a menstruação desce.
Com os meses, a espera entre a ovulação e o teste vira a parte mais longa da vida. A viagem e a troca de emprego ficam "para depois". A mesa ocupa a casa inteira.
Qual a relação entre infertilidade e saúde mental?
A relação entre infertilidade e saúde mental é direta: meses de tentativa, exames e expectativa frustrada favorecem ansiedade, tristeza persistente e, em parte das mulheres, depressão. A Organização Mundial da Saúde registra que o impacto recai sobretudo sobre as mulheres, com estresse emocional, ansiedade, depressão e baixa autoestima.
A infertilidade também não é rara: segundo a OMS, cerca de uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva passa por ela em algum momento da vida.
A ansiedade costuma aparecer como vigilância: pesquisar sintomas de madrugada, abrir o aplicativo do ciclo várias vezes ao dia. A tristeza aparece como afastamento: evitar chá de bebê, aniversário de criança, a rede social cheia de barriga. Sentir inveja da amiga grávida não faz de você uma pessoa ruim. Faz de você uma pessoa em luto.
O sinal de alerta para depressão é quando a tristeza sai do assunto e toma o resto: duas semanas ou mais sem prazer em nada, sono e apetite alterados, a sensação de que nada vai mudar.
Por que o casal sofre de jeitos diferentes?
Porque cada um atravessa a perda no seu ritmo e na sua linguagem. É comum um querer falar do assunto o tempo todo e o outro preferir não tocar nele. Quem quer falar parece exagerado; quem se cala parece desinteressado. Diferença de ritmo não é diferença de amor. Confundir as duas coisas desgasta a relação mais do que a própria espera.
O sexo com data marcada perde a leveza e vira tarefa. O dinheiro dos exames entra na conversa. A causa pode estar no corpo de qualquer um dos dois. Quem a carrega costuma carregar também a culpa, como se tivesse falhado com o outro.
Um tira a mesa em silêncio, o outro prefere nem olhar para ela. Os dois estão de luto, cada um do seu jeito. Dizer isso em voz alta, com o parceiro ou a parceira, costuma aliviar mais do que qualquer conselho.
O tratamento de fertilidade mexe com o humor?
Mexe, por dois caminhos. Os hormônios usados no tratamento mudam os níveis de estrogênio e progesterona em pouco tempo e algumas mulheres sentem o humor mais instável nesse período. O próprio processo também pesa, com consultas, exames, injeções e a espera pelo resultado, mesmo quando tudo corre bem.
Quem conduz o tratamento de fertilidade é o ginecologista: a escolha dos hormônios, as doses, cada ajuste. É com ele que se conversa sobre qualquer mudança. O meu papel é outro: cuidar de como você atravessa esse processo.
Se você já usa remédio para ansiedade ou depressão, não suspenda por conta própria ao começar a tentar. Essa decisão se toma em conjunto, entre quem cuida da sua saúde mental e o ginecologista. E se você já percebe que o humor acompanha o ciclo, o texto sobre ansiedade e ciclo menstrual ajuda a reconhecer esse padrão.
Quando buscar apoio de saúde mental?
Quando o sofrimento deixa de caber entre um ciclo e outro: a tristeza não passa depois que a menstruação vai embora, a ansiedade ocupa o dia inteiro, o sono piora, a relação vira só tentativa ou você se afasta de pessoas e lugares para não ver grávidas nem bebês.
Aqui no consultório, as consultas são longas, porque não dá para entender uma história dessas em dez minutos. O cuidado costuma ter quatro frentes que andam juntas:
- Acompanhamento do humor, ciclo a ciclo, para enxergar o padrão e agir antes do pior mês.
- Psicoterapia, individual ou do casal, para dar lugar ao luto e à decisão.
- Remédio, quando indicado, sempre combinado com o ginecologista.
- Rotina: sono, trabalho, redes sociais e as datas que doem, como o Dia das Mães e o chá de bebê da prima.
A equipe e as frentes desse cuidado estão reunidas na página de saúde mental feminina.
Como decidir entre parar ou continuar tentando?
A decisão de parar, pausar ou continuar é do casal e não precisa ser tomada de uma vez nem para sempre. Ajuda separar as perguntas: o que a medicina diz sobre as chances, com o ginecologista, e o que o corpo, a relação, o bolso e a saúde mental ainda comportam.
Uma pausa de alguns meses, combinada com o ginecologista, é uma escolha possível: a mesa fica guardada enquanto você volta a ter vida fora da tentativa. Existem outros caminhos para a maternidade e existe a vida sem filhos.
O acompanhamento não escolhe por você. Ele devolve o fôlego para você escolher.
Pôr a mesa todo mês é um gesto de esperança e ninguém precisa abrir mão dele. O que dá para mudar é o jeito de tirá-la: com alguém do lado e sem voltar ao trabalho no dia seguinte fingindo que nada aconteceu.
O desejo de ser mãe não precisa custar a mulher que você é enquanto espera.








