A automutilação na adolescência quase nunca chega como notícia. Ela é descoberta.
Às vezes é uma marca que o filho não soube explicar. Às vezes é uma conversa aberta no celular, uma ligação da escola, um comentário do irmão mais novo na mesa do jantar. De repente, os pais estão diante de uma coisa que não imaginavam e que não sabem nomear.
Nos dias seguintes, a porta do quarto passa a ocupar a casa inteira. Você fica em dúvida se bate, se entra sem bater, se tira a chave, se finge que não viu. Nessa hora, é comum ouvir dos pais frases como estas:
"Eu não sei se converso agora ou se espero ele vir falar."
"Tenho medo de piorar tudo com uma palavra errada."
O que acontece nas próximas horas e nos próximos dias pesa muito no que vem depois. É nesse tempo que o assunto volta a ser conversado em casa ou vira segredo.
Se houver risco agora, não espere. Procure o pronto-socorro mais próximo e não deixe seu filho sozinho. O SAMU atende pelo 192, a emergência pelo 190 e o CVV pelo 188, de graça e a qualquer hora.
Descobri que meu filho se machuca: o que fazer primeiro?
Primeiro, pergunte se ele está machucado agora e se precisa de atendimento médico. Depois, acalme a sua respiração antes de conversar. Da primeira conversa, espere pouco: que o adolescente perceba que ser descoberto não trouxe um desastre para dentro de casa e que existe um adulto disposto a ouvir.
Escolha um momento calmo, sem plateia. Sente ao lado dele, não na frente. Fale pouco e pergunte o suficiente:
"Eu vi, e isso me preocupa. Quer me contar o que está acontecendo?"
"Isso acontece quando você está sentindo o quê?"
"Tem alguma coisa que eu possa fazer agora para você se sentir mais seguro?"
Se ele não quiser falar, aceite o silêncio sem desistir da conversa: "Tudo bem não falar agora. Amanhã eu pergunto de novo." Adolescente costuma testar se o adulto aguenta o assunto antes de contar o resto.
Diga também que vão marcar uma avaliação juntos e explique o motivo: o que ele está sentindo merece o cuidado de alguém que entende do assunto.
Há uma coisa que eu gostaria de tirar das suas costas. Você não precisa descobrir, nessa conversa, por que ele se machuca nem o tamanho do problema. Isso cabe a quem vai avaliar. A sua parte é manter a conversa aberta e levar seu filho até lá.
O que não dizer a um adolescente que se machuca?
Evite as frases que pedem promessa, que diminuem o que ele sente ou que exigem segredo. Elas saem no susto e por amor, e mesmo assim ensinam ao adolescente que da próxima vez é mais seguro esconder. A conversa quer o contrário: que ele volte a contar.
"Me promete que nunca mais vai fazer isso."
A promessa parece proteção e funciona como dívida. Se a vontade voltar, o adolescente passa a ter duas coisas para esconder: o comportamento e a promessa quebrada.
"Isso é moda. Você viu na internet."
Mesmo quando existe influência de grupo ou de rede social, a dor que leva aquele jovem a se machucar é dele. Chamar de moda encerra a conversa antes de ela começar.
"Na sua idade, eu tinha problema de verdade."
A comparação diz a ele que o sofrimento precisa ser merecido para ser levado a sério.
"Não conta para ninguém. O que os outros vão pensar?"
Privacidade é uma coisa. Pedir segredo é outra: comunica vergonha e isola quem mais precisa de gente por perto.
"Me mostra."
Pedir para ver o corpo na hora do susto costuma ser vivido como humilhação. Se você tem dúvida sobre a necessidade de cuidado médico, pergunte e deixe o exame para quem vai atender.
No lugar delas, uma frase simples: "Eu ainda não entendo, mas quero entender."
Por que o adolescente se machuca?
O adolescente costuma se machucar para aliviar uma emoção intensa que ele não consegue nomear nem atravessar de outro jeito. Por alguns instantes, a dor física ocupa o lugar da dor emocional. O alívio vem rápido e vai embora rápido. Por isso o comportamento tende a se repetir.
A função muda de um jovem para outro. Um quer acalmar uma angústia que não cabe no corpo. Outro quer sentir alguma coisa quando tudo parece anestesiado. Há quem se machuque para se punir, para ter alguma sensação de controle quando o resto da vida saiu do lugar ou para mostrar um sofrimento que não encontra palavra.
Aí vem o espanto dos pais:
"Mas ela tem tudo. Não falta nada em casa."
Sofrimento emocional não se mede pelo que falta em casa. Crianças e adolescentes não existem separados do ambiente em que vivem. Esse ambiente inclui a escola, os amigos, o celular e o que aquele jovem pensa de si mesmo. Depressão, ansiedade, bullying, conflitos, uma perda recente ou uma experiência de violência podem estar por trás. O blog tem um texto sobre os sinais de depressão nos adolescentes de hoje e o peso das redes nessa idade.
Na avaliação, eu quero entender o antes e o depois:
"O que você estava sentindo pouco antes?"
"E depois, o que mudou?"
"Quem mais sabe?"
Automutilação na adolescência aumenta o risco de suicídio?
Sim. Automutilação na adolescência não é tentativa de suicídio: muitos jovens se machucam sem querer morrer. Mas quem se machuca corre mais risco de, em algum momento, pensar em tirar a própria vida ou tentar. Por isso, toda descoberta pede uma pergunta direta sobre pensamentos de morte.
Expliquei essa diferença no texto sobre suicídio em crianças e adolescentes. A ligação está no que o comportamento faz: alivia a dor por um momento e deixa a causa onde estava. Se nada muda em volta, a sensação de que nada adianta pode crescer e os pensamentos de morte crescem junto.
Então pergunte, com calma:
"Você já pensou em morrer?"
"Quando você se machuca, você quer morrer ou quer que a dor passe?"
Perguntar não coloca a ideia na cabeça dele. Se a resposta assustar você, conte isso na avaliação. Se houver intenção ou plano, não espere a consulta: é urgência.
Como manter a casa segura sem virar vigilância?
Segurança em casa é reduzir o acesso ao que pode ferir e combinar com seu filho o que fazer quando a vontade vier. Vigilância é revistar o quarto, ler mensagens escondido e tirar a porta. Com a vigilância, o adolescente aprende a disfarçar melhor e se afasta de quem poderia ajudar.
A segurança cabe em poucos acordos:
- Remédios da casa, inclusive os comuns, sob a guarda de um adulto.
- O que puder ferir, fora do alcance fácil, sem transformar a casa num cofre.
- Um combinado para a hora difícil: "Se a vontade vier, você pode me chamar, mesmo de madrugada. Eu não vou brigar."
- Presença sem interrogatório: o jantar, a carona, a série no sofá. É nessas horas, sem olho no olho, que muito adolescente resolve falar.
Quando o susto é grande, dá vontade de tirar a porta do quarto ou de proibir que ela fique fechada. Eu entendo o impulso, e mesmo assim proponho outro combinado: a porta pode fechar, e quando alguém bate, ele responde.
Com o celular, vale a mesma lógica. Combine com ele o que você vai acompanhar e não olhe escondido. Converse sobre o que ele vê e com quem fala. Se você encontrar grupos ou conteúdos que incentivam o comportamento, leve isso para a avaliação em vez de abrir um novo confronto.
A escola precisa saber que meu filho se machuca?
Sim, alguém da escola precisa saber, mas não todo mundo. Você decide com seu filho o quanto contar e para quem. A escola é onde ele passa boa parte do dia e às vezes é lá que o sofrimento começa ou aparece primeiro.
Envolva a escola logo quando o comportamento aconteceu lá, quando existe bullying ou exclusão, quando colegas já sabem ou quando a escola percebeu algo antes de você.
Na conversa com a escola, acerte:
- uma pessoa de referência, como a coordenação ou a orientação educacional;
- o necessário para proteger, sem detalhes;
- o que seu filho aceita que seja dito, e por quem;
- o que a escola faz se perceber algo, e para quem liga.
A escola também tem uma obrigação. A Lei 13.819, de 2019, que criou a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, manda as escolas públicas e privadas notificarem ao conselho tutelar os casos suspeitos ou confirmados de automutilação. A notificação é sigilosa e quem a recebe tem de manter o sigilo. Ela serve para pôr aquele jovem numa rede de proteção. Ninguém está acusando a família.
Como é o tratamento de um adolescente que se machuca?
O tratamento começa com uma avaliação que ouve o adolescente sozinho e ouve a família. Depois vem a psicoterapia, em que ele aprende outras formas de passar pela emoção intensa. Quando existe um quadro por trás, como depressão ou ansiedade, esse quadro também é tratado. A família participa do começo ao fim.
Já contei como funciona a primeira consulta, inclusive o espaço individual do adolescente e os limites do sigilo quando existe risco.
Na psicoterapia, o trabalho começa por perceber o aviso que vem antes da vontade e por dar nome ao que se sente.
A medicação não entra para tratar o comportamento em si. Quando entra, é para o quadro que está por trás, sempre depois da avaliação.
Os pais recebem orientação para conversar e para reagir se o comportamento voltar. Aqui, o papel dos pais no tratamento pesa ainda mais.
Ele pode voltar a se machucar durante o tratamento. Uma recaída não apaga o que foi construído e entra na consulta como informação.
O objetivo é que aquele jovem tenha outros jeitos de atravessar um dia ruim e que a família volte a falar do assunto sem medo.
Como falar com os irmãos e com o resto da família?
Os irmãos costumam perceber que alguma coisa mudou em casa. Conte o essencial, na linguagem da idade deles e sem detalhes: o irmão está passando por um momento difícil e está sendo cuidado. O segredo absoluto assusta mais do que a verdade dita com calma.
Não transforme o irmão em vigia. "Me avisa se ele fizer de novo" põe nas costas dele um peso que não é dele. Ele pode procurar um adulto se ficar preocupado, e isso basta.
Pergunte também como ele está. Irmãos podem sentir medo, culpa, raiva ou ciúme da atenção que o outro passou a receber.
Com avós e tios, quem convive e pode ajudar precisa saber o necessário. O resto pode ficar de fora, em respeito ao adolescente.
E há os pais. Muitos carregam uma pergunta:
"Onde foi que eu errei?"
A culpa pesa e não trata ninguém. O que ajuda é você estar dentro do tratamento. Pai e mãe também podem discordar sobre como agir, um querendo endurecer e o outro querendo aliviar. Vale alinhar antes de falar com o filho e, se precisar, buscar apoio para você também.
Quando a automutilação é urgência?
É urgência quando o ferimento precisa de atendimento médico, quando seu filho fala em morrer com intenção ou plano, quando houve uma tentativa de suicídio ou quando você não consegue manter a segurança dele em casa. Nesses casos, vá ao pronto-socorro ou chame o SAMU, sem esperar consulta.
Outros sinais pedem a mesma pressa: falas de despedida, objetos queridos dados de presente, frases como "seria melhor sem mim".
Você não precisa ter certeza para ir. É melhor ouvir no pronto-socorro que dava para esperar do que passar a noite em casa com a dúvida.
Se não é urgência, a avaliação em psiquiatria da infância e da adolescência é marcada nos próximos dias, e não depois das férias.
Amanhã, bata na porta do quarto antes de entrar e espere a resposta. Parece pouco diante do que você descobriu. É um gesto que diz ao seu filho, sem discurso nenhum, que o quarto ainda é dele e que você está do lado de fora, perto.
Onde pedir ajuda agora
Em risco imediato, procure o pronto-socorro mais próximo e não deixe a pessoa sozinha.
SAMU · 192
Emergência · 190
CVV · 188 · ligação gratuita, 24 horas por dia · também por chat em cvv.org.br, em horários definidos








