Executivos chegam ao meu consultório em São Caetano do Sul, e a conversa é praticamente a mesma.
O paciente entra pela porta, senta na minha frente com aquela expressão de quem carrega um peso invisível, e diz: “Doutor, estou muito cansado. Preciso de férias, acho.”
Escuto atentamente e faço as perguntas básicas de anamnese: Dorme bem? Não. Come direito? Raramente. Concentração como está? Cada vez pior. Relacionamento com a família? Distante.
Então chego no ponto: “Você não precisa de férias. O que você descreve não é falta de repouso. É disfunção no seu sistema nervoso autônomo.” E isso pode até ser um nome estranho para você neste momento, mas é algo a se pensar. Seu sistema já entrou em colapso há tempos. Por isso, está na hora de retomar a sua vida de volta.
A maioria desses executivos que chegam, além de outros médicos, advogados, etc. Eles chegam exaustos e já em um estado de limite. Dessa forma, muitos acham que estão loucos ou seus cérebros estão “danificados”. Porém, dizer que está louco está mais longe da verdade do que pensa.
A verdade é que você está tendo uma resposta comum, e silenciosa, a uma pressão que a maioria dos profissionais atuais enfrentam, mas ninguém fala sobre.
E é sobre isso que vamos falar hoje! Combinado?
Uma crise de saúde mental silenciosa entre líderes
Eu li os dados do Ministério da Previdência Social para 2024, e a realidade é perturbadora.
472.328 afastamentos do trabalho por transtornos mentais.
Reflita sobre isso por um momento. Quase meio milhão de brasileiros precisaram se afastar do trabalho devido a problemas de saúde mental. E sabe qual é a piora? Esse número cresceu 68% em relação a 2023. Isso significa que o problema não apenas existe, mas ele está acelerando.
Mas aqui está o que a maioria das pessoas não sabe: esses números não capturam a verdade completa. Porque entre esses 472 mil afastamentos, existe um público específico que o Brasil raramente discute, que são executivos, líderes, CEOs e empreendedores que sofrem em silêncio.
Por que isso acontece? Porque para um líder, admitir que está em crise é como admitir fracasso. É quase uma confissão de incompetência. Existe uma condição velada entre todos que o líder nunca pode ficar mal, nunca pode sofrer. Porém, isso está causando uma pressão, ansiedade e desregulação, não só neste líder, mas em todo o time. Pois, o líder desconta em seu time, seu estresse, ansiedade e necessidade de gerar resultados rápidos e constantes.
Sabe o que isso gera para a empresa? Sabe o que um executivo com saúde mental fragilizada gera de perdas para um time? Desde o próprio adoecimento do sistema, até perdas de oportunidades e financeiras.
Quanto seu time já parou de render? Qual já foi o investimento em contramedidas para situações de estresse, exaustão e burnout? Será que não vale uma abordagem diferente? Vamos entender mais.
Os números que ninguém quer admitir
Embora o Ministério da Previdência contabilize afastamentos formais (aqueles que resultam em licença médica), a realidade entre executivos é ainda mais profunda. Deixa eu te mostrar alguns números:
- 27% dos líderes receberam diagnóstico de estresse, ansiedade ou burnout nos últimos 12 meses
- Mas 90% deles não procuram tratamento
Deixe eu repetir esse segundo ponto: 90% não procuram tratamento.
E você sabe o por quê?
Há pelo menos três razões:
- Estigma: Medo de que colega, concorrente ou subordinado descubra e isso comprometa a carreira.
- Desconhecimento: Não sabem a diferença entre “nervosismo” e “transtorno de ansiedade”.
- Normalização: Acham que “todo executivo é assim”, e se sofrem, devem continuar sofrendo.
Por isso, que gosto de reforçar que é exatamente nesse ponto que entra o papel de um psiquiatra como eu. Não é apenas diagnosticar e prescrever. Psiquiatria para mim é educação, inclusive existe um termo: psicoeducação. Pois, as pessoas não sabem viver, perderam o domínio sobre si e vivem pelas suas rotinas, no automático. Assim, o corpo se perde, a mente se exauri e a vida… a vida passa. Porém, quando ela passa, ela cobra um pedágio lá na frente.
Agora, vamos descobrir o que acontece com sua mente…
Os 4 diagnósticos que afligem seu cérebro (Mesmo que você não saiba)
Quando um executivo chega aqui na clínica, como já comentei anteriormente, a conversa inicial geralmente revela um padrão. Ele (ou ela) está sofrendo de um ou mais dos diagnósticos que listei abaixo. Deixe-me explicar cada um, porque a compreensão é o primeiro passo para o seu tratamento.
1. ANSIEDADE PATOLÓGICA: O “Alarme de incêndio” que toca sem motivo
Você conhece aquela sensação de que algo ruim vai acontecer? De estar constantemente “ligado”, esperando o próximo problema? Aquela sensação de desespero numa mensagem de whatsapp, uma chamada para uma reunião não planejada ou uma ligação que você sabe que deve, mas não quer atender.
Eu chamo de “alarme de incêndio disparado sem ter fogo por perto”.
A ansiedade patológica não é nervosismo. O nervosismo é uma resposta natural e temporária a uma situação específica, como uma reunião importante, uma apresentação, uma entrevista. Essa sensação passa quando a situação passa.
A ansiedade é diferente, pois é persistente! É uma disfunção no seu sistema nervoso autônomo.
Amígdala vs. Córtex Pré-frontal: combate de instinto e lógica

No cérebro, o que acontece é uma hiperativação da amígdala (a área responsável por detectar perigos) combinada a uma dificuldade do córtex pré-frontal em regular essa percepção de ameaça. Em outras palavras, seu cérebro detecta “perigos” em lugares onde não existem perigos.
Para o executivo, os gatilhos são bem específicos:
- Metas excessivas e prazos irrealistas: O córtex pré-frontal está constantemente tentando resolver um problema insolúvel.
- Competição intensa: A necessidade de estar sempre “acima” de alguém cria ansiedade constante.
- Falta de autonomia: Precisar responder a alguém, constantemente, sem poder tomar decisão própria.
- Feedback defasado ou crítico: Não saber exatamente como está performando.
E isso tudo se transforma em sintomas físicos que o executivo sente. E afirmo que são reais:
- Taquicardia (coração acelerado)
- Sensação de aperto no peito
- Falta de ar
- Insônia (especialmente “mente acelerada” à noite)
- Formigamento nas extremidades
- Hipervigilância (estar sempre alerta)
Aqui na clínica, temos um paciente, que é diretor de uma startup. Ele chegou reclamando de taquicardia constante e insônia. Fez cardiograma, ecocardiograma, Holter, porém tudo normal. Seu coração estava funcionando perfeitamente.
Mas… seu sistema nervoso autônomo não.
Com tratamento (incluindo aqui psicoterapia, estilo de vida e, quando necessário, medicação), o paciente recuperou sua vida. A ansiedade diminuiu, a taquicardia desapareceu.
A prevalência em 2024? Ansiedade foi responsável por 141.414 afastamentos do trabalho, quase 30% de todos os afastamentos por saúde mental. Você acredita nisso? Esses números me apavoram e mostram o quanto devemos investir, como empresa e profissionais da saúde, em cuidar da saúde mental de nossos funcionários. Seja com palestras de conscientização, workshops, equipe interna, grupos e afins. Há muitas soluções!
2. BURNOUT (SÍNDROME DO ESGOTAMENTO PROFISSIONAL): Quando o tanque fica vazio
Burnout é um diagnóstico que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente como um “fenômeno ocupacional”. Por isso, não é fraqueza, é resposta do corpo a uma situação insustentável.
O executivo que sofre de burnout não está “deprimido” no sentido clássico. Está esgotado!
A síndrome tem três pilares:
- Exaustão emocional: Você se sente drenado, psicologicamente vazio, é como se tivesse entregado tudo e não houvesse mais energia
- Distanciamento relacional: Você começa a se afastar de colegas, de clientes, até da família. Há um cinismo que cresce: “Para quê me esforçar?”
- Redução do sentimento de realização pessoal: Aquilo que te motiva, projetos, desafios, impacto, já não te motiva. Tudo vira “mais um trabalho”
Aqui está o insidioso: o executivo em burnout continua indo ao trabalho. Continua atendendo reuniões. Continua entregando relatórios. Ninguém vê de fora que ele está colapsando internamente.
Meu colega, o Dr. Rodrigo Rocha, que aqui atende executivos há vários anos, me disse: “A maioria dos executivos em burnout não busca ajuda porque acha que ‘é o preço de ser líder’. Eles associam sofrimento com competência.”
Mas a neurociência conta outra história. O burnout danifica sua capacidade de decisão, criatividade e até seu sistema imunológico.
Executivo em burnout:
- Demora mais tempo para resolver problemas
- Toma decisões mais conservadoras e evitativas
- Tem dificuldade em comunicação
- Fica irritável sem motivo
- Seu corpo começa a adoecer: pressão alta, gastrite, insônia
Os números? Sei que você gosta dessa parte, assim como eu. Aproximadamente 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com burnout. Em cargos de alta responsabilidade, esse número é ainda maior. Olhe para o lado, 1 a cada 3 colegas seus sofrem de burnout. Consegue perceber issso?
3. DEPRESSÃO: A “perda de interesse” disfarçada de “fase difícil”
O problema é que depressão em executivos não se parece com depressão.
Porque o executivo continua funcionando. Pois, ele continua chegando ao trabalho, continuando falando nas reuniões, continuando entregando resultados. Mas, por dentro, houve uma desconexão emocional.
Depressão é um transtorno do humor caracterizado por três coisas:
- Persistência anormal de tristeza: não é o “estar triste” normal. É uma tristeza que não sai.
- Apatia: falta de energia, falta de vontade até para fazer coisas que antes gostava.
- Anedonia: perda de interesse em atividades que causavam prazer.
Para o executivo, isso se manifesta como:
- Perda de criatividade (dificuldade em gerar ideias novas)
- Dificuldade em receber feedback crítico (interpretado como “sou inadequado”)
- Retraimento social (menos networking, menos relacionamentos)
- Aumento de uso de álcool ou outras substâncias (automedicação)
Por que é tão prevalente em líderes? Porque frequentemente a depressão vem após burnout. Você esgota, esgota, esgota, e em algum momento, simplesmente desiste emocionalmente.
Os dados de 2024? Episódios depressivos resultaram em 113.604 afastamentos do trabalho. E quando você soma depressão recorrente, o número chega a mais de 166 mil afastamentos. É muita gente doente, é custo para si, para a empresa e para a família.
4. TRANSTORNOS PSICOSSOMÁTICOS: Quando a mente adoece o corpo
Este é talvez o mais insidioso, tá bom?
O executivo vai ao cardiologista porque sente dor no peito. Faz teste de estresse, eletrocardiograma, ressonância. “Seu coração está perfeito”, diz o médico.
Então vai ao gastroenterologista porque sente incômodo no estômago. Então, faz endoscopia. “Não vejo nada”, diz o gastro.
Então vai ao neurologista porque tem enxaqueca intensa. Segue assim com o exame de ressonância cerebral. “Estruturalmente, tudo normal”, diz o neuro.
O executivo fica frustrado. “Mas então por que dói? Por que não consigo dormir? Por que estou assim?” Ele acredita que aquela dor, aquele incomodo é normal, mas não é. NÃO É!
Aí esse profissional chega no meu consultório e a resposta é: “Seu corpo não está doente, mas seu sistema nervoso está disfuncional.”
Transtornos psicossomáticos são manifestações físicas de um problema psíquico. O stress crônico causa:
- Insônia crônica: Sistema nervoso autônomo permanentemente ativado. O corpo não consegue “desligar”.
- Cefaleia/enxaqueca: Tensão muscular crônica + alterações vasculares por estresse.
- Gastrite/úlcera: Aumento de ácido gástrico por ativação simpática.
- Dores musculares: Especialmente região cervical e lombar (onde acumulamos tensão).
- Hipertensão: Ativação simpática crônica.
O que vejo aqui é um executivo em “peregrinação diagnóstica”, passando por especialista após especialista, fazendo teste após teste, sem encontrar resposta. Enquanto isso, o estresse aumenta, a causa raiz continua alimentando o diagnóstico e a vida passa.
Como se manifesta em 35% dos executivos que chegam aqui com transtornos mentais? Justamente assim: “Doutor, não entendo. Sou saudável fisicamente, mas sinto-me quebrado.” Pois é, essa história se repete diversas vezes na semana.
A diferença crítica: nervosismo vs. ansiedade patológica
Agora, vamos ajustar esses conceitos em sua mente. Vamos de psicoeducação aqui. Pois, é por causa dessa confusão que causa atraso diagnóstico significativo:
Nervosismo é temporário, é uma reação normal. Você tem uma reunião importante amanhã, fica um pouco nervoso hoje e logo já passa. Pode ser no momento, em um dia ou dois, mas passa.
Ansiedade patológica é persistente. A gente observa que está presente semana após semana. Essa ansiedade afeta sua rotina e impede você de fazer coisas que gostaria de fazer.
A neurociência diferencia:
| Aspecto | Nervosismo | Ansiedade Patológica |
| Duração | Horas a dias | Semanas a meses |
| Gatilho | Situação específica | Muitas vezes sem causa clara |
| Intensidade | Proporcional | Desproporcional |
| Funcionamento | Você continua fazendo coisas | Você evita, procrastina, não faz |
| Impacto | Incômodo passageiro | Prejuízo significativo na vida |
Para o executivo, a pergunta-chave é: Isso está afetando minha performance, meu relacionamento, meu sono? Se a resposta é sim, e sim por mais de 2 semanas, você provavelmente tem ansiedade patológica, não nervosismo.
É um desafio compreender, enxergar a si mesmo e reconhecer. Não digo que é fácil. Porém, com ajuda você pode identificar e pelo menos ter certeza de seu diagnóstico.
Por que executivos sofrem mais (e a responsabilidade das empresas)
Eu não preciso te dizer que ser executivo é estressante. Você já sabe! Sendo um executivo, um gerente de RH, até mesmo um funcionário mais novo. Você reconhece que o peso sobre os ombros existe. A pressão, os resultados, o desempenho, tudo cai sobre as pessoas e quanto mais elevado seu cargo, maior é.
Mas deixe-me ser preciso sobre os estressores específicos que vejo com frequência:
- Responsabilidade multiplicada: Você não responde por si mesmo, mas por uma equipe, por resultados, por acionistas.
- Falta de limites: E-mail às 22h, conversa de trabalho no fim de semana, “nunca desligar”.
- Sobrecarga cognitiva: Múltiplos projetos simultâneos, tomadas de decisão constantes.
- Isolamento relacional: Você não pode desabafar com subordinados (perda de autoridade) nem com colegas (competição).
- Incerteza econômica: Variações de mercado, câmbio, políticas, estão fora do seu controle.
A boa notícia? Existe legislação nova que está mudando isso.
A NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que entrou em vigor em 26 de maio de 2025, obriga empresas a avaliar riscos psicossociais e implementar medidas de proteção à saúde mental. Isso significa que, em breve, as empresas terão responsabilidade legal de cuidar disso.
Porém, você não precisa esperar para assumir responsabilidades. Você pode mitigar o risco agora, além de aumentar desempenho dos líderes e seus times. Sim, cérebro saudável, mente tranquila, gera time altamente produtivo. Lembre-se disso!
Como a equipe do Instituto Alceu Giraldi pode te ajudar?
Aqui na clínica, nós entendemos que não existe uma abordagem “tamanho único”.
O executivo que chega com ansiedade patológica pode precisar de diversas ajudas. E eis o que o nosso instituto tem para oferecer além das consultas psiquiátricas.
- Psicoterapia: Para aprender a reconhecer pensamentos catastróficos e regulação emocional.
- Medicação: Em alguns casos, mas nunca como única resposta.
- Estimulação Magnética Transcraniana (EMT): Especialmente para depressão. É não-invasiva, sem dependência.
- Estilo de vida: Ajuste de sono, movimento, nutrição, esses pilares são inegociáveis.
- Suporte corporativo: Quando apropriado, conversas com a empresa sobre ajustes no escopo de trabalho.
Cada um desses itens é como um instrumento de uma orquestra. Pode ser só cordas, pode ser cordas e sopros. Depende do diagnóstico.
E aqui está o ponto importante: nós cuidamos de você como um ser completo, não apenas de um diagnóstico.
O que fazer se você se identifica
Se você leu isso e pensou “caramba, isso sou eu”, aqui está o caminho:
Primeiro: Pare de culpar a si mesmo. Você não é fraco ou louco. Apenas, está tendo uma resposta muito normal a uma situação anormal.
Segundo: Reconheça que precisa de ajuda. Assim como você contrataria um consultor de negócios para um problema complexo, você precisa de um especialista para um problema de saúde mental.
Terceiro: Procure um psiquiatra que entenda o contexto de liderança. Nem todo psiquiatra entende a pressão de ser CEO. Nem todo terapeuta entende a neurobiologia de burnout.
Quarto: Comece a conversa. Isso pode ser uma simples mensagem: “Gostaria de agendar uma conversa sobre minha saúde mental.” Um passo importante e cheio de coragem.
Um passo de cada vez!
O diretor da Start Up
Voltando ao diretor que mencionei no começo deste texto.
Ele fez o diagnóstico e começou o tratamento. Psicoterapia + medicação ajustada. Porém, alguns meses depois, ele me disse algo que resumiu tudo:
“Doutor, eu não sabia que era possível se sentir assim. Que eu podia ser um bom líder E ser feliz ao mesmo tempo. Eu achava que um excluía o outro.”
Não exclui, de jeito nenhum.
Saúde mental em executivos não é sobre não trabalhar, não alcançar resultados, não ser competitivo. É sobre fazer tudo isso com clareza mental, criatividade intacta e bem-estar físico.
Se você reconhece esses sinais em si mesmo, marque uma conversa conosco. Nós temos expertise para te ajudar. Seja ajudando uma pessoa/profissional ou a empresa. Somos um instituto de acolhimento genuíno, com tecnologia e conhecimentos atualizados.









