Uma nova lei chega para trazer consciência para as empresas sobre a saúde mental de seus funcionários. Porém, essa obrigação pode ser um dos melhores investimentos para sua empresa! Sim, existem diversos estudos que relacionam saúde mental com produtividade. Além disso, aqui no instituto a gente vê isso na prática! Executivos que se tratam e acabam melhorando todo um ecossistema e resulta em maior desempenho de seus times!
Para o funcionário é qualidade de vida, realização e superação.
Na percepção da empresa é sucesso, metas alcançadas e lucro!
Porém, infelizmente a saúde mental não está em pauta na maioria das empresas brasileiras e com números absurdos, que já comentei no post anterior, o Brasil não deixa apenas funcionários doentes, mas perde dinheiro! São rios de dinheiros para comprar estimulantes para o funcionário e depois outros medicamentos para ele dormir. Viramos uma máquina cujo combustível não é mais o alimento e o esporte, nem a manutenção é um bom sono. Como psiquiatra infelizmente vejo e tenho que prescrever para ajudar, que muitos são dependentes de medicamentos para poder viver.
Isso não é vida e medicamento é um “assistente” de tratamento. Óbvio que existem comorbidades que precisam de acompanhamento por toda a vida, mas burnout, por exemplo, não deveria ser comum. E essa é uma doença classificada com origem no trabalho. Você sabia disso?
Portanto, vamos destrinchar alguns pontos, para você ver o bom, o mau e onde há oportunidade de ganho para o funcionário e para a empresa aqui.
A lei chegou, mas o Brasil ainda não acordou
A nova Norma Regulamentador nº1 (NR-1) já está em todos os RHs de pequenas empresas até multinacionais. Mas quantas empresas já colocaram pelo menos um projeto no papel? Poucas!
E não é tão difícil, eis o que muda na nova lei: Pela primeira vez na história das normas trabalhistas brasileiras, os riscos psicossociais não são mais opcionais. Antes, a NR-1 exigia que empresas identificassem e controlassem “riscos”, mas havia dúvida se isso incluía saúde mental. Agora, é explícito:
O empregador é responsável por:
- Identificar riscos psicossociais no seu ambiente corporativo
- Avaliar o impacto desses riscos na saúde mental dos seus colaboradores
- Implementar medidas preventivas para mitigá-los
- Monitorar continuamente a eficácia dessas medidas
Se você não fizer isso, você está cometendo um crime trabalhista. Simples assim!
Não vou falar que isso é um tormento para uma empresa, tá? Vejo o oposto, conforme uma empresa evoluí na preocupação com a Saúde Mental, ela também evolui em produtividade e faturamento. Por isso, sempre afirmo: está tudo conectado.
Porém, o que mais me assusta é que a maioria das empresas ainda não tem um plano. Muitas vezes, por não saberem por onde começar e, para alguns, achar que “depois resolvem”.
O que exatamente é o “Risco Psicossocial”?
Bom, deixa eu começar explicando isso para você, de uma forma fácil e prática.
Risco psicossocial é qualquer fator no ambiente de trabalho que prejudica a saúde mental do colaborador. E isso pode ser:
- Sobrecarga de trabalho: Metas irrealistas, prazos impossíveis, múltiplos projetos simultâneos
- Falta de autonomia: Colaborador precisa pedir permissão para tudo, não consegue tomar decisões
- Assédio moral: Pressão psicológica, humilhação, isolamento de colegas
- Clima organizacional tóxico: Competição destrutiva, fofoca, falta de confiança
- Falta de reconhecimento: Trabalho árduo que nunca é validado ou recompensado
- Jornadas abusivas: Trabalho noturno, fim de semana, home office sem limite de horário
- Falta de suporte: Gestor que não oferece apoio emocional, equipe desarticulada
Isso tudo soa familiar? Porque é. A maioria das empresas brasileiras tem pelo menos 3 ou 4 desses fatores operando neste exato momento.
Mas, agora, deixa eu te contar uma verdade que acontece, ok? Há empresas que sabem de tudo isso, mas fingem que não sabem. Porque reconhecer significa precisar mudar, e mudança dá trabalho.
Porém, agora não dá mais para fingir que não sabe. A lei transformou em obrigação o que antes era omissão aceitável.
Por que sua empresa precisa se mover agora?
Bom, vamos responder esse tópico em números! Acho que é a melhor forma de apresentar ideias e mostrar a significância dessa crise que impacta não somente a saúde, mas o caixa de muitas empresas.
A crise é real
- 472.328 afastamentos por transtornos mentais em 2024 no Brasil
- Isso representa um aumento de 68% em relação a 2023
- É o maior número em 10 anos
Mas aqui está o que assusta: esses números são apenas os afastamentos formais. Eles não contam os colaboradores que estão na empresa, mas produzindo 30% abaixo de sua capacidade. Sim, isso se chama “presenteísmo”, estar presente, mas não estar bem. As regras das empresas são claras, estar presente é mais importante do que produtividade. É mais fácil pagar por horas de trabalho do que taxa de sucesso. Porém, como eu, um psiquiatra posso discutir sobre isso? Sendo que minha equipe também é paga segundo esse regime?
O impacto financeiro
Agora quero provocar e trazer números interessantes para o RH e pro financeiro: para cada R$ 1 investido em programas de saúde mental, a empresa recebe de volta R$ 7.
Você leu certo? ROI de 7 para 1.
E como isso funciona? Através de:
- Redução de absenteísmo: 41% menos faltas
- Redução de rotatividade: 59% menos demissões
- Aumento de produtividade: Colaboradores focados, criativos, menos retrabalho
- Redução de custos com saúde: Menos doenças crônicas, menos licenças médicas
- Retenção de talentos: Colaboradores bons não saem, porque se sentem valorizados
Deixe-me ser bem claro: cuidar de saúde mental é mais rentável do que não cuidar. Por isso, costumo dizer que não é caridade, é um investimento certeiro e que serei ousado em dizer, vale mais do que alguns programas de capacitação técnico. Quando a mente está sadia, o corpo segue, o conhecimento evolui, tudo acontece e o extraordinário é alcançado.
O risco legal: por que você não pode mais ignorar isso?
Você acha que a multa é a pior coisa que pode acontecer? Não, infelizmente não é.
A pior coisa é condenação por danos morais.
O Brasil está vendo um número crescente de processos onde empresas são condenadas a pagar indenizações expressivas por negligência na saúde mental dos colaboradores.
Aqui está como funciona:
- Um colaborador desenvolveu depressão por stress no trabalho
- A empresa foi negligente, não ofereceu suporte, não identificou o risco, ou pior: criou o risco (assédio moral e sobrecarga são os mais comuns aqui na clínica)
- O colaborador processa a empresa no Ministério Público do Trabalho
- A empresa é condenada a pagar indenização por danos morais
- A empresa também pode ser condenada a pagar custos com tratamento, reabilitação e pensões
Agora imagine se você tem 10 afastamentos por ano, 10 processos, 10 condenações ou ainda ter que pagar pensão para um “ex-funcionário” que ficará em casa agora. É um custo que dói lá no EBITDA, que machuca acionista e que assassina seu PLR.
Por isso, digo que estamos falando de centenas de milhares de reais em passivos legais.
A pior parte é que isso não é teórico. Está acontecendo agora, em 2024 e 2025, o Ministério Público do Trabalho intensificou fiscalização exatamente em saúde mental.
O que sua empresa precisa fazer?
Deixe-me ser bem objetivo aqui. Sua empresa precisa de um plano de ação estruturado. Não é complicado, mas precisa ser feito e aqui vou soltar a verdade, recomenda-se que seja feito por profissionais da saúde mental que tenham conhecimento em negócios, na lei e em processos, para te ajudar a montar um plano.
Puxando pro nosso lado aqui, a gente pode te ajudar com uma consultoria de mapeamento de riscos, com montar o plano de ação e até em algumas ações de contramedida para já ativar o projeto em sua empresa.
Porém, aqui temos o papel de informar também, então deixa eu te dar o mapa, objetivo e detalhado:
1. MAPEAMENTO DE RISCOS PSICOSSOCIAIS
O mapeamento de riscos psicossociais é um diagnóstico da sua empresa. Aqui é onde você identifica quais riscos existem no seu ambiente de trabalho. Acredito que é um dos trabalhos mais desafiadores, pois é o levantamento de dados, para você saber em qual oceano de incertezas está.
Como fazer:
- Pesquisa anônima com colaboradores (“Você se sente sobrecarregado?” “Você tem autonomia para decidir?” “Se sente seguro aqui?”), algumas empresas usam o google forms, outras usam outros mecanismos, escolha o que fizer mais sentido e que seja anônimo.
- Análise de dados: Absenteísmo, rotatividade, licenças médicas, afastamentos. Os dados do RH valem ouro aqui, combinado?
- Entrevista com lideranças para entender dinâmicas interpessoais. Aqui é importante ter uma visão até um pouco mais macro, pois, infelizmente, muitos líderes não relatam 100% de suas realidades.
O resultado final dessa etapa é um relatório claro identificando: “Problema 1 (sobrecarga) afeta 30% da equipe. Problema 2 (assédio moral) afeta uma área específica.”
Entendeu como faz essa parte? Próximo.
2. PLANO DE AÇÃO COM MEDIDAS PREVENTIVAS
Agora que você já sabe onde está o problema, precisa planejar suas ações. Não importa se será correção, implementação ou melhoria. Portanto o importante aqui é identificar e criar os planos de implementação.
Exemplos de medidas:
- Se o problema é sobrecarga: Redistribuir tarefas, contratar, automatizar, rever metas, consultoria de gestão de tempo, coach para os líderes, revisão de processos
- Se o problema é falta de autonomia: Treinar gestores em delegação, dar mais poder de decisão
- Se o problema é assédio moral: Criar políticas claras, treinar lideranças, criar canal anônimo de denúncia
- Se o problema é clima tóxico: Atividades de integração, mediação de conflitos, reconstrução de confiança
Faça seu planejamento num excel, num papel, em reuniões ou onde for, mas faça esse planejamento e comece a jornada. Pode ser difícil no início, mas faça.
3. PROGRAMA DE APOIO PSICOLÓGICO
Esse é o canal de suporte para colaboradores que estão em crise! É um apoio importante. Quero enfatizar, que algumas empresas já possuem psicólogo interno e outras que tem clínicas como o Instituto Alceu Giraldi, como parceiros na área psiquiátrica e psicológica.
Algumas opções de apoio psicológico para sua empresa:
- PAC (Programa de Assistência ao Colaborador): Programa anual com psicólogos, palestras educativas, rastreamento de bem-estar e diversas atividades para conscientização de saúde mental e performance.
- Convênio com clínica especializada: Suas consultas de saúde mental com desconto corporativo, com equipe qualificada e que entende seus funcionários.
Os programas podem ser muito úteis desde o processo de conscientização e até mesmo em tempos de crise. Quero trazer o exemplo, de um atendimento com psicólogo de um líder sob pressão, pode: reduzir o estresse do líder, ajudar a orientar e delegar, reduzir pressionismo nos colaboradores abaixo dele e, por fim, aumento de produtividade. Tudo se conecta e funciona.
4. TREINAMENTO DE GESTORES
Os gestores são os pilares que sustentam essa nova cultura que abarca a saúde mental. Somos humanos e aprendemos pelo exemplo com nossos líderes. Para isso, precisamos treinar os líderes para que eles reconheçam sinais de adoecimento mental e saibam como oferecer suporte inicial e direcionamento.
Quero trazer o exemplo de um COO, que ao identificar nível alto de estresse na gestora financeira de sua empresa, através de comportamento, fala mais alta, se tornando a “chata das reuniões” e percebendo demora nas entregas e sumiço de sua alegria, ele a chamou para conversar e deu-lhe de presente, sem tirar de suas férias, uma mini férias de 5 dias. A gestora aproveitou para visitar sua família em outro estado, conseguiu descomprimir e voltou para a época do fechamento.
Sabe o que aconteceu? Esse detalhe que valorizou sua vida e sua saúde mental, retomou seu sorriso,
5. MONITORAMENTO CONTÍNUO
Você não implementa uma vez e pronto, isso é um engano. O projeto de saúde mental da sua empresa é igual a qualquer outro projeto de sua empresa. Ele terá o mesmo ciclo de monitoramento, por exemplo, o ciclo PDCA (veja aqui).
É necessário verificar se está funcionando, se está trazendo resultados e quais são os indicadores que fazem o seu projeto ter sucesso. Gosto de dizer que tem indicadores como absenteísmo e rotatividade que podem dar uma boa indicação, pesquisas de clima e cultura e muitas outras iniciativas.
Lembre-se disso. Gestão de saúde mental tem monitoramento, tem ação e tem muita observação por parte de líderes e gestores.
Não é só conformidade, é estratégia!
Aqui está a coisa mais importante e que mais líderes precisam entender: Cuidar de saúde mental no trabalho não é um custo, é um investimento estratégico.
As melhores empresas para trabalhar no Brasil, aquelas que atraem talentos (que hoje está raro encontrar qualidade), que têm baixa rotatividade, que inovam mais, já têm programas de saúde mental estruturados. Elas não fazem porque é lei, pois a lei é recente. Fazem porque sabem que pessoas saudáveis performam melhor.
O sucesso deixa rastros, ouvi dizerem isso uma vez e é verdade. Veja essas empresas que possuem um incrível desempenho e perceba o que eles fazem. Sucesso não é sobre o melhor produto, o melhor branding, mas é sobre as pessoas que trabalham e a qualidade dessas pessoas. Não adianta só “estar conforme”, é olhar para a equipe, ver humanos ali, e saber que no seu melhor estado, eles podem dar o máximo.
Assim, a saúde mental se torna parte estratégica.
A saúde mental ajuda a alcançar o extraordinário.
Quando fazer esse projeto de saúde mental?
Deixe-me ser bem claro: você não vai resolver isso assistindo vídeos no YouTube ou lendo posts na internet. Ok? Sou franco. Talvez, você até consiga dar um início e há pessoas que podem pegar esse artigo e transformar num incrível projeto. Porém, a verdade é que você precisa de um plano profissional, estruturado e implementado.
Não porque é lei, embora seja. Mas porque colaboradores doentes mentalmente custam dinheiro, processam a empresa por negligência, saem para competidores e deterioram a cultura organizacional.
E colaboradores saudáveis? Eles performam, inovam, ficam e recomendam sua empresa para outros talentos.
Isso é negócio!
Se sua empresa está em São Caetano do Sul, região do ABC ou São Paulo, nós podemos ajudar. Se você está em outro lugar, procure um especialista da região. Essa atitude pode melhorar o seu faturamento no ano.
Algumas referências e fontes
- Dados do Ministério da Previdência Social: Afastamentos por transtornos mentais 2024
- Harvard Business Review: ROI de programas de saúde mental (R$ 7 para cada R$ 1 investido)
- Wellhub Research: Estudo sobre ROI de bem-estar corporativo (2024)
- Pesquisa do Ministério do Trabalho: Impacto de riscos psicossociais na produtividade
- Por que investir no diagnóstico de saúde emocional: Valor Econômico.
- Brasil: Afastamentos por problemas de saúde mental aumentam 134%: ONU












