A ocitocina é uma substância que funciona como hormônio e como mensageiro químico do cérebro. Ficou conhecida como hormônio do amor porque está ligada ao apego, à confiança e aos laços afetivos entre as pessoas. É uma descrição simpática, mas incompleta. A ocitocina participa de vários processos do corpo, e seu efeito depende muito do contexto em que é liberada.
Ela tem um papel central na maternidade. A ocitocina provoca as contrações do parto e participa da descida do leite na amamentação. No contato pele a pele entre mãe e bebê, ela ajuda a construir o vínculo dos primeiros dias. Fora da maternidade, a ocitocina é liberada em momentos de proximidade, toque, confiança e conexão social, e por isso está associada à sensação de segurança que um bom vínculo oferece.
O ponto que costuma surpreender é que a ocitocina não escolhe vínculos saudáveis. Ela reforça a ligação com quem está por perto nos momentos de proximidade, mesmo quando essa pessoa também é fonte de sofrimento. Nos relacionamentos abusivos, os momentos de reconciliação e carinho liberam ocitocina, e esse laço químico ajuda a explicar parte do vínculo traumático, a dificuldade de romper com quem faz mal. A mesma substância que aproxima pode prender.
A ocitocina não age sozinha. Ela conversa com outros sistemas, como o da dopamina e o do estresse, e o resultado dessa mistura muda conforme a situação. Por isso, ideias de aumentar a ocitocina para ser mais feliz ou mais confiante simplificam demais. Não existe um botão de conexão que se aperta à vontade, e sprays ou suplementos que prometem isso não sustentam o que anunciam.
No Instituto Alceu Giraldi, falar de ocitocina ajuda o paciente a entender por que os vínculos são tão poderosos, para o bem e para o mal, e por que sair de uma relação que faz mal envolve mais do que razão. Esse entendimento é parte do cuidado, não uma prescrição. Compreender a química do apego é compreender um pouco de como nos ligamos uns aos outros.
