Se a sua dúvida é se o canabidiol vicia, a resposta é não, com uma condição: o que está escrito no verso da embalagem.
Funciona como a embalagem de um suco: a frente diz "suco" em letras grandes e só o verso conta se é suco mesmo ou néctar com açúcar. Com o canabidiol é igual. Se a lista de ingredientes traz só canabidiol, o "não" se sustenta. Se traz THC, a resposta muda.
Canabidiol vicia? O que a OMS concluiu
Não. A revisão crítica do canabidiol feita pela OMS em 2018 concluiu que, em humanos, o canabidiol não mostra efeitos que indiquem potencial de abuso ou de dependência. O relatório registra ainda que não havia relato de uso recreativo nem de problema de saúde pública ligado ao canabidiol puro.
Por que o canabidiol e a maconha diferem nesse ponto?
O que prende na maconha é o THC, outra substância da mesma planta (a diferença entre os dois está em o que é o canabidiol). Segundo a revisão da OMS, o THC ativa o circuito de recompensa do cérebro, o mesmo que quase todas as drogas de abuso acionam. O canabidiol, no mesmo teste em animais, não teve efeito sobre ele.
Em voluntários, o THC produziu euforia e sensação de estar sob efeito. O canabidiol ficou igual ao placebo, inclusive num estudo com pessoas que fumam maconha e conhecem de perto o efeito da planta. Os dois agem sobre o sistema endocanabinoide, cada um de um jeito.
E a dependência psicológica?
Dependência psicológica é a vontade de repetir o uso pela sensação que a substância dá. A bula do canabidiol aprovado pela FDA, a agência que regula remédios nos Estados Unidos, descreve um teste de potencial de abuso, feito com adultos que já usavam drogas por diversão: o quanto gostaram do efeito e se tomariam de novo. O canabidiol ficou na faixa do placebo, mesmo em doses acima das usadas em tratamento. Na comparação, o THC sintético e um calmante marcaram muito acima.
Sentir falta do alívio que um tratamento trouxe é outra coisa. Se um sintoma volta quando o tratamento para, o que voltou foi o problema que estava sendo tratado.
O que acontece quando se para de usar?
Nos estudos disponíveis, nada de abstinência. Na bula americana, adultos que tomaram canabidiol por 28 dias não tiveram sinais de abstinência nas seis semanas seguintes. Em animais, a revisão da OMS registra que doses repetidas de THC criaram tolerância (a necessidade de mais para o mesmo efeito); as de canabidiol, não.
Parar, mesmo assim, se combina com quem prescreveu. Na epilepsia, a bula pede redução gradual. Não por abstinência, mas porque as crises podem aumentar.
Quando o produto tem THC, a resposta muda?
Muda. O que se disse até aqui vale para o canabidiol puro. Segundo a FDA, o alto potencial de abuso da maconha vem, em grande parte, do THC. Quanto THC há no produto e o peso disso no seu caso são perguntas de consulta.
No Brasil, esses produtos são regulados pela Anvisa e vendidos com prescrição médica. Se o seu terá THC ou não, depende do que se quer tratar, porque a evidência varia muito de uma condição para outra, como mostrei em para que serve o canabidiol.
Leve para a consulta a pergunta do verso da embalagem: "O produto indicado para mim tem só canabidiol ou também THC, e o que isso muda no meu caso?"







