"Posso tomar canabidiol com antidepressivo?" A pergunta vem de quem já está em tratamento, ouviu falar bem da substância e quer somar as duas coisas. Vale fazê-la antes de começar.
Para entender a resposta, pense no fígado como o caixa de um mercado. O canabidiol passa por ali antes de sair do corpo. Muitos remédios também. Às vezes um deles atrasa o caixa e quem está atrás na fila espera mais. Com o remédio acontece o mesmo: ele fica mais tempo e em maior quantidade no sangue.
Canabidiol com antidepressivo: pode tomar junto?
Às vezes pode, mas nunca por conta própria. O canabidiol passa pelas mesmas enzimas do fígado que muitos remédios e pode alterar o nível deles no sangue. Por isso a decisão depende de um médico que saiba qual antidepressivo você toma e o que mais está na sua lista.
Por que o fígado muda a conta?
O canabidiol é processado principalmente no fígado, por enzimas, proteínas que transformam as substâncias para o corpo eliminar. A bula do canabidiol aprovado pela FDA, a agência que regula remédios nos Estados Unidos, mostra que essa via é de mão dupla.
De um lado, remédios que freiam essas enzimas deixam mais canabidiol no sangue, com mais risco de efeitos colaterais; os que aceleram diminuem o efeito dele. Do outro, o próprio canabidiol freia algumas enzimas e faz outros remédios subirem no sangue. Num estudo descrito na bula, a forma ativa de um calmante usado contra convulsões chegou ao triplo no sangue quando os dois foram tomados juntos.
A bula também pede exames do fígado antes de começar e ao longo do tratamento, porque o canabidiol pode alterá-los, sobretudo em dose maior ou junto com certos remédios.
A sonolência que se soma
Sonolência é um dos efeitos mais comuns descritos na bula. Costuma aparecer no começo e pode diminuir com o tempo. Nos estudos da bula, com pacientes com epilepsia grave, ela foi mais frequente quando o canabidiol foi somado a um calmante. Álcool e outras substâncias que desaceleram o sistema nervoso também podem reforçá-la.
Se o seu antidepressivo já deixa você mais lento ou se você toma algo para dormir, os efeitos se somam. A orientação da bula é não dirigir nem operar máquinas até saber como o seu corpo reage.
Que outros remédios pedem atenção?
A bula organiza as interações por enzima e dá exemplos variados de remédios que podem ser afetados: um antidepressivo, calmantes, remédios para convulsão, um analgésico forte e até a cafeína. Com um dos remédios para convulsão, a alteração nos exames do fígado ficou mais frequente.
Saber a classe do seu remédio, portanto, adianta pouco. A resposta sai do nome exato do que você toma. Por isso a lista completa importa, inclusive o que parece não contar, como o remédio para dormir e a cerveja do fim de semana.
Posso trocar o antidepressivo pelo canabidiol?
Não sem avaliação médica. A FDA aprovou o canabidiol purificado para crises de formas raras de epilepsia e alerta que produtos sem aprovação não foram avaliados quanto a funcionar, à dose adequada, às interações e aos efeitos colaterais. A agência também se preocupa com quem abandona um tratamento aprovado para uma doença séria levado por propaganda.
A OMS, na revisão de 2018, descreve a pesquisa do canabidiol fora da epilepsia como bem menos avançada, a maior parte ainda feita em laboratório e em animais. Suspender ou reduzir o antidepressivo é decisão médica, com plano.
Como a decisão é feita em consulta?
A consulta começa pela lista de tudo o que você toma e pela história do tratamento atual. Se você toma antidepressivo para depressão ou ansiedade, o médico precisa saber por que aquele remédio está ali antes de pensar em somar outro.
Se o canabidiol fizer sentido, ele entra com prescrição e num produto regulado pela Anvisa, dentro de um plano de tratamento. O acompanhamento inclui exames do fígado e atenção à sonolência no começo. Às vezes, quem muda de dose é o outro remédio. O humor também entra no acompanhamento: piora da depressão ou mudança incomum de humor se conta ao médico na hora. Na mesma conversa cabem as outras dúvidas, como a de saber se o canabidiol vicia.
Este texto explica por que a fila existe. Não enxerga a sua. Só a consulta sabe quem está nela: qual antidepressivo, que outros remédios, um fígado com quais exames. É com esse retrato que se decide se o canabidiol entra e como ele vai ser acompanhado.








