Será que você tem TDAH? A verdade!

Você já se pegou pensando: “Será que tenho TDAH?” Em um mundo cada vez mais acelerado e repleto de estímulos, é comum que muitas pessoas se identifiquem com sintomas como dificuldade de concentração, inquietação ou impulsividade. No entanto, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neurobiológica complexa, e seu diagnóstico vai muito além de uma simples lista de sintomas.

Você sabe quais são os fatores que levam ao diagnóstico correto ou está apenas seguindo o que a mídia e as redes sociais propagam? Hoje, vamos explorar o que realmente significa ter TDAH, como ele se manifesta e, crucialmente, como diferenciar essa condição de outros fatores que podem confundir você.

Entendendo o TDAH: Uma Perspectiva Neurobiológica

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interferem no funcionamento ou desenvolvimento. Não se trata de uma “falta de força de vontade” ou de um “problema de comportamento”, mas sim de diferenças na estrutura e funcionamento do cérebro, especialmente nas regiões responsáveis pelas funções executivas.

Essas funções incluem:

  • Atenção Sustentada: A capacidade de manter o foco em uma tarefa por um período prolongado.
  • Atenção Seletiva: A habilidade de focar em estímulos relevantes e ignorar distrações.
  • Memória de Trabalho: A capacidade de reter e manipular informações a curto prazo.
  • Controle Inibitório: A habilidade de suprimir respostas impulsivas ou irrelevantes.
  • Planejamento e Organização: A capacidade de sequenciar tarefas e gerenciar o tempo.
  • Regulação Emocional: A dificuldade em modular respostas emocionais.

A neurobiologia do TDAH aponta para disfunções em circuitos cerebrais que utilizam neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina. Essas substâncias são cruciais para a regulação da atenção, motivação e recompensa. Áreas como o córtex pré-frontal, os gânglios da base e o cerebelo mostram diferenças estruturais e funcionais em indivíduos com TDAH, impactando diretamente a eficiência das funções executivas.

Existem três apresentações principais do TDAH:

  1. Apresentação predominantemente desatenta: Caracterizada principalmente por dificuldades em manter a atenção, seguir instruções, organizar tarefas e evitar distrações. Neste caso, a hiperatividade pode ser mínima ou inexistente.
  2. Apresentação predominantemente hiperativa/impulsiva: Marcada por inquietação motora, dificuldade em permanecer sentado, falar excessivamente, interromper os outros e agir sem pensar.
  3. Apresentação combinada: Quando o indivíduo preenche os critérios para desatenção e hiperatividade/impulsividade.

É fundamental entender que, para um diagnóstico de TDAH, os sintomas devem ter surgido na infância (antes dos 12 anos) e causar prejuízo significativo em pelo menos dois ambientes diferentes da vida do indivíduo. Por exemplo, casa e escola, casa e trabalho, escola e interações sociais. Por isso, sempre digo que o diagnóstico é muito mais profundo do que apenas “uns testes”.

Sintomas ou estilo de vida?

Antes de qualquer conclusão, é crucial considerar que muitos dos sintomas frequentemente associados ao TDAH podem ser mimetizados ou exacerbados por fatores do estilo de vida moderno e condições ambientais. A vida contemporânea, com sua demanda constante por atenção e multitarefas, pode facilmente gerar comportamentos que se assemelham aos do TDAH, levando a um fenômeno que alguns chamam de “pseudo-TDAH” ou “sintomas de TDAH adquiridos”.

Vamos detalhar como esses fatores podem simular os sintomas:

  • Estresse crônico e ansiedade: A sobrecarga de estresse pode levar à dificuldade de concentração, irritabilidade, inquietação e problemas de memória. Pois, o cérebro, em estado de alerta constante, tem dificuldade em focar em tarefas não relacionadas à “ameaça”. A ansiedade generalizada, por exemplo, pode causar uma “mente acelerada” e dificuldade em focar, muito semelhante à desatenção do TDAH.
  • Cansaço e privação de sono: A falta de sono adequado afeta diretamente as funções executivas. A capacidade de atenção, memória de trabalho e controle de impulsos são significativamente prejudicadas quando o corpo e a mente não descansam o suficiente. Pessoas com privação crônica de sono podem apresentar desatenção, lentidão cognitiva e até hiperatividade paradoxal (especialmente em crianças).
  • Desregulação corporal e nutrição inadequada: Uma dieta pobre em nutrientes essenciais, com alto consumo de açúcares refinados e alimentos processados, pode levar a flutuações nos níveis de energia e açúcar no sangue, impactando o humor, a concentração e a estabulação. Além disso, desequilíbrios hormonais (como problemas de tireoide) também podem afetar a cognição e o comportamento.
  • Falta de atividade física: O exercício físico regular é um potente regulador de neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina, além de reduzir o estresse e melhorar a qualidade do sono. A inatividade pode contribuir para a inquietação, dificuldade de concentração e baixa energia.
  • Excesso de tempo em telas e sobrecarga de informação: A exposição constante a estímulos digitais rápidos e a necessidade de alternar entre múltiplas tarefas podem treinar o cérebro para uma atenção fragmentada. Isso pode levar a uma diminuição da capacidade de sustentar o foco em tarefas mais longas e menos estimulantes, mimetizando a desatenção. A gratificação instantânea das redes sociais e jogos também pode reduzir a tolerância à frustração e à espera, impactando o controle de impulsos.

Por isso, é crucial avaliar o contexto em que esses sintomas ocorrem. São novos? Surgiram após uma mudança significativa na vida? Estão presentes apenas em certas situações? Perceba que muito do nosso estilo de vida moderno implica em estimular a desatenção, a atenção fragmentada e a ansiedade. Por isso, observe seu dia a dia e faça um check-list dos itens acima. Ok?

E por fim, é importante fazer um diagnóstico com profissional qualificado e treinado para o TDAH, assim como nossa equipe aqui no Instituto Alceu Giraldi.

Diagnóstico errado vs. certo de TDAH

Um diagnóstico correto de TDAH não é baseado apenas em sintomas observados de forma isolada ou em um único teste. É um processo complexo e multimodal que exige uma avaliação abrangente por profissionais de saúde mental qualificados, como psiquiatras, neurologistas ou psicólogos clínicos com experiência em neurodesenvolvimento.

O processo de diagnóstico abrangente inclui:

Histórico clínico detalhado:

  1. Anamnese completa: Coleta de informações sobre o desenvolvimento do paciente desde a infância, histórico familiar de TDAH ou outros transtornos psiquiátricos, histórico de saúde geral, uso de medicamentos e substâncias.
  2. Entrevistas com múltiplos informantes: É fundamental coletar informações de pessoas que conhecem o paciente em diferentes contextos e ao longo do tempo. Para crianças e adolescentes, isso inclui pais, cuidadores e professores. Para adultos, pode envolver cônjuges, parceiros, familiares próximos ou até colegas de trabalho. Isso ajuda a confirmar a persistência dos sintomas e o prejuízo em múltiplos ambientes.
  3. Revisão de registros antigos: Boletins escolares, relatórios de creches, históricos médicos e psicológicos anteriores podem fornecer informações valiosas sobre a presença de sintomas na infância.

Avaliação dos critérios de diagnósticos:

  1. Verificação rigorosa de que o paciente preenche os critérios para desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade.
  2. Confirmação de que vários sintomas estavam presentes antes dos 12 anos de idade.
  3. Evidência clara de que os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
  4. Confirmação de que os sintomas não são melhor explicados por outro transtorno mental (como transtorno de humor, transtorno de ansiedade, transtorno psicótico ou transtorno de personalidade).

Uso de escalas de avaliação padronizadas:

Questionários preenchidos pelo paciente, pais ou professores. Essas escalas ajudam a quantificar a frequência e a gravidade dos sintomas e a compará-los com normas populacionais.

Avaliação Neuropsicológica:

Embora não seja sempre obrigatória, a testagem neuropsicológica pode ser muito útil para avaliar funções cognitivas específicas (atenção, memória de trabalho, controle inibitório) e identificar padrões de déficits que são consistentes com o TDAH. Também ajuda a descartar outras condições que afetam a cognição, como dificuldades de aprendizagem específicas, ou a identificar comorbidades.

Saiba um pouco mais sobre Avaliação Neuropsicológica aqui.

Diagnóstico diferencial:

    Um aspecto crítico do diagnóstico é a capacidade de diferenciar o TDAH de outras condições que podem apresentar sintomas semelhantes. Isso inclui:

    • Transtornos de Ansiedade: Podem causar inquietação, dificuldade de concentração e irritabilidade.
    • Transtornos Depressivos: Podem levar à fadiga, falta de motivação, dificuldade de concentração e problemas de memória.
    • Transtornos do Sono: Insônia, apneia do sono ou sono de má qualidade podem mimetizar sintomas de TDAH.
    • Transtornos do Espectro Autista (TEA): Podem apresentar dificuldades sociais e comportamentos repetitivos que podem ser confundidos com hiperatividade.
    • Transtornos de Aprendizagem Específicos: Podem levar a dificuldades acadêmicas que impactam a atenção e a motivação.
    • Condições Médicas: Problemas de tireoide, anemia, deficiências vitamínicas ou efeitos colaterais de medicamentos.
    • Trauma e TEPT (PTSD): Experiências traumáticas podem causar hipervigilância, dificuldade de concentração e desregulação emocional.

      Um diagnóstico errado pode ter consequências graves, levando a tratamentos inadequados, atraso no tratamento da condição subjacente real e frustração para o paciente. Sem contar os prejuízos causados na vida do paciente e agravamento de situações que poderiam ser evitadas.

      Além disso, gosto de ressaltar que a automedicação ou o uso de substâncias sem orientação profissional, baseados em um autodiagnóstico, podem ser perigosos!

      Perguntas para reflexão!

      Para ajudar você a refletir sobre a possibilidade, não é diagnóstico, de ter TDAH, aqui estão algumas perguntas. Lembre-se, estas são apenas ferramentas de triagem e não substituem uma avaliação profissional:

      Sintomas de desatenção:

      • Você frequentemente falha em prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em tarefas escolares, no trabalho ou em outras atividades? (Ex: erros em documentos, ignorar detalhes importantes).
      • Tem dificuldade em manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas? (Ex: dificuldade em seguir palestras, conversas longas ou leituras prolongadas).
      • Frequentemente parece não escutar quando lhe falam diretamente? (Ex: mente “longe”, mesmo sem distração óbvia).
      • Frequentemente não segue instruções e falha em terminar trabalhos escolares, tarefas ou deveres no local de trabalho? (Ex: inicia tarefas, mas perde o foco rapidamente).
      • Tem dificuldade em organizar tarefas e atividades? (Ex: gerenciar sequências de tarefas, manter materiais e pertences em ordem, gerenciar o tempo).
      • Frequentemente evita, não gosta ou reluta em se engajar em tarefas que exigem esforço mental prolongado? (Ex: trabalhos escolares, preparação de relatórios, preenchimento de formulários extensos).
      • Frequentemente perde coisas necessárias para tarefas ou atividades? (Ex: materiais escolares, lápis, livros, ferramentas, carteira, chaves, celular, óculos).
      • É facilmente distraído por estímulos externos? (Ex: sons, movimentos, pensamentos irrelevantes).
      • Frequentemente é esquecido em atividades diárias? (Ex: esquecer compromissos, pagar contas, retornar chamadas, manter promessas).

      Sintomas de hiperatividade e impulsividade:

      • Frequentemente se agita ou batuca com as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira?
      • Frequentemente abandona seu lugar em situações em que se espera que permaneça sentado? (Ex: sai do lugar na sala de aula, no escritório, em outras situações).
      • Frequentemente corre ou escala em situações em que isso é inapropriado? (Em adultos, pode ser sensação de inquietação subjetiva).
      • É frequentemente incapaz de brincar ou se engajar em atividades de lazer silenciosamente?
      • Está frequentemente “a todo vapor”, agindo como se estivesse “ligado a um motor”? (Sente-se desconfortável em ficar parado por muito tempo).
      • Frequentemente fala excessivamente?
      • Frequentemente “solta” uma resposta antes que a pergunta tenha sido concluída? (Ex: completa frases dos outros, não espera a vez na conversa).
      • Tem dificuldade em esperar a sua vez? (Ex: em filas, em conversas).
      • Frequentemente interrompe ou se intromete em outros? (Ex: intromete-se em conversas, jogos ou atividades).

      Se você respondeu “sim” a várias dessas perguntas, especialmente se esses padrões são persistentes desde a infância e causam dificuldades significativas em sua vida diária, isso pode justificar uma avaliação profissional.

      A Importância da história do paciente e o curso do TDAH

      O diagnóstico de TDAH requer uma análise cuidadosa da história de desenvolvimento do paciente. Os sintomas devem ter uma trajetória de desenvolvimento que se manifesta desde a infância, geralmente antes dos 12 anos de idade, e persistem ao longo do tempo. Não é uma condição que “surge” na idade adulta sem qualquer histórico anterior.

      A observação dos sintomas ao longo do tempo e em diferentes contextos é crucial. Por exemplo, uma criança que apresenta dificuldades de atenção apenas em casa, mas não na escola, pode estar enfrentando problemas familiares ou emocionais, e não TDAH. Da mesma forma, um adulto que de repente desenvolve problemas de concentração pode estar lidando com estresse, depressão, ansiedade ou outras condições médicas.

      Um diagnóstico preciso é essencial para garantir que o tratamento seja eficaz e adequado às necessidades individuais. O TDAH é uma condição crônica, mas manejável. Com o tratamento correto, que pode incluir medicação, terapia, treinamento de habilidades de organização e intervenções no estilo de vida, os indivíduos podem aprender a gerenciar seus sintomas e levar vidas plenas e produtivas.

      Tenha um diagnóstico (positivo ou negativo) por um profissional qualificada

      Se você suspeita que tem TDAH, ou se os sintomas que você experimenta estão causando prejuízo significativo em sua vida, é fundamental buscar uma avaliação profissional. Um psiquiatra, neurologista ou psicólogo clínico especializado em TDAH e neurodesenvolvimento pode realizar uma avaliação completa e determinar se seus sintomas são realmente indicativos do transtorno ou se estão relacionados a outros fatores.

      Obviamente você não precisa passar com a nossa equipe, pois o nosso objetivo aqui é a psicoeducação. Pois, informação é o primeiro passo do tratamento. Encontre um profissional que você confie e que seja especializado e faça seu diagnóstico. Posso dizer, com muita felicidade, que uma consulta pode revelar coisas tão importantes e maravilhosas. Invista em você, na sua mente e tenha uma vida plena!

      Lembre-se:

      • Não se autodiagnostique: A internet oferece muitas informações, mas apenas um profissional qualificado pode fazer um diagnóstico preciso.
      • Não se automedique: O uso de medicamentos para TDAH sem prescrição e acompanhamento médico pode ser perigoso e ineficaz.

      Cuidar da sua saúde mental é um ato de coragem e um passo importante para o bem-estar. Um diagnóstico correto é o primeiro passo para um plano de tratamento eficaz e para a melhoria da sua qualidade de vida.

      Aprofunde seu conhecimento:

      Dr. Thiago Dias

      Dr. Thiago Dias

      Médico Psiquiatra, Terapeuta Gestalt e Co-fundador do Instituto Alceu Giraldi. Após muitos anos trabalhando com patologias mentais e ajudando seus clientes a voltarem para sua vidas, compreendeu que o sucesso de seus pacientes acontece quando olham para a saúde, qualidade de vida e bem-estar. Assim, facilitando o tratamento e remissão.

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