Ter uma mãe que é referência nacional em zumbido me ensinou muito sobre medicina. Dra. Clarice Saba dedicou décadas ao estudo dessa condição complexa, e participar de uma entrevista ao lado dela foi motivo de orgulho imenso. Como psiquiatra, vejo diariamente como o zumbido afeta a saúde mental dos pacientes.
Durante nossa conversa na Rádio Cardeal FM, ficou evidente que zumbido não é apenas um sintoma físico. Na verdade, ele impacta profundamente a vida emocional de quem convive com esse ruído constante. Dessa forma, neste texto abordaremos como o zumbido afeta sua mente, por que tantos pacientes desenvolvem ansiedade e depressão, e você entenderá como o tratamento psiquiátrico faz diferença nessa jornada.
A herança de uma especialista
Crescer ao lado de uma médica que estuda zumbido há tanto tempo me deu uma visão única sobre essa condição. Minha mãe sempre me ensinou que o zumbido tem “n causas”, como ela costuma dizer. Pode ser metabólico, muscular, relacionado à articulação da mandíbula ou até mesmo neurológico.
Entretanto, o que mais me chamava atenção eram os relatos dos pacientes sobre como se sentiam. Muitos chegavam ao consultório dela não apenas incomodados com o barulho, mas verdadeiramente desesperados. Era comum ouvirmos: “Doutora, não aguento mais”, “Não consigo dormir”, “Acho que estou ficando louco”.
Assim, naturalmente comecei a perceber que existia uma dimensão emocional importante no zumbido. Por isso, quando escolhi a psiquiatria como especialidade, sabia que poderia contribuir de forma significativa no cuidado desses pacientes.

O zumbido
Imagine conviver 24 horas por dia com um ruído. Às vezes é um apito agudo, outras vezes parece o barulho de uma cigarra ou um zumbido constante. Para quem nunca passou por isso, pode parecer apenas um incômodo. Porém, a realidade é muito mais complexa.
O zumbido ativa o sistema límbico, área do nosso cérebro responsável pelas emoções. Quando você fica ansioso com o barulho, essa ansiedade pode intensificar a percepção do sintoma. Criamos assim um ciclo: quanto mais você se incomoda, mais alto parece ficar o zumbido.
Durante a entrevista, expliquei como esse processo afeta a qualidade de vida. Pacientes relatam dificuldade para se concentrar no trabalho, problemas para adormecer e irritabilidade constante. Muitos começam a evitar ambientes sociais, temendo que o barulho piore.
O isolamento social que pode surgir é especialmente preocupante. Quando você não consegue explicar para família e amigos o que está sentindo, é comum surgirem comentários como “isso é frescura” ou “você precisa se distrair mais”. Essas falas, mesmo bem-intencionadas, aumentam o sofrimento.
Ansiedade e depressão
Como psiquiatra, recebo muitos pacientes encaminhados por minha mãe e outros otorrinolaringologistas. A maioria chega com sintomas claros de ansiedade. Alguns desenvolvem verdadeiro pânico quando o zumbido aumenta de intensidade.
A ansiedade relacionada ao zumbido tem características específicas. Pacientes relatam medo constante de que o sintoma piore, preocupação excessiva sobre as possíveis causas e uma vigilância constante do próprio ouvido. Essa hipervigilância acaba amplificando a percepção do ruído.
Já a depressão pode surgir quando a pessoa perde a esperança de melhora. Pensar “vou ter que conviver com isso para sempre” gera um sentimento de desesperança profundo. Alguns pacientes chegam a relatar pensamentos sobre atentar contra a própria vida, tamanha é a intensidade do sofrimento.
Por isso, é fundamental que familiares e amigos compreendam: zumbido não é frescura. É uma condição real que pode gerar sofrimento psíquico significativo. O apoio emocional faz toda a diferença no processo de recuperação.
O tratamento que vai além do ouvido
Trabalhar em parceria com minha mãe me ensinou que o tratamento do zumbido precisa ser multidisciplinar. Enquanto ela investiga e trata as causas físicas, eu cuido dos aspectos emocionais envolvidos.
A psicoterapia é uma ferramenta fundamental nesse processo. Pois a psicoterapia ensina técnicas para reduzir a ansiedade, estratégias de enfrentamento e formas de quebrar o ciclo negativo entre emoção e percepção do zumbido. Muitos pacientes se beneficiam de abordagens como a terapia cognitivo-comportamental.
Em alguns casos, medicações são necessárias. Antidepressivos podem ajudar não apenas com o humor, mas também reduzir a percepção do zumbido em determinados pacientes. Ansiolíticos, usados criteriosamente, auxiliam em momentos de maior crise.
Contudo, sempre deixo claro: o objetivo não é apenas medicar. Nossa meta é ensinar o paciente a conviver melhor com o sintoma enquanto buscamos as melhores opções de tratamento. Isso inclui técnicas de relaxamento, mudanças no estilo de vida e, principalmente, ressignificar a relação com o zumbido.
Preconceito: o inimigo silencioso
Preciso esclarecer: buscar ajuda psiquiátrica não significa que seu zumbido é imaginário. Significa que você está sendo corajoso ao buscar todas as ferramentas disponíveis para se sentir melhor. Afinal, cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo.
Durante a entrevista, enfatizei que o tratamento integrado oferece melhores resultados. Quando conseguimos reduzir a ansiedade e melhorar o humor, frequentemente observamos redução na percepção do zumbido. Isso não é mágica, é neurociência aplicada ao cuidado humano.
O futuro do tratamento integrado
O Tinnitus Day Talk 2025, evento organizado por minha mãe, representa um marco nessa abordagem integrada. Pela primeira vez em Salvador, tivemos especialistas de diferentes áreas discutindo o zumbido de forma conjunta.
Como psiquiatra, participei das discussões sobre como identificar e tratar as comorbidades psiquiátricas associadas ao zumbido. Abordei casos clínicos, estratégias terapêuticas e a importância do trabalho em equipe.
O que mais me emociona é ver Salvador sendo reconhecida como centro de referência nessa área. A Dra. Clarice Saba construiu um trabalho sólido ao longo dos anos, e agora conseguimos reunir especialistas internacionais para compartilhar conhecimento em nossa cidade.
A decisão de abrir o domingo para o público geral mostra nosso compromisso com a democratização do conhecimento. Queremos que pacientes e familiares compreendam melhor o zumbido e as opções de tratamento disponíveis.
Esperança baseada em ciência
Se você sofre com zumbido, quero que saiba: não precisa enfrentar isso sozinho. Existem profissionais capacitados e tratamentos eficazes disponíveis. O primeiro passo é buscar ajuda especializada e não ter medo de abordar os aspectos emocionais envolvidos.
Durante nossa experiência no Instituto Alceu Giraldi, observamos que pacientes que aceitam o tratamento integrado apresentam melhores resultados. Quando corpo e mente são cuidados em conjunto, a qualidade de vida melhora significativamente.
Lembre-se: ter zumbido não significa que você deve aceitar uma vida de sofrimento. Com o acompanhamento adequado, é possível retomar suas atividades, relacionamentos e projetos. A jornada pode ser desafiadora, mas você não caminha sozinho.
O trabalho conjunto entre diferentes especialidades representa o futuro da medicina. E nós estamos orgulhosos de contribuir para essa evolução no cuidado ao paciente com zumbido.
Assista a entrevista completa!
Assista nossa entrevista completa na Rádio Cardeal FM com a entrevistadora Patrícia Tosta.












