Hoje eu quero conversar com você sobre algo muito pessoal. Antes de ser médica, antes de ser psiquiatra, eu sou uma pessoa. E, acima de tudo, eu sou uma irmã.
Em 2019, a minha irmã, que sempre foi uma mulher cuidadosa, atenta, daquelas que fazem check-ups regularmente e que levam a sério o autocuidado, percebeu um pequeno nódulo durante o banho. Foi um daqueles momentos em que o tempo parece desacelerar. Ela me contou depois que sentiu algo diferente, um pressentimento. Não era dor, não era nada grande, mas algo dentro dela dizia que precisava investigar.
Logo marcou um ultrassom e uma consulta para entender o que estava acontecendo. Eu ainda lembro perfeitamente do dia em que ela me ligou do meio do exame. A médica que fazia o ultrassom percebeu que aquele nódulo não tinha uma aparência muito tranquila e sugeriu uma biópsia. Como a médica sou eu e a irmã dela também é médica, ela comentou ali mesmo no consultório que podia conseguir o pedido com uma de nós.
A médica pegou o telefone, falou comigo, me explicou o que tinha visto e, em poucas horas, a biópsia já estava feita. E foi ali que o medo começou a crescer. Aquele medo que vem com o desconhecido, com o que a gente não pode controlar. Porque, no fim das contas, todo mundo tem medo do câncer.
Mesmo sendo médica, naquele momento eu não conseguia pensar com a objetividade da profissão. Eu era só uma irmã, tentando respirar fundo e acreditar que tudo ficaria bem.
O medo e o amor caminham juntos
No dia da consulta com a mastologista, eu estava ao lado dela. No dia da consulta com a oncologista, também. E, mesmo que a gente tente se preparar, nada nos prepara realmente para ouvir certas palavras. O coração bate diferente. O ar parece faltar.
Uma das primeiras perguntas que ela fez foi: “Eu vou ficar careca?”
A oncologista foi gentil, mas sincera. Disse que cada organismo reage de um jeito, mas que sim, provavelmente ela perderia o cabelo. Essa foi uma das respostas mais duras de todo o processo. Não porque o cabelo em si tenha tanta importância, mas porque ali, naquele instante, a doença começava a ter um rosto, uma presença concreta no cotidiano.
Vieram meses intensos de quimioterapia, cirurgia, radioterapia, e depois uma quimioterapia oral. Meses em que o corpo dela mudava, em que o cansaço pesava, e em que as náuseas pareciam não dar trégua. Eu estive por perto em cada uma dessas fases, e confesso que, às vezes, sentia mais medo do que coragem.
Ver alguém que você ama passando por tudo isso é um tipo de dor silenciosa. A gente quer resolver, quer tirar o sofrimento, mas não pode. Então o que resta é estar junto, oferecendo presença, escuta, afeto. Mesmo quando não há palavras certas, a companhia fala muito.
A força que vem de dentro
Minha irmã sempre teve uma força admirável. Mesmo nos dias mais difíceis, ela se mantinha conectada à vida, à esperança e ao amor das pessoas ao redor. Ela cuidou da saúde mental dela com a mesma dedicação com que cuidava do corpo.
E isso fez toda a diferença.
Ela ria quando podia, chorava quando precisava, e aceitava ajuda sem vergonha. Aos poucos, eu percebi que o amor realmente tem um poder curativo, não no sentido mágico, mas no sentido humano, profundo. O amor dá coragem, dá fôlego, dá motivo pra continuar.
Essa vivência me ensinou algo que nenhum livro de medicina poderia ensinar: o câncer não afeta apenas quem recebe o diagnóstico. Ele atravessa toda a rede ao redor: pais, irmãos, filhos, amigos, colegas. Cada um sofre à sua maneira, cada um vive a dor e o medo de perder, mas também a alegria de ver pequenas vitórias acontecendo dia após dia.
Como irmã, eu precisei aprender a ser apoio sem ser controle. A escutar sem julgar. A entender que o silêncio, muitas vezes, é mais terapêutico que qualquer palavra.
O que eu aprendi com tudo isso
Quando alguém na família recebe um diagnóstico de câncer, o mundo parece mudar de cor. As prioridades se reorganizam, os planos se ajustam e o tempo ganha outro significado.
Aprendi que o diagnóstico precoce é uma das maiores armas que temos. E que o simples ato de se tocar, de se conhecer, de observar o próprio corpo, pode salvar uma vida.
Mas aprendi também que o apoio emocional é tão essencial quanto o tratamento físico. Que o abraço de um irmão, o olhar calmo de um amigo, a presença silenciosa de quem está ali sem precisar dizer nada. Tudo isso é parte da cura.
Muitas vezes, as pessoas não sabem o que dizer para quem está enfrentando o câncer. E tudo bem. Às vezes, o melhor que você pode fazer é não se afastar. É continuar presente, continuar ligando, mandando mensagens, oferecendo companhia.
Um novo olhar sobre a vida
Hoje, olhando para trás, sinto uma mistura enorme de gratidão e reverência pela vida. Agradeço por termos descoberto cedo, por termos acesso a bons profissionais, e por termos vivido essa fase cercadas de tanto amor.
Mas acima de tudo, agradeço pela transformação que essa experiência trouxe.
Depois que o câncer entrou na nossa vida, nada voltou a ser exatamente como antes, e talvez isso não seja algo ruim. Passamos a valorizar o que realmente importa, a desacelerar, a entender que estar vivo é, por si só, uma vitória diária.
Quando falo com pacientes que estão passando por algo semelhante, eu não falo mais apenas como médica. Eu falo como alguém que esteve ali, que sentiu na pele a vulnerabilidade, o medo e a esperança. E, principalmente, como alguém que viu de perto que a cura é possível.
Se eu pudesse deixar uma mensagem para você…
Se você está enfrentando o câncer de mama, ou se alguém que você ama está passando por isso, quero te dizer uma coisa: não se cobre tanto por ser forte o tempo todo. Ninguém é. E tudo bem.
Tenha paciência com o processo, com o corpo, com o tempo. Celebre cada pequena conquista — o dia sem enjoo, o primeiro passeio depois da cirurgia, o sorriso que volta aos poucos.
E se você está do outro lado — acompanhando, cuidando, amando —, saiba que a sua presença é um dos maiores remédios que existe. Mesmo quando você acha que não está fazendo nada, o seu amor está fazendo tudo.
O câncer de mama pode trazer dor, medo e incerteza. Mas também traz lições sobre amor, resiliência e humanidade. Ele nos ensina que a vida é frágil, mas também forte. Que o corpo pode adoecer, mas o amor não.
Por isso, se toque, se cuide, se olhe com carinho. E, se puder, olhe também com carinho para quem está ao seu lado nessa caminhada. Porque o diagnóstico precoce salva vidas — mas o amor, ah… o amor é o que dá sentido a elas. ?












