O Brasil trabalha à base de remédios

Você já parou para pensar que talvez estejamos vivendo o maior paradoxo da história moderna? Nunca a medicina avançou tanto, nunca tivemos tantos recursos para cuidar da saúde, e ao mesmo tempo, nunca estivemos tão doentes mentalmente. Seja na vida ou no ambiente de trabalho.

Profissionais chegam até mim carregando uma mochila pesada: estimulantes para acordar, ansiolíticos para aguentar o dia, antidepressivos para não desabar e sedativos para conseguir dormir. É como se o trabalho no Brasil funcionasse à base de uma farmácia particular em cada gaveta.

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Assustador, não é mesmo?

Os números que compartilho com você hoje não deveriam apenas nos assustar, eles deveriam nos mobilizar para uma mudança urgente. Pois, mais da metade dos profissionais brasileiros precisa de medicamentos para lidar com a rotina de trabalho. Entre as lideranças, 52% usam psicofármacos. Entre os funcionários, 3 em cada 5 dependem dessa muleta química. E os afastamentos por saúde mental? Explodiram 143% em 2025.

Dessa forma, neste texto abordaremos como chegamos a esse ponto crítico, a diferença entre ser produtivo e apenas ocupado, os sinais do burnout que muitos ignoram, e você descobrirá estratégias concretas para transformar essa realidade tanto na sua vida quanto na sua empresa.

Quando o remédio vira combustível para o trabalho

Existe algo profundamente errado quando uma sociedade precisa se medicar para trabalhar. Não estou falando de tratamentos legítimos para transtornos mentais, esses são necessários e importantes. Estou me referindo ao uso de medicamentos como uma estratégia de sobrevivência no ambiente corporativo.

Vejo isso constantemente aqui na clínica: executivos que tomam ritalina sem ter TDAH, apenas para “render mais”; profissionais que dependem de rivotril para aguentar reuniões; pessoas que precisam de zolpidem toda noite porque a ansiedade do trabalho não as deixa dormir naturalmente. Inclusive, a grande maioria já chega automedicado de acordo com seu influencer preferido. Falo mais disso, neste artigo aqui.

Por isso, acredito que estamos confundindo tratamento com adaptação forçada. Quando o ambiente é tóxico, a solução não deveria ser medicar quem está sendo intoxicado, mas sim limpar o ambiente. É como tentar curar alguém que está se afogando dando remédio para respirar debaixo d’água, em vez de tirá-la de lá.

O mais preocupante é que 73% dos gestores não se sentem à vontade para informar sobre o uso de medicamentos. Se esse é o número entre quem tem poder de decisão, imagine entre os funcionários. Criamos uma cultura do silêncio onde todo mundo está mal, mas ninguém pode admitir.

O paradoxo do avanço médico e do retrocesso da saúde

O mais louco é que nunca tivemos tantos recursos médicos disponíveis. Antidepressivos mais eficazes, ansiolíticos com menos efeitos colaterais, estimulantes mais precisos. A neurociência nos ensina cada dia mais sobre como o cérebro funciona. Então por que estamos mais doentes mentalmente do que nunca?

A resposta está na velocidade com que mudamos nossa forma de trabalhar versus a velocidade com que nosso cérebro consegue se adaptar. Nosso sistema nervoso ainda funciona como há milhares de anos, mas agora precisa lidar com notificações constantes, metas impossíveis, pressão 24 horas por dia e a sensação de que nunca é suficiente.

Aqui no Instituto Alceu Giraldi, recebo profissionais que me dizem: “Doutor, eu tenho tudo para ser feliz, mas não consigo parar de me sentir ansioso”. Eles não entendem que o problema não está neles, está no sistema que os cerca. Está no ambiente!

A consultoria para empresas

Uma das grandes revelações que temos é quando vamos fazer uma consultoria de bem-estar organizacional ou avaliação do estado mental de equipes no ambiente corporativo. Você já consegue imaginar o que descobrimos? Pessoas que trocam remédios entre si, para aguentar o dia. Pessoas, que não lidam com a pressão de seus chefes, que muitas vezes não estão capacitados para suas posições (e digo capacitados emocionalmente, sem habilidades sociais e de liderança necessárias).

Por isso, posso afirmar que o avanço da medicina acabou se tornando um band-aid para problemas sistêmicos. Em vez de questionar por que tantas pessoas estão adoecendo, simplesmente medicamos os sintomas e pedimos para elas continuarem funcionando. Medicar é mais fácil, mas temos que lembrar que remédio é para remediar, para ajudar no tratamento, nos ajustes. Portanto, não adianta só remediar, tem que ajustar, corrigir e organizar!

Ambientes tóxicos: quando o trabalho vira veneno

As causas dos problemas de saúde mental no trabalho não são mistério: sobrecarga de trabalho (37%), pressão excessiva por resultados (33%) e conflitos interpessoais (31%). Traduzindo: estamos pedindo demais, cobrando demais e tratando mal as pessoas.

Vejo pacientes que trabalham em empresas onde a cultura é “quem sair por último é mais dedicado”. Onde mandar e-mail de madrugada é visto como comprometimento. Onde questionar uma meta impossível é interpretado como falta de ambição.

Acredito que muitos ambientes de trabalho se tornaram campos de batalha psicológica. Chefes que nunca aprenderam a liderar, apenas a mandar. Gestores que confundem autoridade com autoritarismo, que acreditam que gritar motiva e que humilhar “ensina”.

Na minha experiência clínica, posso afirmar que a maioria dos problemas de saúde mental relacionados ao trabalho tem origem em lideranças que não sabem se comunicar. Pois, elas criam um ambiente onde o medo é a principal ferramenta de gestão, onde as pessoas trabalham mais por terror de serem demitidas do que por motivação genuína.

A confusão entre ser ocupado e ser produtivo

Aqui chegamos a um dos maiores equívocos do mundo corporativo moderno: confundir ocupação com produtividade. Vejo profissionais que chegam ao consultório exaustos, mas quando pergunto o que realmente produziram, ficam em silêncio.

Ser ocupado significa ter a agenda lotada, responder e-mails o tempo todo, estar sempre “fazendo alguma coisa”. Ser produtivo significa gerar resultados significativos, resolver problemas reais, criar valor genuíno.

Por isso, posso afirmar que a ocupação constante é, na verdade, uma forma de procrastinação disfarçada. Quando você está sempre “ocupado”, não precisa enfrentar as tarefas realmente importantes e desafiadoras. É mais fácil responder 50 e-mails do que tomar uma decisão estratégica difícil.

Aqui na clínica, ensino meus pacientes a diferença: produtividade é fazer as coisas certas, ocupação é apenas fazer coisas. Produtividade gera satisfação e resultados, ocupação gera apenas cansaço e frustração.

Burnout: quando o corpo grita “chega”

O burnout não é apenas “estar cansado do trabalho”. É um estado de exaustão física, mental e emocional causado por estresse prolongado e excessivo. É quando seu corpo literalmente grita “chega” e você não consegue mais ignorar.

Pacientes chegam ao limite absoluto, não conseguem mais se concentrar, sentem dores físicas sem causa aparente, têm crises de choro no banheiro da empresa, acordam já cansados. Eles me dizem: “Doutor, eu não reconheço mais quem eu sou”.

O burnout tem três características principais que observo constantemente: exaustão emocional (você se sente drenado mesmo sem fazer esforço físico), despersonalização (você trata colegas e clientes como objetos, não como pessoas) e baixa realização pessoal (nada do que você faz parece ter valor ou significado).

Por isso, acredito que o burnout é o grito de socorro do nosso sistema nervoso. É o corpo dizendo que não aguenta mais funcionar em modo de emergência constante. Ignorar esses sinais é como ignorar a luz vermelha do painel do carro, uma hora o motor vai fundir.

O ciclo vicioso dos estimulantes e sedativos

Um dos padrões mais preocupantes que vejo é o ciclo estimulante-sedativo. Profissionais que tomam cafeína, energéticos ou até medicamentos para “dar conta” durante o dia, e depois precisam de álcool, ansiolíticos ou sedativos para conseguir desligar à noite.

Esse ciclo é devastador para o sistema nervoso. É como acelerar e frear bruscamente o tempo todo, uma hora algo vai quebrar. O corpo perde a capacidade natural de regular energia e relaxamento, ficando dependente de substâncias externas.

Na minha experiência, esse padrão geralmente começa de forma inocente: um café a mais para uma apresentação importante, um drink para relaxar depois de um dia difícil. Mas rapidamente se torna uma necessidade para funcionar.

Por isso, podemos afirmar que quando precisamos de substâncias para acordar e outras para dormir, perdemos nossa autonomia biológica básica. Nosso corpo esquece como funcionar naturalmente. Preocupante, não é mesmo? Se você está neste ciclo, precisamos repensar sua estratégia de vida.

Liderança tóxica: quando chefes destroem equipes

Levantando uma bola pesada aqui, uma das principais causas de adoecimento mental no trabalho são lideranças que nunca aprenderam a liderar. Pessoas que foram promovidas por competência técnica, mas que não desenvolveram habilidades humanas básicas como comunicação, empatia e gestão emocional.

Vejo os efeitos disso em profissionais talentosos que desenvolvem ansiedade, depressão e síndrome do pânico simplesmente por trabalharem com chefes que não sabem se comunicar adequadamente. Líderes que usam humilhação como ferramenta, que gritam em reuniões, que fazem ameaças veladas.

Acredito que muitos gestores confundem liderança com dominação. Eles acham que mandar é liderar, que intimidar é motivar, que pressionar é desenvolver. Na verdade, estão apenas criando ambientes onde as pessoas trabalham por medo, não por engajamento.

A verdadeira liderança inspira, desenvolve, protege e capacita. Um bom líder faz as pessoas quererem dar o melhor de si, não as força a isso através do medo. A diferença é fundamental e os resultados, tanto em produtividade quanto em saúde mental, são completamente diferentes.

O custo real da cultura do “sempre mais”

Vivemos numa cultura empresarial onde “sempre mais” é o mantra: mais horas, mais resultados, mais dedicação, mais sacrifício. Mas ninguém pergunta: mais até quando? Mais a que custo?

Profissionais sacrificaram relacionamentos, saúde, hobbies e até a própria identidade em nome do sucesso profissional. Porém, quando chegam ao topo da carreira, se sentem vazios, ansiosos e desconectados de si mesmos.

Por isso, acredito que precisamos redefinir o que é sucesso. Sucesso não pode ser apenas dinheiro e posição se vier acompanhado de depressão, ansiedade e relacionamentos destruídos. Sucesso verdadeiro inclui bem-estar, relacionamentos saudáveis e paz interior.

Aqui no Instituto Alceu Giraldi, trabalho com executivos que “têm tudo” mas se sentem miseráveis. Eles descobriram que subiram a escada do sucesso, mas ela estava apoiada na parede errada.

Sinais de alerta que não podemos ignorar

Agora, me deixe apresentar sinais claros de que algo está errado com nossa relação com o trabalho, mas muitas vezes os ignoramos até ser tarde demais. Preste atenção se você ou alguém próximo apresenta estes sintomas:

Fisicamente, observe se há cansaço constante mesmo após descanso, dores de cabeça frequentes, problemas digestivos sem causa aparente, tensão muscular crônica ou alterações no sono e apetite.

Emocionalmente, fique atento à irritabilidade excessiva, sentimentos de desesperança, ansiedade constante, perda de interesse em atividades que antes davam prazer, ou sensação de estar sempre “no limite”.

Comportamentalmente, observe isolamento social, aumento no consumo de álcool ou outras substâncias, procrastinação excessiva, dificuldade de concentração, ou a necessidade constante de estar ocupado para não pensar.

Estes sinais são o sistema de alerta do nosso corpo e mente.

Estratégias para empresas: criando ambientes saudáveis

Para empresas que realmente querem mudar essa realidade, existem estratégias concretas e eficazes. Primeiro, invistam em treinamento de liderança focado em habilidades humanas, não apenas técnicas. Líderes precisam aprender a se comunicar, dar feedback construtivo e gerenciar conflitos.

Estabeleçam limites claros entre trabalho e vida pessoal. Isso significa não enviar e-mails fora do horário comercial, respeitar férias e folgas, e criar uma cultura onde descansar não é visto como preguiça.

Implementem programas de bem-estar que vão além do plano de saúde. Isso inclui apoio psicológico (podemos orçar uma equipe para atender sua empresa), atividades físicas, espaços de relaxamento e políticas que promovam equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Na minha experiência, empresas que investem genuinamente no bem-estar dos funcionários veem retorno em produtividade, criatividade, retenção de talentos e redução de afastamentos. É um investimento que se paga sozinho.

Estratégias para profissionais: protegendo sua saúde mental

Para você, profissional que está lendo isso e se reconhecendo em alguns pontos, saiba que é possível mudar sua relação com o trabalho sem necessariamente mudar de emprego.

Primeiro, aprenda a estabelecer limites. Isso significa dizer não para demandas excessivas, não responder e-mails fora do horário e proteger seu tempo de descanso como se fosse sagrado.

Desenvolva uma rotina de autocuidado que inclua atividade física regular, alimentação adequada, sono de qualidade e momentos de lazer genuíno. Seu corpo e mente precisam de combustível de qualidade para funcionar bem.

Busque apoio profissional antes de chegar ao limite. Terapia não é para “loucos”, é manutenção preventiva da saúde mental, assim como ir ao dentista é manutenção preventiva dos dentes.

Por isso, acredito que cuidar da saúde mental no trabalho é uma responsabilidade compartilhada, mas que começa com você tomando a decisão de se valorizar mais do que qualquer cargo ou salário.

O futuro do trabalho: humanização ou colapso

Estamos numa encruzilhada. Podemos continuar no caminho atual e assistir ao colapso da saúde mental no ambiente de trabalho, ou podemos escolher a humanização das relações profissionais.

Vejo esperança em empresas que estão repensando suas culturas, profissionais que estão priorizando bem-estar, movimentos que defendem o trabalho como meio, não como fim em si mesmo.

Acredito que o futuro pertence às organizações que entenderem que pessoas saudáveis e felizes são mais criativas, produtivas e inovadoras. Que o bem-estar não é custo, é investimento. Que cuidar das pessoas não é “frescura”, é estratégia inteligente.

Aqui no Instituto Alceu Giraldi, vejo a transformação acontecer quando pessoas e empresas fazem essa escolha consciente. É possível trabalhar com propósito, crescer profissionalmente e manter a saúde mental. Não precisamos escolher entre sucesso e bem-estar.

O que realmente importa

Termino este texto com uma reflexão que compartilho com meus pacientes: no final da vida, ninguém se arrepende de ter passado pouco tempo no escritório. As pessoas se arrependem de ter perdido momentos com a família, de não ter cuidado da saúde, de ter sacrificado a felicidade por metas que, no final, não eram tão importantes assim.

O trabalho é importante, sim. Ele nos dá propósito, sustento e realização. Mas ele não pode ser tudo. Quando o trabalho se torna a única fonte de identidade e valor pessoal, qualquer problema profissional vira uma crise existencial.

Por isso, convido você a repensar sua relação com o trabalho. Se você é empresário ou gestor, considere como suas decisões afetam a saúde mental de sua equipe. Se você é profissional, reflita sobre que preço está disposto a pagar pelo sucesso.

Lembre-se: você não é apenas um funcionário, você é um ser humano completo, com necessidades, sonhos e limites que merecem ser respeitados. E se você está passando por dificuldades relacionadas ao trabalho, não hesite em buscar ajuda profissional. Um psiquiatra ou psicólogo pode ajudá-lo a desenvolver estratégias saudáveis para lidar com os desafios profissionais sem sacrificar sua saúde mental.

A mudança começa com cada um de nós fazendo escolhas mais conscientes e humanas. O Brasil pode trabalhar de forma diferente, mais saudável e sustentável. Depende de nós fazer essa escolha.

Dr. Thiago Dias

Dr. Thiago Dias

Médico Psiquiatra, Terapeuta Gestalt e Co-fundador do Instituto Alceu Giraldi. Após muitos anos trabalhando com patologias mentais e ajudando seus clientes a voltarem para sua vidas, compreendeu que o sucesso de seus pacientes acontece quando olham para a saúde, qualidade de vida e bem-estar. Assim, facilitando o tratamento e remissão.

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