Meu filho é autista? Como identificar o autismo antes dos 12 meses

Ao observar seu bebê, você percebe algo diferente. Talvez ele não faça contato visual como os outros bebês da creche. Talvez não responda quando você chama pelo nome. Ou talvez você tenha aquela sensação que toda mãe conhece, aquela que ninguém consegue explicar, mas que você sente.

A verdade é que diagnosticar autismo em um bebê com menos de 12 meses não é como ver duas linhas em um teste de gravidez. Não é claro, não é simples, e muitas vezes fica entre o “talvez” e o “provavelmente não”. Mas aqui está o importante: reconhecer os sinais precoces de autismo nessa fase pode mudar completamente a trajetória do seu filho.

Neste texto, vamos explorar como o autismo se manifesta nos primeiros meses de vida, o que a ciência já descobriu sobre esses sinais, quais são as mentiras que todos acreditam, e mais importante ainda o que você pode fazer se desconfia que algo está diferente. Porque cuidar da saúde mental e do desenvolvimento do seu filho começa com entender, realmente entender, o que está acontecendo.

Então, vamos falar de verdades e mentiras sobre autismo antes do primeiro ano?

Os sinais que ninguém te preparou para ver

Bem, aqui está uma coisa que ninguém gosta de dizer: o autismo não é algo que aparece como um raio aos 3 anos. Ele já está lá. Desde o início.

Os primeiros sinais de autismo podem emergir entre os 6 e 12 meses. Justo quando a maioria dos pediatras ainda está falando sobre amamentação e vacinação, não sobre desenvolvimento neurológico. Mas e se você soubesse exatamente o que procurar? Seria diferente, não é?

Comecemos com o contato visual. Você sabe aquele olhar que um bebê faz com você quando está amamentando? Aquele momento em que os olhos dele encontram os seus, e é como se o mundo inteiro desaparecesse? Um bebê neurotípico naturalmente busca esse contato. Um bebê autista frequentemente evita. Ele pode olhar para seus cabelos, para a boca, para longe, para qualquer lugar exceto nos seus olhos. E não é porque ele não te ama. É porque o contato visual sensorial é demais para o sistema nervoso dele.

Depois, existe aquele sorriso social que as pessoas sempre esperam. Por volta dos 3-4 meses, um bebê típico começa a sorrir em resposta a você. Sorrisos calorosos, alegres, recíprocos. Se você fizer uma careta engraçada, ele ri. Se você cantar, ele sorri. É uma conversa silenciosa, mas está acontecendo. Com bebês autistas, esse sorriso pode não chegar, ou chega de forma diferente, menos responsiva ao seu estímulo.

E agora falaremos de algo que muitos pais não conseguem ver até que é tarde: a atenção compartilhada. Isso soa técnico, mas é simples. Você aponta para a lua cheia e seu filho olha para a lua? Isso é atenção compartilhada. Você olha a lua, ele entende que você quer que ele olhe a lua também. É como dizer “veja isso comigo” sem palavras. Bebês autistas frequentemente não fazem isso. Eles olham para a coisa, não para entender que você quer que eles vejam.

Por volta dos 9 a 12 meses, um bebê típico já aponta as coisas para mostrar interesse. “Mamãe, olha isso!” Sem palavras, apenas apontando. Bebês autistas podem ficar silenciosos nesse aspecto, apontando raramente ou nunca.

Tudo isso você consegue observar em casa. Não precisa de teste nenhum. Precisa apenas de atenção.

Porém, já chamo a atenção para as mães demasiadamente preocupadas. Não é porque seu filho não responde com contato visual ou sorriso social, que ele é um autista. Tudo depende do contexto e de uma avaliação psiquiátrica e do pediatra. Portanto, cuidado para não rotular sem diagnóstico médico válido. Preocupou, hora de agendar uma consulta. Primeiramente com pediatra, ok? Compartilhe com o pediatra suas dores e inseguranças.

A comunicação que não acontece do jeito esperado

Agora vamos falar sobre o balbucio. Sabe aquele som “ba-ba-ba” ou “da-da-da” que faz você sorrir porque parece que o bebê está falando? Isso começa por volta dos 6 meses em bebês típicos. É uma coisa linda e fundamental — é quando o sistema auditivo se conecta com o motor.

Se seu bebê chegou aos 9-10 meses e ainda não tem balbucio — ou tem muito pouco — isso é um sinal de atenção. Não significa que ele é autista, mas significa que merece observação.

Depois existe a resposta ao próprio nome. Aos 6 meses, um bebê começa a se virar quando ouve o próprio nome. Aos 12 meses? Deveria estar bem estabelecido. Seu filho deveria vir correndo (ou engatinhando, depende do que consegue fazer) quando você chama. Se você chama seu filho pelo nome e ele não responde, ou responde inconsistentemente, apenas quando está de bom humor, isso merece atenção.

Mas aqui está a verdade que ninguém gosta de ouvir: nem todo atraso de fala é autismo, e nem todo autismo começa com atraso de fala. Existem crianças autistas que falam muito bem. Existem crianças não autistas que começam a falar tarde. É como aquele ditado: “Todo quadrado é retângulo, mas nem todo retângulo é quadrado”.

O que importa não é se o bebê está falando. É se ele está se comunicando. Há uma diferença gigantesca.

Os movimentos que você pode não associar com autismo

Então seu bebê coloca a mão na sua cara enquanto você o amamenta? Sua filha adora mover a mão de forma repetitiva na frente dos olhos? Ela consegue passar horas olhando para algo girar como uma moeda no chão, um ventilador, um carro de brinquedo?

Bem-vindo ao mundo das estereotipias. Que é apenas um nome técnico para “movimentos repetitivos que a criança faz para se autorregular”.

Aqui está o que você precisa saber: nem todas as estereotipias significam autismo. Qualquer criança pode balançar, girar, bater. O que muda é frequência, intensidade e função.

Um bebé autista pode se concentrar em um padrão sensorial específico por longos períodos. Pode preferir essa atividade sensorial acima de qualquer outra coisa. Inclusive acima de brincar com você, acima de explorar o brinquedo novo que você comprou. É como se ele tivesse encontrado o pico de experiência sensorial e dissesse “não preciso de nada mais”.

E tem mais: os comportamentos restritos. Um bebé autista pode ficar obcecado com um objeto específico (sempre a mesma colher, sempre o mesmo carro) e ficar extremamente angustiado quando esse objeto não está presente. Não é teimosia. É ansiedade. É a necessidade de controlar o ambiente porque o mundo já é demais.

O que as sensações têm a ver com tudo isso

Vou ser direto: muitos pais notam que seus bebês autistas têm uma relação estranha com sensações.

Alguns são hipersensíveis. Sons normais parecem alarmes para eles. Cobertores macios parecem ásperos. Eles tampam os ouvidos quando você fala, ou cobrem o rosto quando alguém é muito barulhento. Para esses bebês, o mundo é demais — muito brilhante, muito barulhento, muito tátil.

Outros são hipossensíveis. Parecem não sentir nada. Você deixa cair um brinquedo na cabeça deles e eles nem piscam. Eles batem a cabeça na parede sem parecer se importar. Não é que não sintam dor — é que seu sistema sensorial funciona de forma diferente, exigindo mais estímulo para registrar.

Na verdade, é bem possível que um bebé autista seja hipersensível em uma modalidade sensorial (som) e hipossensível em outra (toque). É como se tivesse diferentes alarmes sensoriais sendo acionados de formas diferentes.

Quando o desenvolvimento motor conta uma história diferente

Aqui está algo que muita gente não associa com autismo: o desenvolvimento motor pode ser atípico.

Um bebé autista pode ter um atraso leve no desenvolvimento de habilidades motoras básicas — demorar mais a sustentar a cabeça, a rolar, a engatinhar. Não porque algo está neuricamente errado em um sentido “deficitário”, mas porque o cérebro está processando informações de forma diferente.

Outro padrão comum? Caminhar na ponta dos pés. Você vê uma criança autista andando apenas com a ponta do pé, com os calcanhares nunca tocando o solo, semanas após começar a andar? Isso é bem comum. Novamente, é uma diferença no processamento sensório-motor, não uma patologia.

O desenvolvimento motor em crianças autistas não é “pior”. É diferente. E reconhecer essa diferença desde cedo permite que você adapte o ambiente, forneça os suportes certos, e permita que a criança se desenvolva do seu próprio jeito.

As verdades que ninguém gosta de falar (e algumas mentiras que todos creem)

Agora, vamos explorar verdade e mentiras no TEA. Deixa eu ser bem claro aqui sobre algumas coisas.

Mentiras

Mentira nº 1: “O autismo só aparece depois dos 3 anos. Antes disso, é impossível saber.”

A verdade? Os sinais já estão lá. Alguns bebês mostram diferenças notáveis já aos 6 meses. A maioria dos sinais definitivos aparecem entre 12 e 24 meses. Mas dizer que “é impossível antes dos 3 anos” é negar três décadas de pesquisa em desenvolvimento neurológico.

Mentira nº 2: “Autismo é causado pela mãe que trabalha / que não amamenta / por causa de vacinas.”

Pare aí. Isso é não só falso, mas cientificamente prejudicial. O autismo tem base genética (entre 50 e 80% de hereditariedade) combinada com fatores ambientais ainda em estudo. A mãe não causa autismo. O cuidador não causa. Você não pode causar autismo por ser quem você é. Que fique claro isso.

Mentira nº 3: “Se meu filho é diagnosticado agora, vai ter que ser medicado imediatamente.”

Não é assim. Um diagnóstico precoce permite que você comece intervenções baseadas em evidências como terapia, apoios sensoriais, adaptações ambientais. Medicação, se necessária, vem depois, quando e se necessário, e sempre com acompanhamento cuidadoso. É uma irresponsabilidade médica medicar bebês e crianças, antes de validar todo o contexto da criança e seu comportamento.

Verdades

A verdade nº 1: Diagnóstico precoce é transformador.

Existem estudos mostrando que intervenções antes dos 3 anos produzem ganhos significativos em cognição, linguagem e comportamento adaptativo. O cérebro de um bebé é plástico. Busque sobre neuroplasticidade para saber mais. Isso quer dizer, está literalmente se desenvolvendo todo dia. Se você oferece os suportes certos durante essa “janela de oportunidade” neurológica, você muda a trajetória. Ponto final.

A verdade nº 2: Autismo é um espectro, e nem todos os sinais aparecem em toda criança.

Você pode ter um filho autista que fala muito bem, mas tem comunicação social estranha. Pode ter outro que é relativamente silencioso mas socialmente conectado de formas únicas. Cada criança é singular. Não existe um “check-list” de autismo onde você marca todos os itens. Existem padrões que aumentam a probabilidade, mas cada criança é um mistério que você está aprendendo a decifrar.

A verdade nº 3: Suas preocupações como mãe importam. Realmente importam.

Se você sente que algo está diferente, não deixe que ninguém minimize isso. Mães têm instinto. Pais têm intuição. E a pesquisa mostra que as preocupações dos pais frequentemente são válidas. Se você acha que seu filho pode ser autista, essa suspeita merece investigação, não gaslighting de que “toda criança é diferente” ou “você está sendo muito ansiosa”.

Como você sabe se é hora de procurar um especialista?

Perguntas práticas, respostas simples.

Se seu bebé está chegando aos 12 meses e você notou que:

  • Não faz contato visual consistentemente
  • Não responde ao próprio nome
  • Tem balbucio muito reduzido ou atípico
  • Não aponta coisas para compartilhar interesse
  • Tem padrões de movimento repetitivo intenso
  • Parece não se conectar socialmente, por exemplo não sorri responsivamente, não busca sua atenção
  • Tem padrão sensorial muito diferente (cobre os ouvidos constantemente, evita certos tecidos, busca estímulos repetidamente)

…então você tem razão em estar curioso. E “curioso” significa: é hora de conversar com seu pediatra.

Mas aqui está o importante: não é hora de pânico. É hora de informação.

Um pediatra pode fazer um rastreamento inicial. Se houver preocupações, ele pode encaminhar para um especialista, um neurologista pediátrico ou um psiquiatra infantil que trabalhe com diagnóstico de desenvolvimento. Existem ferramentas como o M-CHAT (Modified Checklist for Autism in Toddlers) que ajudam a identificar risco. Mas nenhuma ferramenta é diagnóstico. Nenhum teste é a palavra final.

A neuroplasticidade está a seu favor

Deixa eu te contar um segredo que médicos sabem mas nem sempre compartilham adequadamente com pais: o cérebro de um bebé é uma máquina de aprendizado contínuo.

Nos primeiros 3 anos de vida, há uma formação exponencial de conexões neurais. Isso significa que se você oferece os suportes certos, seja terapia, adaptações ambientais, estruturas previsíveis, o cérebro responde. Ele se reorganiza. Ele aprende novos padrões.

Isso não significa que o autismo vai “desaparecer”. Mas significa que com intervenção precoce, com compreensão do seu filho, com as ferramentas certas, muita coisa que parecia impossível se torna possível.

Eu vejo crianças diagnosticadas aos 15-18 meses que, três anos depois, com suporte apropriado, estão totalmente integradas à escola regular. Não porque “se curaram” do autismo, mas porque cresceram em um ambiente que as compreende, que as apoia, que as aceita.

Isso não é milagre. É neurociência.

O que você pode fazer agora, hoje

Então você está lendo isso e pensando “tudo bem Dr. Thiago, mas e agora? O que eu faço com essas informações?”

Primeiro: observe com intencionalidade. Não com ansiedade. Com intencionalidade. Há diferença. Observe como seu bebé interage. Como busca ou evita contato visual. Observe sua resposta ao seu nome. Como se relaciona com objetos e sons. Guarde essas observações.

Segundo: converse com seu pediatra. Não de forma ansiosa (“Acho que meu filho é autista”), mas informativa (“Notei que ele não responde quando o chamo pelo nome, e ele evita contato visual. Isso é normal? O que você observa?”). Deixe o pediatra fazer o trabalho dele.

Terceiro: se houver encaminhamento para especialista, respire. Ter um diagnóstico não é uma sentença. É informação. É clareza. É a chave que abre a porta para suportes que seu filho merece.

Quarto: cuide de si mesmo. Porque você, como pai ou mãe, é o suporte mais importante que seu filho tem. Se você está em pânico, ansioso, culpado, seu filho sente isso. Cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar do desenvolvimento neurológico dele.

Uma reflexão final, de coração para coração

Vou terminar com isso: o autismo não é uma falha. Não é algo que você fez errado durante a gravidez, durante o parto, durante a amamentação. Não é uma punição.

É uma divergência neurológica. E diferença não é defeito.

Se seu filho é autista, ele vai enxergar o mundo de forma única. Ele pode ser sensível demais, ou insensível demais. Ele pode preferir a previsibilidade à espontaneidade. Ele pode ter especiais interesses que parecem esquisitos para o resto da gente.

Mas ele também pode ser:

Profundamente honesto. Focado. Criativo de formas que neurotípicos não conseguem. Leal. Brilhante em coisas que importam para ele. Um especialista em suas próprias fixações. Alguém que, quando cresce aceito pelo que é, consegue fazer coisas extraordinárias.

O trabalho seu agora é entender seu filho. Realmente entender. Observar sem julgamento. Acolher sua diferença. E oferecer os suportes que ele merece. Não para “corrigi-lo”, mas para que ele possa crescer seguro em quem ele realmente é.

Porque buscar ajuda não é fraqueza. É coragem. E seu filho, autista ou não, merece essa coragem sua.

Se você tem dúvidas, se quer conversar mais sobre isso, se está passando por essa jornada agora, nós estamos aqui. O Instituto Alceu Giraldi está aqui. Porque cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. E isso começa no primeiro ano de vida.

Começar a entender é o primeiro passo. E você já deu esse passo ao chegar até aqui.

Dr. Thiago Dias

Dr. Thiago Dias

Médico Psiquiatra, Terapeuta Gestalt e Co-fundador do Instituto Alceu Giraldi. Após muitos anos trabalhando com patologias mentais e ajudando seus clientes a voltarem para sua vidas, compreendeu que o sucesso de seus pacientes acontece quando olham para a saúde, qualidade de vida e bem-estar. Assim, facilitando o tratamento e remissão.

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