Hoje vou conversar com você sobre o que todo pai precisa saber sobre as crises do autismo.
Você está na fila do supermercado. Seu filho autista está ao seu lado e, de repente, ele começa a gritar. Não é aquele grito de criança normal, é diferente. Mais alto e desesperado. Ele se joga no chão, chora incontrolavelmente, talvez até se bata. Pessoas ao redor olham e algumas até julgam, por não entenderem a situação. Você sente o calor do momento e pensa: “Por que ninguém entende que isso não é birra?”
Depois, em outro dia, seu filho simplesmente “desliga”. Fica horas deitado na cama, não fala com você, não responde a estímulos. Parece vazio. Para alguns pais é assustador, pois você coloca a mão em seu ombro e ele não reage. “Será que algo está muito errado?”, você se pergunta, angustiado.
Bem, deixa eu ser bem claro aqui: você não está sozinho nessa experiência. E, mais importante ainda: seu filho não está tendo um “ataque”, uma psicose ou possessão. Ele está vivenciando algo muito específico, muito real, e muito neurobiológico.
Isso se chama meltdown e shutdown. E compreender a diferença entre essas duas crises pode literalmente transformar a vida do seu filho e a sua também.
Como sempre falo em consultas. Compreender é libertador, você começa a entender as situações e não entra mais em desespero. Dessa forma, isso afeta positivamente você e seu filho. Ele crescerá mais confiante e entendendo o que passa consigo, enquanto você saberá lidar com as situações quando ocorrerem.
Meltdown vs. Shutdown
Deixa eu contar algumas coisas. A maioria dos pais que chegam no meu consultório está desesperada porque confunde meltdown com agressividade voluntária ou shutdown com desinteresse preguiçoso. Conseguiu se identificar em alguma delas? Além disso, professores acreditam que é “má criação”, avós sugerem um “castigo mais firme” e isso machuca pais que já estão no limite.
Aqui está a verdade, com embasamento neurobiológico, que precisa ser dita:
Meltdown
Um meltdown é uma explosão involuntária. Imagine seu filho como um circuito elétrico que recebeu sobrecarga de estímulos. Por exemplo, o barulho alto no mercado, luzes fluorescentes piscantes, textura desconfortável da roupa, conversa de pessoas demais. O cérebro autista processa isso TUDO ao mesmo tempo, sem conseguir filtrar o que é importante. É como tentar ouvir 50 conversas diferentes simultaneamente. Por isso, em algum ponto, o sistema sobrecarga. E então… explode.
Gritos, choro descontrolado, movimentos agressivos e às vezes, comportamentos autolesivos. Mas, e esse “mas” é fundamental, ele NÃO está escolhendo isso. Ele não consegue controlar. Pois, essa explosão é uma resposta involuntária do corpo, tão automática quanto coçar quando algo o irrita.
Shutdown
Um shutdown é o oposto. Enquanto o meltdown é explosão externa, o shutdown é implosão interna. O cérebro, vendo que não consegue lidar com a sobrecarga, faz o que qualquer sistema sob ameaça faz: se desliga para se proteger. Já parou para reparar que o seu computador faz isso? Quando tem processo demais ele simplesmente trava? É isso que acontece, o cérebro do autista com tanta atividade sensorial, entra num estado para reduzir a atividade e preservar a sanidade e a vida. Por isso, o shutdown é importante, pois minimiza a entrada sensorial.
Lembre-se disso: é como um computador que congela para não queimar o processador.
Durante um shutdown, seu filho pode ficar:
- Imóvel, como se estivesse dormindo (mas acordado)
- Incapaz de falar ou respondendo com palavras sem sentido
- Completamente alheio ao seu redor
- Com a respiração mais lenta
- Extremamente cansado
- Sem vontade de comer ou beber
Pais descrevem assim: “É como se meu filho simplesmente saísse do corpo.”
Por que ninguém avisa sobre isso antes?
Deixa eu falar uma coisa que você provavelmente nunca ouviu de outro profissional: esses episódios não “aparecem do nada”. Existe sempre um gatilho. Sempre uma razão. E você pode aprender a reconhecer os sinais com antecedência.
Os gatilhos mais comuns são:
- Sobrecarga sensorial (barulhos altos, multidões, luzes fluorescentes)
- Mudanças inesperadas na rotina
- Frustração acumulada (não conseguir se expressar)
- Demandas múltiplas sem pausas
- Ambientes sociais imprevisíveis
- Cansaço físico ou emocional acumulado
Mas, ouça bem, cada criança (pessoa) é diferente. Seu filho pode ter gatilhos bem específicos que você ainda não mapeou. E aí mora o segredo: se você conseguir identificar O SEU gatilho, consegue prevenir 70% das crises.
O que você DEVE fazer quando isso acontecer
Quando você sente que vem uma crise, a maioria dos pais entra em pânico e faz exatamente o oposto do que deveria. Vou ser direto:
Durante um meltdown:
Transfira seu filho para um ambiente calmo, pode ser um quarto, banheiro ou carro. Longe de estímulos. Fale pouco e em tom baixo, sem explicações complexas, sermões ou perguntas. Pois, o cérebro dele não consegue processar informação agora.
Não o controle fisicamente (a menos que esteja em perigo). Não discuta e não tente fazer ele “se comportar”. Deixe a crise acontecer. Sim, deixe! É como uma onda que vai crescer, vai bater e vai diminuir. Se você tentar lutar contra a onda, só piora, na verdade você a alimenta, pois estará sobrecarregando o cérebro de emoções e sentidos desnecessários.
Lembre, você é o adulto! Se controle. Sua inteligência emocional é extremamente importante para o bem-estar de todos.
Fique por perto, discretamente, oferecendo segurança. Se ele quiser isolamento, respeite. Caso queira estar perto de você, esteja presente.
Durante um shutdown:
Ofereça um espaço seguro, calmo, escuro se possível. Não exija fala ou ação e nem o pressione. Apenas estar lá, disponível, é o suficiente. Quando a pessoa começar a “retornar”, você estará lá.
A recuperação pós-crise
Aqui está o que os pais sofrem silenciosamente: após a crise, vem a exaustão extrema. Seu filho pode dormir 10 horas seguidas. Pode acordar apático e pode ficar irritável nos próximos dias.
Isso não é falta de gratidão. É recuperação neurológica real.
O corpo e a mente dele gastaram TODA a energia processando a sobrecarga e tentando se recuperar. É como você correr uma maratona na piscina com roupa. É tanto cansaço que você sai literalmente esgotado.
Então, após a crise de meltdown, o trabalho real começa: reduzir as demandas. Deixe ele descansar, não force atividades ou puna. Alimente com carinho e ajude-o a dormir cedo. O cérebro precisa recuperar.
E aqui vem a pergunta que realmente importa
“Dr. Thiago, meu filho está tendo crises cada vez mais frequentes. Isso significa que ele vai ter problemas psiquiátricos piores? Algo está degenerando?”
Agora, deixa eu tranquilizar você com base em anos de prática: não, isso não significa que ele está piorando mentalmente. Isso significa que ele está vivendo em um ambiente de muita sobrecarga. E ISSO tem solução!
A solução não é medicação desnecessária e também não é castigo. É compreensão, adaptação ambiental e estratégias específicas para seu filho. Você que é pai e mãe, que verdadeiramente quer o melhor para seu filho e seu futuro, deve olhar para os detalhes, o que ninguém vê.
Infelizmente, não dá para esperar que toda a sociedade saiba como agir e interpretar, mas vocês sabem. Você estuda, vai em consultas, pergunta, não é mesmo? Nós médicos psiquiatras e psicólogos estamos aqui para isso, para te ajudar e ajudar seu filho. Você deve mapear os gatilhos e isso irá ajudá-lo enormemente no futuro.
Falando nisso, o que importa é o mapeamento de gatilhos, ter uma estrutura visual clara, espaços de calma predispostos, comunicação adaptada, reduções sensoriais e pausas programadas. Isso funciona!
Mas tudo isso exige uma avaliação profunda e individualizada. É por isso que escrevo esse texto.
Uma forma de ajudar o seu filho
Você está observando crises em seu filho? Meltdowns frequentes? Shutdowns que o assustam? Você se sente perdido, julgado, sozinho?
Não continue assim. Você não merece sofrer em silêncio. Seu filho não merece ser visto como “agressivo” ou “preguiçoso”.
Agende uma consulta comigo ou com a equipe do Insstituto. Somos especialistas em autismo e temos histórico de ajudar pacientes e familiares a construir um futuro digno e promissor para os autistas. Agende sua consutla e vamos conversar. Eu irei ouvir sua história, seus medos, seus desafios reais. E juntos, vamos mapear os padrões, construir um plano específico para SUA família.
Porque aqui no Instituto Alceu Giraldi, a gente não trata autismo como um problema a ser “corrigido”. A gente trata como uma forma diferente de ser. E a gente trabalha para dar a seu filho, e a você, a melhor qualidade de vida possível.
Você não está sozinho e não está errado. Além disso, seu filho merece ser compreendido.












