Guia de prevenção ao suicídio: Setembro Amarelo

A vida, com suas complexidades e desafios, muitas vezes nos coloca diante de momentos de profunda dor e desespero. Em certas ocasiões, essa dor pode se tornar tão avassaladora que a ideia de não mais existir surge como uma aparente solução. Eu, Dr. Thiago Dias, vejo no meu dia a dia no Instituto Alceu Giraldi o sofrimento silencioso de muitas pessoas que chegam a esse ponto. Por isso que falar sobre suicídio, de forma aberta e acolhedora, é mais do que uma necessidade! Acredito que é um ato de amor e de responsabilidade social.

O suicídio é uma questão de saúde pública global, uma “epidemia silenciosa”, como a própria Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) o descrevem em materiais tão importantes como a cartilha “Suicídio: informando para prevenir“.

Suicídio: um tema ainda pouco falado

Ainda hoje, o tema do suicídio é cercado por tabu e estigma. Por muito tempo, e por diversas razões históricas, culturais e até religiosas, o suicídio foi tratado como algo a ser escondido, um segredo vergonhoso. Essa barreira, arraigada em nossa cultura, impede que as pessoas busquem ajuda e que a sociedade ofereça o suporte necessário. Eu acredito, e vejo isso na prática, que o silêncio é um dos maiores inimigos da prevenção. Falar sobre o suicídio, ao contrário do que muitos temem, não aumenta o risco; ele alivia a angústia, desmistifica o tema e abre portas para o diálogo e para a ajuda.

É nesse contexto que o Setembro Amarelo ganha sua força e relevância. Este mês, dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio, é um convite para que todos nós, juntos, iluminemos a conversa sobre saúde mental. É um período para informar, educar e, acima de tudo, para reforçar a mensagem de que a vida vale a pena ser vivida e que a ajuda está disponível. No Instituto Alceu Giraldi, nós abraçamos o Setembro Amarelo como uma oportunidade de reafirmar nosso compromisso com a vida e com o bem-estar integral de cada indivíduo.

Neste artigo, talvez podemos chamar de guia, vamos explorar os sinais de alerta, as formas de abordar o tema, os fatores de risco e proteção, e a rede de apoio disponível. Nosso objetivo é que, ao final da leitura, você se sinta mais preparado para identificar o sofrimento, para oferecer uma escuta acolhedora e para buscar a ajuda profissional necessária. A prevenção do suicídio é um esforço contínuo, que exige empatia, conhecimento e, acima de tudo, a coragem de falar sobre o que mais importa: a vida.

Desvendando a Verdade: Mitos, Verdades e Mentiras sobre o Suicídio

Um dos maiores desafios na prevenção do suicídio é combater a desinformação. Muitos preconceitos e ideias errôneas vêm sendo historicamente repetidos, contribuindo para o estigma em torno da doença mental e do comportamento suicida. Por isso, considero fundamental quebrar esses mitos! Pois eles impedem a compreensão e a busca por ajuda.

Iniciando esse artigo, vamos juntos desvendar algumas das crenças mais comuns.

Mito 1: O suicídio é uma decisão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o seu livre arbítrio.

Falso. Esta é uma das maiores e mais perigosas inverdades. A maioria das pessoas que tenta ou comete suicídio está passando por uma doença mental que altera, de forma radical, sua percepção da realidade e interfere diretamente em seu livre arbítrio.

A dor emocional é tão intensa que obscurece a capacidade de ver alternativas ou de tomar decisões racionais. O desejo de morrer não é uma escolha livre, mas um sintoma de um sofrimento profundo e, muitas vezes, de uma doença tratável. Aqui no meu consultório, vejo que, com o tratamento eficaz da doença mental, o desejo de se matar geralmente desaparece, e a pessoa recupera sua capacidade de escolha e de desfrutar da vida.

Mito 2: Quando uma pessoa pensa em se suicidar, terá risco de suicídio para o resto da vida.

Falso. O risco de suicídio pode ser eficazmente tratado e, após isso, a pessoa não estará mais em risco. É claro que a vulnerabilidade pode existir, e o acompanhamento profissional é sempre importante, mas a ideia de que uma vez em risco, sempre em risco, é um grande erro. A recuperação é possível e, na maioria dos casos, o tratamento adequado, seja com psicoterapia, medicação ou uma combinação de ambos, pode restaurar a qualidade de vida e afastar os pensamentos suicidas.

Vamos pensar em outras doenças crônicas: um diabético precisa de acompanhamento contínuo, mas isso não significa que ele viverá em crise constante, não é verdade? Com o sofrimento psíquico, a lógica é similar: com o tratamento e o suporte adequados, a pessoa pode viver uma vida plena e sem o risco iminente de suicídio.

Mito 3: As pessoas que ameaçam se matar não farão isso, querem apenas chamar a atenção.

Falso. Esta é uma das frases mais perigosas e que mais contribuem para a tragédia. A maioria das pessoas que comete suicídio fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte. Muitas vezes, essas expressões são um pedido de ajuda desesperado, uma tentativa de comunicar a dor insuportável que estão sentindo.

Por isso, sempre digo que ignorar esses sinais, classificando-os como “drama” ou “busca por atenção“, é um erro grave. Em consulta, gosto de ressaltar que todo sinal, toda fala sobre o desejo de morrer, deve ser levado a sério. Por impulsividade ou por um erro de cálculo na tentativa, a fatalidade pode acontecer. É um mito que precisamos combater, pois levar a sério esses sinais pode salvar uma vida.

Mito 4: Se uma pessoa que se sentia deprimida e pensava em suicidar-se, em um momento seguinte passa a se sentir melhor, normalmente significa que o problema já passou.

Falso. Este é um momento de altíssimo risco e que exige atenção redobrada. Se alguém que pensava em suicidar-se, de repente, parece tranquilo e aliviado, isso não significa que o problema já passou. Pelo contrário, pode indicar que a pessoa tomou a decisão de cometer suicídio e, por isso, sente um alívio temporário por ter “resolvido” seu problema.

Um dos períodos mais perigosos é justamente quando a pessoa está melhorando da crise que motivou a tentativa, ou logo após a alta hospitalar. A semana que se segue à alta é um período de particular fragilidade. Como um preditor do comportamento futuro é o comportamento passado, a pessoa que já teve pensamentos suicidas ou tentou o suicídio muitas vezes continua em alto risco. A vigilância e o apoio contínuo são essenciais nesses momentos.

Mito 5: Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode aumentar o risco.

Falso. Falar sobre suicídio não aumenta o risco. Muito pelo contrário, falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que esses pensamentos trazem. O diálogo aberto e acolhedor cria um espaço seguro para a pessoa expressar sua dor, sentir-se compreendida e, consequentemente, buscar ajuda. O silêncio e o tabu são os verdadeiros inimigos da prevenção. Quando falamos sobre o suicídio de forma responsável, informamos a população sobre o problema, onde buscar ajuda e como oferecer suporte, o que é fundamental para salvar vidas.

Mito 6: É proibido que a mídia aborde o tema suicídio.

Falso. A mídia tem uma obrigação social de tratar desse importante assunto de saúde pública e de abordá-lo de forma adequada. Isso não aumenta o risco de uma pessoa se matar; ao contrário, é fundamental dar informações à população sobre o problema, onde buscar ajuda, e como reconhecer os sinais. O que se deve evitar são as descrições do método empregado, bem como fatos e cenas chocantes, para não gerar o a imitação de comportamento.

A mídia, quando atua com responsabilidade, pode ser uma poderosa aliada na promoção da saúde mental e na prevenção do suicídio. Pois é a melhor para valorizar histórias de superação e busca por ajuda.

Desmistificar essas ideias é o primeiro passo para construirmos uma sociedade mais informada e empática, pronta para acolher e ajudar quem precisa. Agora que entendemos o que não é verdade, vamos aprofundar nos sinais que realmente importam.

Identificando os sinais de alerta

Reconhecer os sinais de alerta é o primeiro e mais crucial passo para oferecer ajuda. Muitas vezes, a pessoa em sofrimento profundo não consegue verbalizar diretamente sua dor, mas emite sinais, como um pedido de socorro silencioso. Dessa forma, sempre oriento meus pacientes e suas famílias a estarem atentos a essas manifestações, pois elas são a chave para a intervenção precoce.

Sinais verbais e comportamentais: o que observar

Você pode notar que a pessoa começa a expressar, de forma direta ou indireta, o desejo de não viver mais. Frases como “queria sumir”, “não aguento mais”, “seria melhor se eu não estivesse aqui”, “sou um peso para os outros” ou “não vejo sentido em continuar” são indicativos claros de que ela está em grande sofrimento. Às vezes, a fala pode ser mais sutil, como “as coisas nunca vão melhorar” ou “estou cansado de tudo”. É fundamental levar a sério qualquer menção à morte ou ao desejo de não existir.

Além das falas, observe mudanças marcantes no comportamento. Uma pessoa que antes era ativa e social pode começar a se isolar, abandonando hobbies e responsabilidades que antes eram importantes. Alterações significativas no sono (insônia severa ou excesso de sono) ou no apetite (perda ou ganho de peso acentuado) são sinais físicos de um desequilíbrio emocional. Além disso, também podemos observar uma irritabilidade incomum, explosões de raiva, ou, inversamente, um estado de apatia e desinteresse generalizado. O desespero profundo, a falta de esperança no futuro e a sensação de estar preso em uma situação sem saída são sentimentos que corroem a alma e podem levar a pensamentos suicidas.

Em alguns casos, a pessoa pode até começar a fazer preparativos, o que é um sinal de alerta gravíssimo. Isso pode incluir despedir-se de forma incomum de amigos e familiares, como se fosse uma despedida final. A pessoa pode doar pertences valiosos sem motivo aparente. Além disso, pode organizar documentos ou fazer um testamento. Por fim, ela ainda pode pesquisar sobre meios letais na internet ou adquirir substâncias perigosas. Qualquer um desses comportamentos indica um risco iminente e exige uma intervenção imediata.

Fatores de risco adicionais

O uso de substâncias, como álcool e outras drogas, também aumenta consideravelmente o risco de suicídio. Isso acontece porque essas substâncias podem diminuir a capacidade de julgamento, aumentar a impulsividade e agravar quadros de depressão e ansiedade. Uma pessoa sob o efeito de álcool ou drogas pode agir de forma impulsiva, sem considerar as consequências de seus atos.

A presença de transtornos mentais diagnosticados, como depressão maior, transtorno bipolar, esquizofrenia ou transtornos de personalidade, eleva a vulnerabilidade. Além disso, condições como dor crônica, doenças físicas incapacitantes ou perdas recentes (falecimento de um ente querido, divórcio, perda de emprego) também podem ser gatilhos significativos.

Fatores protetores: fortalecendo a resiliência

Por outro lado, existem fatores protetores que contam muito e que nós, no Instituto Alceu Giraldi, sempre buscamos identificar e fortalecer. Vínculos afetivos fortes com familiares e amigos, um senso de propósito na vida (seja através do trabalho, de hobbies, de projetos pessoais ou da espiritualidade), crenças que valorizam a existência e a vida, e o acesso a cuidados de saúde mental de qualidade são elementos que fortalecem a resiliência de uma pessoa. A capacidade de regular as próprias emoções, de resolver problemas e de se adaptar a situações difíceis também são habilidades protetoras.

Promover esses fatores protetores na vida de uma pessoa é um investimento na sua saúde mental e no seu bem-estar. É criar uma rede de segurança que pode fazer toda a diferença nos momentos de maior fragilidade. Compreender esses sinais, tanto os de alerta quanto os protetores, é crucial para que possamos agir de forma eficaz e oferecer o suporte necessário. No próximo tópico, vamos conversar sobre como abordar esse tema tão delicado e iniciar uma conversa que pode salvar uma vida.r

Como abordar o tema com empatia e segurança

Abordar o tema do suicídio pode parecer assustador, e é natural sentir-se inseguro sobre como iniciar essa conversa. No entanto, vejo no meu consultório que a capacidade de falar sobre o sofrimento é um alívio imenso para quem o carrega. É fundamental que você saiba que perguntar diretamente sobre ideias de suicídio não “planta” a ideia na mente de alguém; pelo contrário, abre um espaço seguro para que a pessoa possa expressar sua dor e buscar ajuda. O silêncio, sim, é o que alimenta o desespero.

Os princípios que norteiam uma conversa segura e eficaz

Uma conversa segura e eficaz é guiada por alguns princípios essenciais, que nos ajudam a criar um ambiente de acolhimento e confiança. Por isso, gosto de dizer que essa é uma cartilha de conversação. Ouso dizer que não somente para este tema.

  • Fale com clareza e sem rodeios: A honestidade na abordagem é crucial. Não tenha medo de usar a palavra “suicídio”. Perguntar diretamente, com cuidado e empatia, demonstra que você está disposto a enfrentar o problema e que se importa de verdade. Isso valida a experiência da pessoa e a encoraja a se abrir.
  • Valide o sofrimento: Reconheça a dor da pessoa sem minimizá-la. Frases como “Isso parece muito difícil; obrigado por me contar” ou “Eu consigo perceber o quanto você está sofrendo” são poderosas. Evite comparações ou frases que diminuam a dor, como “outros têm problemas maiores”. O sofrimento é subjetivo e real para quem o sente.
  • Ouça mais do que fala: Silencie o impulso de corrigir, comparar ou dar lições. Deixe a pessoa narrar sua experiência, sem interrupções ou julgamentos. A escuta ativa, atenta e sem preconceitos, é um dos maiores atos de acolhimento. Muitas vezes, a pessoa só precisa ser ouvida, sentir-se compreendida em sua dor.
  • Priorize a segurança antes de soluções: Em momentos de crise, o foco principal é garantir a segurança imediata da pessoa. Avalie o risco, combine passos práticos, como acompanhá-la, não deixá-la sozinha em momentos críticos e, se possível, reduzir o acesso a meios letais. As soluções de longo prazo virão depois, com o apoio profissional.
  • Seja colaborativo: Construa um plano de segurança e de próximos passos junto com a pessoa, e não “para” ela. Isso a empodera e a torna parte ativa do processo de recuperação. A sensação de controle sobre a própria vida, mesmo que mínima, é fundamental.
  • Reduza a culpa e a vergonha: Normalize o ato de pedir ajuda. O sofrimento psíquico é uma parte da experiência humana e, o mais importante, é tratável. Reforce que buscar ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza. Por isso que aqui no Instituto Alceu Giraldi, nós sempre enfatizamos que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo.
  • Continue presente: O apoio não termina após a primeira conversa. Combinar um retorno, seja uma ligação no dia seguinte, uma mensagem ou um novo encontro, demonstra que você se importa e que o apoio é contínuo. Essa previsibilidade e constância podem salvar vidas.

Roteiro objetivo para iniciar e conduzir a conversa

Eu fiz esse roteiro há alguns anos para a mãe de uma paciente minha e acho que cabe aqui o momento de compartilhá-lo com você. Lembre que a conversa é uma porta que se abrirá e ao entrar num quarto escuro, entremos com gentileza:

  • Abrindo a porta (conversa): “Percebi que você tem passado por muita coisa ultimamente. Eu me importo com você e queria saber se posso te ouvir um pouco?” ou “Notei que você não tem estado muito bem. Estou aqui para você, se quiser conversar.”
  • Perguntando diretamente e com cuidado: Se a pessoa se abrir, o próximo passo é perguntar sobre o suicídio. “Em algum momento você pensou em acabar com a própria vida?” ou “Você tem tido pensamentos de que não vale a pena viver?” A clareza aqui é vital.
  • Aprofundando (se a resposta for “sim”): Se a pessoa confirmar os pensamentos suicidas, aprofunde a conversa para entender o nível de risco:
    • “Você chegou a pensar em como faria?” (Isso avalia se há um plano.)
    • “Chegou a separar algo ou tentar?” (Isso verifica se houve preparativos ou tentativas anteriores.)
    • “Com que frequência esses pensamentos aparecem? O que parece piorar esses pensamentos? E o que, mesmo que um pouquinho, parece aliviar?” (Isso ajuda a entender a intensidade e os gatilhos.)
  • Validando e agradecendo a confiança: “Obrigado por confiar isso a mim. Sei o quanto deve ser difícil falar sobre isso. Saiba que você não está sozinho.”
  • Focando na segurança imediata: “Vamos pensar juntos no que pode te manter seguro hoje e nos próximos dias?” ou “O que podemos fazer agora para que você se sinta um pouco mais seguro?”
  • Planejando os próximos passos: “Topa ligar agora no 188 comigo? Posso ficar ao seu lado enquanto você conversa.” ou “Vamos contatar alguém de sua confiança para ficar com você por um tempo?” ou “Podemos procurar o pronto-socorro mais próximo agora?”
  • Combinando acompanhamento: “Posso te mandar uma mensagem amanhã às 10h para saber como você está?” ou “Quando podemos conversar novamente para ver como você está se sentindo?”

O que evitar em uma conversa sobre suicídio

Assim como há o que fazer, há o que evitar para não prejudicar a conversa e a pessoa em sofrimento:

  • Minimizar o sofrimento: Nunca diga frases como “Isso é drama”, “Outros têm problemas maiores” ou “Você está exagerando”. A dor da pessoa é real e válida.
  • Romantizar ou moralizar: Evite dizer “Pense na sua família” como única estratégia ou “Você tem tudo para ser feliz”. Embora a família seja importante, essa abordagem pode gerar mais culpa e não resolve a dor subjacente.
  • Prometer sigilo absoluto se houver risco iminente: A segurança da vida vem em primeiro lugar. Se houver risco iminente, você precisa buscar ajuda profissional e informar pessoas que possam intervir, mesmo que isso signifique quebrar um sigilo. Explique isso à pessoa: “Eu me importo demais com você para guardar isso sozinho se sua vida estiver em risco. Preciso garantir sua segurança.”
  • Debater crenças ou julgar: O foco deve ser acolher e proteger, não discutir religião, moral ou escolhas de vida. Evite frases como “Isso é pecado” ou “Você não deveria sentir isso”.
  • Oferecer soluções mágicas: Não diga “Tudo vai ficar bem” sem um plano concreto. Ofereça apoio e ajude a pessoa a buscar as ferramentas e o tratamento necessários.

Conduzir uma conversa sobre suicídio exige coragem e sensibilidade, mas é um passo fundamental para oferecer apoio e direcionar a pessoa para a ajuda profissional.

No próximo segmento, vamos aprofundar nos fatores de risco e na relação com as doenças mentais, que são a base do sofrimento que leva a esses pensamentos.

Compreendendo os fatores de risco e a doença mental: a base do sofrimento

Para nós, profissionais de saúde, compreender os fatores de risco é essencial na prevenção do suicídio. A grande maioria dos indivíduos que tenta ou comete suicídio tinha uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada ou não tratada adequadamente. Por isso, nós enfatizamos a importância de uma avaliação psiquiátrica detalhada e do tratamento adequado.

Os dois principais fatores de risco: tentativa prévia e doença mental

Aqui gosto de enfatizar que a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) destaca dois fatores como os mais importantes:

  • Tentativa prévia de suicídio: Este é o fator preditivo isolado mais significativo. Pacientes que tentaram suicídio previamente têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar novamente. Estima-se que 50% daqueles que se suicidaram já haviam tentado antes. Isso nos mostra a urgência de um acompanhamento rigoroso e de um plano de segurança robusto para quem já passou por essa experiência.
  • Doença mental: Sabemos que quase todos os suicidas tinham uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada, frequentemente não tratada ou não tratada de forma adequada. O suicídio não é um ato de fraqueza moral, mas sim a consequência de um sofrimento psíquico intenso, muitas vezes ligado a transtornos mentais que afetam a percepção da realidade, a capacidade de lidar com a dor e a esperança no futuro.

As doenças mentais mais associadas ao suicídio

Os transtornos psiquiátricos mais comuns que aumentam o risco de suicídio incluem:

  • Depressão: A depressão é uma doença muito prevalente, afetando milhões de pessoas. Ela é a doença mental que mais está associada ao suicídio em números absolutos. A depressão não é apenas tristeza; é uma condição que afeta o humor, o pensamento, o comportamento e as funções físicas. Ela pode levar a sentimentos de inutilidade, culpa, desesperança, perda de interesse em atividades antes prazerosas, alterações no sono e apetite, e, em casos graves, a pensamentos de morte e suicídio. Percebo diariamente que a depressão pode ser como um filtro escuro que altera a forma como vemos o mundo, tornando tudo cinzento e sem saída.
  • Transtorno Bipolar: Esta é uma condição que se caracteriza por alterações de humor que se manifestam como episódios depressivos e episódios de euforia (mania ou hipomania). É o transtorno mental mais associado ao comportamento suicida, com estimativas de que até 50% dos portadores tentam o suicídio ao menos uma vez na vida, e 15% efetivamente o cometem. O risco é maior nas fases depressivas ou nos episódios mistos (quando há sintomas de depressão e mania ao mesmo tempo). O tratamento adequado do Transtorno Bipolar, que geralmente inclui uma combinação de psicoterapia e medicamentos, reduz significativamente a mortalidade por suicídio.
  • Transtornos relacionados ao uso de álcool e outras substâncias: No conjunto, são a segunda doença mental mais associada ao suicídio, após os transtornos do humor. Cerca de 5% a 10% das pessoas dependentes de álcool terminam suas vidas pelo suicídio. O uso de substâncias pode aumentar a impulsividade, diminuir o julgamento e agravar o sofrimento psíquico, como já mencionei anteriormente. Por isso, muitas tentativas de suicídio são precedidas pela ingestão de álcool ou outras drogas. A abordagem e o tratamento desses pacientes são complexos e envolvem o tratamento da dependência e de possíveis comorbidades psiquiátricas.
  • Esquizofrenia: É uma doença crônica que afeta a percepção da realidade, o pensamento e o comportamento. Contribui com mais de 10% dos suicídios. Pacientes com esquizofrenia têm um risco 10 vezes maior de morte por suicídio. As tentativas são frequentemente sérias e podem ocorrer nos anos iniciais da doença, especialmente em pacientes com bom funcionamento pré-mórbido que percebem o impacto negativo da doença em suas vidas. O tratamento, que inclui medicamentos antipsicóticos, psicoterapia e psicoeducação, é fundamental para controlar os sintomas e reduzir o risco.
  • Transtornos de personalidade (especialmente Borderline): Os Transtornos de Personalidade envolvem alterações marcantes na forma de sentir, perceber a si e ao mundo, e se relacionar. O Borderline, em particular, apresenta um risco aumentado de suicídio, devido à impulsividade, instabilidade emocional e dificuldades nos relacionamentos. Fatores desencadeantes como problemas no trabalho, discórdia familiar ou dificuldades financeiras podem precipitar crises.

Outros fatores de risco importantes

Além das doenças mentais, outros fatores contribuem para o risco de suicídio:

  • Desesperança, desespero, desamparo e impulsividade: Sentimentos de que nada vai melhorar, de que não há saída e de que ninguém pode ajudar são fortemente associados ao suicídio. A impulsividade, especialmente entre jovens e adolescentes, é um fator de risco significativo, pois pode levar a atos precipitados.
  • Idade: O suicídio em jovens tem aumentado globalmente, sendo a terceira principal causa de morte nessa faixa etária no Brasil. Envolvem motivações complexas como humor depressivo, abuso de substâncias, problemas emocionais, familiares e sociais. Entre os idosos, o risco também é elevado, devido a perdas (cônjuge, amigos), solidão, doenças degenerativas e a sensação de ser um “peso” para a família.
  • Gênero: Os óbitos por suicídio são em torno de três vezes maiores entre os homens do que entre as mulheres. Inversamente, as tentativas de suicídio são, em média, três vezes mais frequentes entre as mulheres. Isso se deve, em parte, a papéis sociais que podem dificultar a busca de ajuda por homens, e a métodos mais letais utilizados por eles. Conflitos em torno da identidade sexual também aumentam o risco de comportamento suicida em populações LGBTQIA+.
  • Doenças clínicas não psiquiátricas: Condições como câncer, HIV, doenças neurológicas (esclerose múltipla, Parkinson, epilepsia), doenças cardiovasculares, doenças pulmonares obstrutivas crônicas e doenças reumatológicas podem aumentar o risco de suicídio, independentemente da presença de depressão. Sintomas não responsivos ao tratamento e os primeiros meses após o diagnóstico são períodos de maior vulnerabilidade.
  • Eventos adversos na infância e adolescência: Maus-tratos, abuso físico e sexual, pais divorciados, transtorno psiquiátrico familiar, entre outros, podem aumentar o risco. Em adolescentes, o suicídio de figuras proeminentes ou de pessoas conhecidas, e o fenômeno dos “suicídios em grupo” ou “contágio”, são preocupantes.
  • História familiar e genética: O risco de suicídio aumenta entre aqueles com história familiar de suicídio ou de tentativa de suicídio, indicando componentes genéticos e ambientais envolvidos.
  • Fatores sociais: Quanto maiores os laços sociais em uma comunidade, menores as taxas de suicídio. No nível individual, quanto menos laços sociais um indivíduo tem, maior o risco. Desemprego, problemas financeiros e viver sozinho (especialmente para divorciados, separados ou solteiros) também são fatores de risco.

Compreender essa complexidade de fatores é essencial para uma abordagem preventiva eficaz.

No próximo segmento, vamos detalhar as intervenções práticas que podemos adotar para proteger quem está em risco, incluindo a criação de um plano de segurança.

Intervenções práticas e o plano de segurança: ferramentas para a vida

Quando alguém está em sofrimento e com pensamentos suicidas, a ação prática e imediata pode fazer toda a diferença. Gosto de orientar meus pacientes e suas famílias sobre as ferramentas que podem ser utilizadas para navegar esses momentos de crise. Uma das mais importantes é o plano de segurança, uma estratégia proativa para proteger a vida.

O plano de segurança: um roteiro personalizado para momentos de crise

O plano de segurança é um documento vivo, construído em colaboração com a pessoa em sofrimento, um profissional de saúde ou alguém de confiança. Ele serve como um guia passo a passo para lidar com os pensamentos suicidas e as crises emocionais. Pense nele como um mapa de resgate pessoal, que a pessoa pode consultar quando a dor se tornar insuportável.

Um plano de segurança eficaz inclui vários componentes, que devem ser pensados e escritos de forma clara e acessível:

  1. Sinais pessoais de alerta: O primeiro passo é identificar as “pistas” de que o risco está aumentando. Quais são os pensamentos, sentimentos, comportamentos ou sensações físicas que indicam que uma crise está se aproximando? Pode ser insônia persistente, pensamentos intrusivos de morte, isolamento social, irritabilidade crescente, ou uma sensação de vazio. Conhecer esses sinais permite que a pessoa e seus cuidadores ajam precocemente.
  2. Estratégias de enfrentamento sozinho: O que a pessoa pode fazer por si mesma para se acalmar e desviar o foco dos pensamentos suicidas? Isso pode incluir técnicas de respiração, exercícios de grounding, atividades simples como tomar um banho, ouvir música relaxante, fazer uma caminhada curta, assistir a um filme ou série, ou ler um livro. O objetivo é criar uma “caixa de ferramentas” pessoal para o autocuidado.
  3. Pessoas e lugares que acalmam: Quem ou o que traz conforto e segurança? Pode ser um animal de estimação, um local tranquilo na natureza, um hobby específico, ou até mesmo um objeto que traga boas lembranças. Ter esses recursos em mente pode ajudar a pessoa a se reconectar com sentimentos positivos.
  4. Pessoas a quem pedir ajuda: Liste nomes e telefones de familiares, amigos ou outros indivíduos de confiança que a pessoa possa contatar em momentos de crise. É importante que essas pessoas saibam de antemão que podem ser chamadas e estejam preparadas para oferecer apoio.
  5. Profissionais e serviços de saúde: Inclua os contatos de profissionais de saúde (psiquiatra, psicólogo), serviços de emergência (CVV 188, SAMU 192), e instituições como o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou o pronto-socorro mais próximo. Saber exatamente para onde ligar ou ir em uma emergência é crucial.
  6. Restrição de meios letais: Este é um componente vital e que exige ação imediata. A evidência científica é robusta: dificultar o acesso a meios letais reduz significativamente as mortes por suicídio. Isso pode envolver guardar medicamentos em excesso em um local seguro e trancado, remover objetos cortantes (facas, lâminas), armas de fogo, cordas ou substâncias tóxicas do ambiente da pessoa. Em muitos casos, é necessário que um familiar ou amigo de confiança seja responsável por essa restrição, garantindo que a pessoa não tenha acesso a esses meios durante um período de crise.

Outras intervenções práticas e o papel do tratamento

Além do plano de segurança, outras intervenções são fundamentais:

  • Restrição de meios letais: Reitero a importância dessa medida. É uma das ações mais eficazes na prevenção imediata. Conversar com a família sobre a remoção ou o armazenamento seguro de qualquer item que possa ser usado para autolesão é uma prioridade.
  • Follow-up ativo: Contatos breves e regulares após uma crise, seja por mensagem ou ligação, demonstram que você se importa e podem reduzir a recorrência de pensamentos suicidas. Essa continuidade no cuidado é um fator protetor poderoso.
  • Tratamentos eficazes: É vital saber que existem abordagens terapêuticas e medicamentosas eficazes para as doenças mentais que aumentam o risco de suicídio.
    • Psicoterapias: Terapias que ajudam a identificar e modificar padrões de pensamento negativos, que foca no desenvolvimento de habilidades de regulação emocional, tolerância ao estresse e melhora de relacionamentos, são altamente recomendadas.
    • Manejo medicamentoso: Quando indicado por um psiquiatra, o uso de medicamentos (antidepressivos, estabilizadores de humor, antipsicóticos) desempenha um papel crucial no tratamento das doenças mentais subjacentes. Mas é importante lembrar que medicamentos são ferramentas, não soluções mágicas, e devem ser usados sob supervisão médica, com explicações detalhadas sobre seus mecanismos de ação, benefícios esperados e possíveis efeitos colaterais.
    • Cuidado integrado: Aqui no Instituto Alceu Giraldi, nós sempre buscamos um cuidado integrado, que aborde todas as comorbidades (depressão, transtorno bipolar, TEPT, uso de substâncias) e considere a pessoa em sua totalidade – corpo, mente e contexto social.

Compreender e utilizar esses recursos práticos é um passo poderoso na jornada de prevenção e recuperação. No próximo segmento, vamos detalhar a rede de apoio que o sistema de saúde brasileiro oferece, um recurso fundamental para quem busca ajuda.

O apoio da rede de saúde: onde buscar ajuda no Brasil

A rede de saúde no Brasil é um pilar fundamental na prevenção do suicídio, e é essencial que você saiba como acessá-la. Por isso, oriento meus pacientes e suas famílias sobre os diversos pontos de apoio disponíveis, pois a ajuda profissional é um direito e um recurso valioso para todos.

Canais de atendimento imediato e apoio emocional

  • CVV (Centro de Valorização da Vida) – Telefone 188: Este é o canal mais conhecido e acessível para apoio emocional e prevenção do suicídio. O CVV oferece atendimento gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por telefone, chat ou e-mail. É um espaço seguro para quem precisa conversar, desabafar e encontrar um ouvido atento, sem julgamentos. O serviço é operado por voluntários treinados, que oferecem escuta qualificada e apoio em momentos de crise.
  • SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) – Telefone 192: Em casos de emergência médica, onde há risco iminente à vida, o SAMU deve ser acionado. Eles podem realizar o transporte para um pronto-socorro ou hospital, onde a pessoa receberá o atendimento médico e psiquiátrico necessário.
  • Pronto-socorros e hospitais gerais: Em situações de crise aguda, onde a pessoa está em risco imediato de suicídio, o pronto-socorro mais próximo é o local adequado para buscar ajuda. Nesses locais, a equipe médica pode realizar uma avaliação inicial, estabilizar a pessoa e, se necessário, encaminhá-la para internação psiquiátrica ou para um serviço especializado.

Cuidando de quem cuida: o apoio contínuo

Cuidar de alguém em sofrimento psíquico, especialmente quando há risco de suicídio, é uma tarefa que exige muita energia, empatia e resiliência. Se você é familiar ou amigo de alguém nessa situação, saiba que seu apoio é inestimável, mas também é fundamental que você cuide de si mesmo. Pois, o cuidador também precisa de cuidado, pois a sobrecarga emocional pode ser imensa.

O apoio sustentável para familiares e amigos

Para apoiar de forma sustentável, é importante adotar algumas estratégias:

  • Esteja Presente e Previsível: Pequenas presenças frequentes são mais valiosas do que grandes gestos raros. A constância e a previsibilidade do seu apoio criam um senso de segurança para a pessoa em sofrimento. Isso pode ser uma ligação diária, uma visita breve, ou um convite para uma atividade leve.
  • Ofereça Ajuda Prática: Muitas vezes, a pessoa em sofrimento tem dificuldade em realizar tarefas básicas. Oferecer ajuda prática, como preparar refeições, acompanhar em consultas médicas, organizar medicamentos ou ajudar com tarefas domésticas, pode aliviar um peso enorme.
  • Use uma Linguagem que Acolhe: As palavras têm poder. Diga coisas como: “Você importa para mim. Vamos passar por isso juntos”, “O que tem sido mais difícil hoje? O que te ajudou um pouco?”, ou “Não precisa falar, mas saiba que estou aqui”. Evite frases que possam gerar culpa ou vergonha.
  • Combine Códigos de “Check-in” Simples: Crie um sistema de comunicação fácil para quando a situação apertar. Pode ser uma palavra-chave, um emoji específico ou um sinal combinado que indique que a pessoa precisa de ajuda imediata, sem precisar explicar muito.
  • Proteja-se Também: Você não pode derramar de um copo vazio. Busque orientação profissional para você, participe de grupos de apoio para familiares de pessoas com transtornos mentais, e distribua as responsabilidades no cuidado com outros membros da família ou amigos. É fundamental ter momentos de descanso e autocuidado para evitar a exaustão e o esgotamento emocional. Lembre-se, pedir ajuda para si mesmo é um ato de força.

A pós-venção: cuidado após uma tentativa ou perda por suicídio

A pós-venção é um aspecto crucial da prevenção do suicídio que se concentra no período após uma tentativa ou uma perda por suicídio. É um cuidado que se estende aos “sobreviventes”, sejam eles a própria pessoa que tentou ou os familiares e amigos que perderam alguém.

  • Após uma tentativa de suicídio:
    • Acompanhamento imediato: É crucial marcar consultas de retorno precoce com profissionais de saúde mental (psiquiatra e psicólogo) logo após a tentativa e a alta hospitalar. A semana que se segue à alta é um período de altíssimo risco.
    • Revisão e reforço do plano de segurança: O plano de segurança deve ser revisado e reforçado, garantindo que a pessoa tenha clareza sobre os passos a seguir em futuras crises.
    • Restrição de meios: Manter a restrição de meios letais é fundamental. A família deve estar atenta e garantir que a pessoa não tenha acesso a esses itens.
    • Intensificação da rede de apoio: A rede de apoio social e familiar deve ser intensificada, com contatos frequentes e presença constante.
    • Evitar julgamentos: É um momento de evitar julgamentos e focar em entender os gatilhos que levaram à tentativa e em fortalecer as estratégias que funcionaram. O foco é na recuperação e na prevenção de futuras crises.
  • Após uma perda por suicídio:
    • O luto do suicídio: O luto do suicídio é um processo complexo e diferente de outros tipos de luto. Os indivíduos afetados são descritos como “sobreviventes de suicídio” ou “sobreviventes de perda por suicídio”. Esse luto pode ser acompanhado de sentimentos intensos de culpa, vergonha, raiva e confusão.
    • Apoio aos enlutados: É fundamental oferecer presença e ajuda concreta aos familiares e amigos. Evitar especulações e culpabilização é crucial.
    • Grupos de apoio: Disponibilizar grupos de apoio a enlutados por suicídio é essencial. Esses grupos oferecem um espaço seguro para compartilhar experiências, validar sentimentos e encontrar conforto na companhia de quem passou por situação semelhante.
    • Comunicação responsável: A comunicação institucional e midiática, nesse momento, deve ser cuidadosa e sem detalhes do método, sempre oferecendo recursos de apoio e focando na prevenção de novas tragédias.

A pós-venção visa não apenas ajudar no processo de luto, mas também prevenir novas tentativas e promover a cicatrização emocional. É um lembrete de que a jornada de cuidado e apoio continua, mesmo após os momentos mais difíceis, e que a esperança e a reconstrução são sempre possíveis.

Por fim, no nosso último tópico, vamos refletir sobre a vida, o propósito e a reconstrução, e como podemos seguir em frente.

Rumo à reconstrução: vida, propósito e a jornada de recuperação

A jornada de recuperação e reconstrução após um período de sofrimento intenso, ou mesmo após uma crise, é um caminho que exige paciência, autocompaixão e a busca por um novo sentido. Diariamente vejo a força e a resiliência das pessoas que, mesmo diante das maiores adversidades, encontram formas de reconstruir suas vidas.

A vida é um presente, e a recuperação é sempre possível.

Micro-objetivos e rotina protetiva: pequenos passos, grandes mudanças

Para iniciar essa reconstrução, encorajo a definição de micro-objetivos realistas. São metas diárias e alcançáveis que, ao serem cumpridas, devolvem o senso de controle sobre a própria vida. Pode ser algo tão simples como arrumar a cama, fazer uma caminhada curta de 15 minutos, preparar uma refeição saudável, ou ligar para um amigo. Cada pequena conquista é um tijolo na construção da autoestima e da esperança. Esses pequenos sucessos se somam e criam um impulso positivo, mostrando que, sim, você é capaz de agir e de mudar sua realidade.

Uma rotina protetiva é um alicerce importante para a saúde mental. Isso inclui garantir um sono regular e de qualidade, ter uma alimentação equilibrada e nutritiva, praticar algum tipo de movimento corporal suave (mesmo que seja uma caminhada leve), expor-se à luz solar (que regula o humor e o sono) e manter um contato social mínimo diário, mesmo que seja uma breve conversa com alguém de confiança. Essas pequenas ações, quando feitas consistentemente, contribuem significativamente para o bem-estar físico e mental. Elas ajudam a regular os ritmos biológicos e a fortalecer a conexão com o mundo exterior, combatendo o isolamento.

Reencontrar significado e propósito: a essência da vida

Reencontrar o significado e o propósito na vida é um processo único para cada um. Pode ser através de valores pessoais, da espiritualidade, do voluntariado, de projetos criativos, do aprendizado de algo novo, ou do envolvimento em atividades que tragam um senso de contribuição e realização. É sobre descobrir o que realmente dá sentido à sua existência, o que te move, o que te faz sentir vivo e conectado.

A autocompaixão é uma prática poderosa e fundamental. Trate-se com a mesma gentileza, compreensão e paciência que você trataria alguém querido em sofrimento. Cultive a bondade consigo mesmo, em vez da autocrítica severa. Reconheça que você está fazendo o seu melhor, que é humano ter momentos de fragilidade e que a recuperação é um processo, não um evento único. A autocompaixão permite que você se perdoe por erros passados e se abra para a possibilidade de um futuro mais gentil. Porém, sei que falar isso parece simples, por isso sempre indico um psicólogo para ser seu companheiro nessa descoberta.

Somos seres que se desenvolvem em sociedade e algumas vezes é difícil olhar para si sozinhos.

Esperança e Ação

É importante reiterar que o sofrimento psíquico não é apenas “falta de força de vontade”; transtornos mentais e crises são condições tratáveis, e o apoio e o tratamento fazem toda a diferença. A recuperação é um processo, com altos e baixos, mas é sempre possível.

Se você está buscando orientação profissional formal, agende uma avaliação com um psiquiatra ou psicólogo. Se possível, leve anotações sobre seus sintomas, padrões de sono, gatilhos, histórico, medicamentos e uso de substâncias. Levar um familiar ou amigo pode ajudar a reter informações e a executar o plano de cuidado.

Nós, do Instituto Alceu Giraldi, acreditamos que a vida é um presente e que a recuperação é sempre possível. Não há vergonha em pedir ajuda. Há coragem. Que este guia seja um passo em sua jornada de cura e esperança. Lembre-se: você não está sozinho.

Dr. Thiago Dias

Dr. Thiago Dias

Médico Psiquiatra, Terapeuta Gestalt e Co-fundador do Instituto Alceu Giraldi. Após muitos anos trabalhando com patologias mentais e ajudando seus clientes a voltarem para sua vidas, compreendeu que o sucesso de seus pacientes acontece quando olham para a saúde, qualidade de vida e bem-estar. Assim, facilitando o tratamento e remissão.

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