Desvendando o diagnóstico de autismo em adultos

Sentei-me na frente de uma mulher de 47 anos ontem. Ela chorava. Não lágrimas silenciosas, ela realmente chorava, aquele choro que vem de um lugar onde ninguém consegue falar de verdade.

Doutor, eu estou aqui porque… porque eu não entendo. Minha filha foi diagnosticada com autismo aos 5 anos. Eu fui vê-la no neurologista, e ela estava fazendo um teste, e aí ele olhou pra mim e disse: ‘Você consegue responder essas perguntas sobre você também? Porque acho que você pode ter autismo também’“.

Pausa.

Eu tenho 47 anos. 47 anos, doutor. E ninguém nunca tinha me dito isso. Ninguém nunca tinha sequer suspeitado disso“.

Essa conversa aconteceu muitas e muitas vezes no meu consultório.

E eu sou um psiquiatra e há anos, desde que trabalhava com o Dr. Alceu, diagnosticávamos casos assim de autismo. Então quando essas histórias começaram a aparecer, adultos de 30, 40, 50 anos descobrindo que eram autistas, eu comecei a questionar a gente. Todos nós, como profissionais. Como sociedade.

Como uma pessoa consegue passar 40, 50, 60 anos da vida acreditando que está errada, que não consegue acompanhar, que há algo gravemente inadequado nela, e ninguém percebe?

Deixe-me contar a verdade pra você: essa pessoa não está errada. O sistema está, infelizmente.

O autismo adulto que ninguém fala sobre

Aqui está o grande segredo guardado nos consultórios de psiquiatria por toda essa década: há milhões de adultos diagnosticados como “depressivos”, “ansiosos”, “obsessivos compulsivos” quando na verdade são autistas.

Existem estudos sobre isso. Adultos diagnosticados tardiamente com autismo frequentemente relatam que passaram anos sendo medicados para ansiedade, depressão, TOC. Diagnósticos que não eram de tudo errados, mas eram como tratar o sintoma enquanto ignorava a causa raiz.

Pense assim: você tem autismo. Seu sistema nervoso processa o mundo de forma diferente. Você esgota emocionalmente após estar em uma reunião de trabalho com 15 pessoas porque o processamento social requer 10 vezes mais energia para você. Fica tão exausto que desenvolve depressão. Nunca entendeu por que você fica exausto. Então diagnosticam “depressão” e prescrevem antidepressivo.

O antidepressivo ajuda… um pouco. Mas você continua indo para aquela reunião de 15 pessoas e voltando devastado. Porque ninguém nunca tratou a causa. Porque ninguém nunca perguntou: “E se não fosse fadiga psicológica? E se fosse sobrecarga sensorial cognitiva”?

O Dr. Alceu Giraldi, tinha uma mão perfeita para isso. Eu admiro até hoje sua história e a forma como entendia seus pacientes. Sua sensibilidade me ensinou muito e, principalmente, a questionar.

Por que os adultos estão descobrindo autismo agora

A resposta é simples, mas também é desconfortável: porque a gente foi criado quando ninguém sabia o que era autismo.

Quando minha avó tinha 10 anos? Autismo era algo que Rain man aparecia na TV. Autismo era Rain Man. Não era crianças que brincam sozinhas. Não era adultos que precisam de rotinas. Não era mulheres que ficam exaustas em eventos sociais.

Então os adultos de hoje, particularmente as mulheres, cresceram sendo chamadas de “tímidas”. De “antissociais”. De “estranhas”. De “muito sensíveis”. De “difíceis”.

Os pais não sabiam. Os professores não sabiam. Os médicos não sabiam.

E sabe qual é o pior? Os próprios adultos não sabiam.

Uma mulher autista passa a vida inteira se esforçando para agir “normal”. Ela observa as outras meninas. Ela copia. Ela aprende. É uma atriz permanente, representando um papel todos os dias, em todos os contextos. Isso chama-se camuflagem social.

A camuflagem social é tão bom que a mulher autista literalmente acredita que é uma pessoa diferente, quebrada, inadequada. Porque ninguém vê a sobrecarga. Ninguém vê o preço emocional. Ninguém vê que quando ela chega em casa, ela colapsa no sofá por 3 horas, completamente esgotada pelo esforço de ser “normal” o dia inteiro.

Para os meninos autistas? Diferentes expectativas sociais. Eles podem ser antissociais sem serem questionados tanto. Eles podem ter interesses muito específicos e ninguém acha estranho. “Ah, é nerd de informática”. Pronto.

As meninas? “Por que você não quer ir à festa? Você é tão antissocial. Isso é doença”.

Os sinais que estão ali o tempo todo

Agora deixe eu falar sobre algo que é incômodo: você pode estar lendo isso e reconhecendo a si mesmo.

Os sinais de autismo em adultos não são tão óbvios quanto em crianças de 3 anos. Mas eles estão lá.

Você sempre foi a pessoa que precisa de rotina? Que se desespera com mudanças? Que sente pânico físico quando os planos mudam sem aviso prévio?

Você é aquele que consegue hiperfoco extremo? Que passa 8 horas seguidas trabalhando em algo e não sente passar o tempo, mas depois não consegue focar em mais nada durante dias?

Você tem dificuldade em ler o rosto das pessoas? Você não consegue saber se alguém está com raiva de você ou apenas tendo um dia ruim? Você frequentemente “diz a coisa errada” em conversas?

Você é sensível a sons, luzes, cheiros? Você precisa de noites silenciosas para se recuperar socialmente? Você se irrita quando há muito barulho?

Você tem problemas em manter amizades mesmo querendo? Você sente um desconexão fundamental entre você e outras pessoas, como se estivesse olhando através de vidro?

Você foi diagnosticado com ansiedade social, mas os medicamentos para ansiedade ajudam mais ou menos? Porque o problema não é “ansiedade de falar em público”. O problema é que falar com pessoas é, literalmente, um modo de processamento diferente para você?

Se você assinalou 3 ou mais dessas coisas… bem. Não estou diagnosticando você (isso requer consultório). Mas estou dizendo: não descarte a possibilidade. Aliás, já deixo o chamado para uma consulta comigo ou com a equipe. Tirar dúvida é o melhor investimento que você pode fazer por você.

A importância da comunidade quando você descobre isso aos 40

Algo que eu não esperava quando comecei a trabalhar com adultos autistas é o quanto a comunidade importa.

Um homem de 50 anos chega ao meu consultório. Ele foi diagnosticado há 6 meses. Ele diz: “Doutor, eu fui entrar em um grupo de discussão no Discord de adultos autistas. E eu só… sentei lá lendo histórias de outras pessoas por 3 horas“.

Por quê?“, perguntei.

Porque… porque eram histórias minhas. Minha história exata. E eu nunca tinha conhecido ninguém assim. Eu pensava que era só eu. Que eu era… estranho“.

Lágrimas escorriam de seus olhos enquanto contava isso.

Quando você passa 40, 50 anos acreditando que está sozinho, que há algo fundamentalmente errado com você que ninguém mais tem, e aí você descobre uma comunidade inteira de pessoas que pensam igual, que processam igual, que se cansam da mesma forma…

Isso muda você.

O que você precisa saber se desconfia que é autista

Primeiro: confie no seu instinto. Se você descobre algo sobre autismo e pensa “nossa, isso é literalmente minha vida”, provavelmente não é acaso.

Segundo: busque um diagnóstico formal. Não diagnostique a si mesmo. Mas busque alguém que entenda autismo adulto, particularmente em mulheres. Infelizmente, muitos psiquiatras ainda esperam que você seja “Rain Man” para diagnosticar.

Terceiro: saiba que um diagnóstico não é uma etiqueta que limita. É uma chave de compreensão. É permissão para parar de se forçar a ser algo que você não é.

Quarto: procure comunidades. Pessoas que entendem. Porque isolamento + descoberta tardia = muito sofrimento emocional se você não tiver suporte.

Quinto: compreenda que seu cérebro não está errado. Está diferente. E tem 40 anos de vida que foram uma luta porque ninguém sabia. Isso é um luto. Deixe-se sentir isso.

Mas depois disso? Deixe-se também sentir alívio. Porque você finalmente tem um porquê.

A conversa que mais importa

Semana passada, ouvi algo de uma mulher que mudou a forma como eu vejo meu trabalho.

Ela disse: “Doutor, nos últimos 6 meses desde meu diagnóstico, passei de pensar ‘sou uma fracasso porque não consigo ser como todo mundo’ para pensar ‘sou diferente e finalmente posso parar de me forçar a ser algo que não sou’. Não é a mesma pessoa que entrou aqui meses atrás“.

Isso. Isso é o ponto.

Não é sobre “curar” autismo em adultos. É sobre libertar pessoas que passaram a vida inteira aprisionadas em uma identidade falsa, procurando a culpa em si mesmas quando na verdade havia uma razão neurológica para tudo.

É sobre permitir que uma pessoa finalmente respire e diga: “Não há nada errado comigo. Eu sou só… diferente“.

E diferença, meu amigo, não é doença. Diferença é diversidade.

Então, e se for você?

Talvez você esteja lendo isso e pensando: “Sou tudo isso. Todos esses sinais. A camuflagem social. A sensibilidade. A necessidade de rotina. Os colapsos emocionais depois de eventos sociais. A dificuldade em manter amizades mesmo querendo. O hiperfoco em coisas que me interessam. Tudo“.

Bem.

Você não está sozinho.

Milhões de adultos ao redor do mundo estão tendo a mesma realização neste exato momento. E muitos deles, como aquela mulher de 47 anos que chorava no meu consultório, estão descobrindo que essa realização, por mais tardia que seja, é profundamente libertadora.

Você passou 40, 50 anos se culpando. Se odiando. Se força a ser alguém que você não é. Fingindo que é “normal”.

E se, só talvez, tudo isso finalmente fizesse sentido?

Se você fosse apenas… autista?

Não quebrado. Não fracassado. Apenas você.

Cuide de você

Agora meu convite para você é: está com dúvida? Agende uma consulta! Fale com um profissional que entenda autismo adulto. Procure comunidades. Comece o processo de entender a si mesmo. Um psiquiatra é um médico como qualquer outro, você não será internado nem nada. Aliás, dependendo de seu diagnóstico, você será liberto de uma prisão invisível que não permite você ser quem você é.

Porque aos 30, 40, 50 anos, você merece esse autoconhecimento.

E aquele alívio que você sente quando finalmente entende? Quando finalmente para de se culpar? Quando finalmente vê seu próprio reflexo e diz “ah, não há nada errado comigo, é só como eu funciono“?

Isso vale cada segundo da jornada.

No Instituto Alceu Giraldi, nós entendemos que a saúde mental não começa quando você é criança. Começa quando você finalmente se permite ser quem você realmente é.

Se você desconfia que é autista, você não está errado. Você está apenas começando a se entender.

E nunca é tarde demais para isso.

Dr. Thiago Dias

Dr. Thiago Dias

Médico Psiquiatra, Terapeuta Gestalt e Co-fundador do Instituto Alceu Giraldi. Após muitos anos trabalhando com patologias mentais e ajudando seus clientes a voltarem para sua vidas, compreendeu que o sucesso de seus pacientes acontece quando olham para a saúde, qualidade de vida e bem-estar. Assim, facilitando o tratamento e remissão.

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