Você sabia que mais de 470 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais apenas em 2024? Esse é o maior número registrado em uma década, e representa algo muito além de estatísticas frias: são vidas interrompidas, famílias impactadas e empresas perdendo seus melhores talentos.
Eu tenho acompanhado de perto essa epidemia oculta no meu consultório. Todos os dias, recebo profissionais brilhantes, dedicados e competentes que chegam completamente esgotados, relatando ambientes de trabalho tóxicos, metas impossíveis e uma sensação constante de que nunca é suficiente. O que mais me preocupa não é apenas o sofrimento individual dessas pessoas, mas o fato de que estamos normalizando algo que deveria ser inaceitável. E, que é improdutivo e afeta não só vidas, mas como o resultado das empresas.
Vejo claramente que a saúde mental dos colaboradores não é apenas uma questão humanitária, é um indicador direto da saúde organizacional. Empresas que ignoram esse fato não estão apenas perdendo produtividade, estão construindo seu próprio colapso.
Uma crise sem precedentes de Saúde Mental no trabalho
A resposta está na velocidade insustentável com que o mundo corporativo tem operado. Vivemos em uma era onde a tecnologia prometeu facilitar nossas vidas, mas, paradoxalmente, nos tornou disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana. Assim, mensagens de trabalho chegam aos fins de semana, reuniões se acumulam sem intervalos, e a linha entre vida pessoal e profissional simplesmente desapareceu.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que 5,8% da população brasileira sofre de depressão, isso representa 11,7 milhões de pessoas. Quando olhamos especificamente para o ambiente de trabalho, os números são ainda mais alarmantes: 141 mil casos de ansiedade e 113 mil casos de depressão levaram a afastamentos laborais em 2024.
Por isso, podemos afirmar que:
- A pressão por resultados imediatos cria um ambiente de estresse crônico
- A falta de reconhecimento e feedback construtivo mina a autoestima profissional
- Jornadas exaustivas impedem a recuperação física e mental necessária
- O assédio moral e metas abusivas destroem a saúde psicológica dos colaboradores
Na minha experiência clínica, percebo que muitos gestores nem sequer têm consciência do impacto que suas decisões causam na saúde mental de suas equipes. Não é maldade, é despreparo. É a falta de habilidades de liderança humanizada que transforma ambientes de trabalho em campos de batalha emocionais.
O que a ciência nos diz sobre o burnout?
O Burnout não é simplesmente “estar cansado”. Trata-se de uma síndrome ocupacional reconhecida pela OMS, caracterizada por três dimensões principais: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal. Neurologicamente, o estresse crônico altera a produção de cortisol, afeta a neuroplasticidade do hipocampo e compromete funções executivas do córtex pré-frontal.
Em termos práticos, isso significa que uma pessoa em Burnout não consegue simplesmente “descansar no fim de semana” e voltar renovada. O dano é profundo e requer intervenção especializada.
Quiet quitting e a demissão emocional
Você já ouviu falar em “Quiet Quitting“? Essa expressão em inglês, representa o fenômeno da desistência em forma silenciosa, onde o colaborador continua fisicamente presente, mas emocionalmente desconectado. Assim, ele faz o mínimo necessário, sem engajamento ou entusiasmo. Posso afirmar que, na maioria das vezes, é uma resposta defensiva ao esgotamento.
Aqui na clínica, vejo isso constantemente. Pacientes me relatam: “Dr. Thiago, eu simplesmente não consigo mais me importar. Faço meu trabalho mecanicamente, faço o mínimo apenas para receber meu salário e não ser demitido“. Essa desconexão emocional é um sintoma claro de que algo está profundamente errado no ambiente organizacional (e que sua empresa está deixando de ganhar dinheiro).
Os principais gatilhos que identifico são:
- Dificuldade financeira: A pressão de sustentar a família com salários que não acompanham a inflação gera ansiedade constante.
- Falta de perspectiva de vida: Quando o trabalho não oferece crescimento ou propósito, a motivação desaparece.
- Excesso de demandas: Fazer o trabalho de três pessoas com o salário de uma é uma receita para o colapso.
- Assédio moral: Gestores que humilham, desrespeitam ou criam ambientes hostis são os principais responsáveis pelo adoecimento mental.
Acredito que o Quiet Quitting não é preguiça ou falta de comprometimento. É um mecanismo de sobrevivência psicológica. Quando a pessoa não pode sair fisicamente do emprego (por necessidade financeira, geralmente), ela sai emocionalmente para preservar o que resta de sua saúde mental.
O que números revelam sobre esse sofrimento coletivo
A pesquisa do Global Mind Project traz dados que me preocupam profundamente:
- 34% dos brasileiros relatam angústia constante.
- 38% estão em recuperação emocional (ou seja, já passaram por crises e estão tentando se recompor).
- Jovens até 35 anos são os mais afetados, enfrentando pressões familiares, sociais e profissionais simultâneas.
Esses números não são apenas estatísticas, são pessoas reais e com histórias reais. No meu consultório, tenho atendido cada vez mais jovens profissionais que chegam aos 30 anos completamente esgotados, questionando se vale a pena continuar nessa corrida insana por sucesso.
Inclusive, o próprio contexto do sucesso e seu significado se transforma em assunto por aqui.
O papel devastador da má liderança na saúde mental
Preciso ser direto aqui, tudo bem? Grande parte da crise de saúde mental no trabalho é causada por líderes despreparados. Não estou falando de pessoas más, mas de profissionais que foram promovidos por competência técnica, sem nunca terem desenvolvido habilidades de gestão de pessoas.
Como disse anteriormente, a velocidade do mundo corporativo fez com que gestores perdessem o foco no essencial: as pessoas. Vejo isso nas queixas que ouço diariamente:
“Meu chefe muda de ideia toda hora, e eu tenho que refazer tudo do zero.”
“Recebo demandas urgentes às 18h da sexta-feira.”
“Ninguém sabe exatamente o que precisa ser feito, então fazemos e refazemos mil vezes.”
“Meu gestor nunca reconhece meu trabalho, mas aponta cada erro publicamente.”
Essas situações não são raras, são a norma em muitas organizações. E o resultado? Colaboradores ansiosos, deprimidos e prontos para abandonar o navio na primeira oportunidade.
Por isso, acredito que a falta de habilidade de liderança gera um caos organizacional que se reflete diretamente na saúde mental. Quando não há clareza de objetivos, as equipes trabalham em círculos, refazendo tarefas desnecessárias, desperdiçando energia em retrabalho e sentindo que nada do que fazem tem valor real.
A conexão entre saúde mental e resultados empresariais
Aqui está uma verdade que todo empresário precisa entender: a saúde mental média dos colaboradores é diretamente proporcional ao sucesso e crescimento de uma empresa. Não é uma questão de “ser bonzinho”, é uma questão de inteligência estratégica.
Essa é uma escolha inteligente que grandes empresas e multinacionais já conhecem e implementam. Dessa forma, cuidar da saúde mental dos colaboradores, não é só “bonito” ou “eticamente correto”, mas é lucrativo!
Alguns estudos mostram que empresas com colaboradores engajados e mentalmente saudáveis têm:
- 21% mais lucratividade
- 17% mais produtividade
- 41% menos absenteísmo
- 59% menos turnover
Na minha experiência, empresas que investem genuinamente em saúde mental não estão gastando, estão investindo em seu ativo mais valioso. Colaboradores que se sentem valorizados, respeitados e apoiados não apenas trabalham melhor, eles inovam, colaboram e constroem uma cultura organizacional saudável.
Como a psiquiatria moderna pode ajudar?
A boa notícia é que temos recursos eficazes para lidar com essa epidemia. A psiquiatria moderna não se limita a prescrever medicamentos. Aqui, no Instituto Alceu Giraldi, adotamos uma abordagem holística que considera aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Tanto na equipe de psiquiatria, quanto na de psicologia.
Por que essa abordagem integrada funciona? Porque o Burnout e os transtornos mentais relacionados ao trabalho não têm uma causa única. São resultado de uma combinação de fatores: predisposição genética, estressores ambientais, padrões de pensamento disfuncionais e falta de suporte social.
Pensa comigo, por que você acredita que as empresas estão com terapeutas e psicólogos com consultas dentro das empresas ultimamente?
Por isso, podemos afirmar que o tratamento eficaz inclui:
- Avaliação psiquiátrica completa: Identificar se há transtornos associados como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático.
- Psicoterapia: Especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para desenvolver estratégias de enfrentamento saudáveis.
- Medicação quando necessária: Para restabelecer o equilíbrio neuroquímico e permitir que a pessoa tenha energia para as mudanças necessárias.
- Mudanças no estilo de vida: Sono adequado, exercícios físicos, alimentação balanceada e técnicas de gerenciamento de estresse.
- Reavaliação de limites profissionais: Aprender a dizer “não“, estabelecer fronteiras claras e priorizar o autocuidado.
Aqui no Instituto Alceu Giraldi, trabalho com uma equipe multidisciplinar porque acredito que a cura genuína vem da integração de diferentes especialidades. Psiquiatras, psicólogos, nutricionistas e outros profissionais trabalham juntos para tratar não apenas os sintomas, mas as causas raiz do adoecimento.
Um caso que ilustra a transformação possível
Recentemente, atendi uma executiva de 38 anos que chegou ao consultório em lágrimas. Ela tinha tudo o que a sociedade define como sucesso: cargo alto, salário excelente, reconhecimento profissional. Mas estava completamente destruída por dentro. Não dormia há meses, tinha crises de pânico semanais e pensava constantemente em simplesmente desaparecer.
Após uma avaliação cuidadosa, identificamos um quadro grave de Burnout associado a depressão moderada. Iniciamos tratamento medicamentoso para estabilizar os sintomas agudos, combinado com psicoterapia semanal. Mas o mais importante foi trabalhar com ela na reestruturação de suas prioridades e limites profissionais.
Seis meses depois, ela não apenas se recuperou como negociou novas condições de trabalho com sua empresa, estabeleceu limites claros e hoje é uma das maiores defensoras de políticas de saúde mental em sua organização. Essa transformação não aconteceu porque ela ficou “mais forte”, aconteceu porque ela aprendeu que cuidar de si mesma não é fraqueza, é sabedoria.
Estabelecendo limites rígidos: a nova competência profissional essencial
Uma das discussões mais importantes de 2025 é sobre a necessidade de limites rígidos entre vida pessoal e profissional. Isso não é “frescura” ou “falta de dedicação”, é uma questão de sobrevivência emocional.
Vejo no consultório profissionais que têm medo de desligar o celular corporativo, que sentem culpa por não responder mensagens imediatamente, que trabalham durante férias “para não acumular demandas”. Esse comportamento não é comprometimento, é autodestruição programada.
Quero reforçar o que falei anteriormente sobre a importância dos limites:
Estabelecer fronteiras saudáveis não prejudica sua carreira, ela protege sua capacidade de ter uma carreira sustentável a longo prazo. Profissionais esgotados não são produtivos, são acidentes esperando para acontecer.
Dicas práticas para estabelecer limites saudáveis:
- Defina horários claros de disponibilidade: Comunique à sua equipe quando você está disponível e quando não está.
- Crie rituais de transição: Algo que marque o fim do dia de trabalho, como uma caminhada ou exercício.
- Aprenda a dizer não estrategicamente: Nem tudo que é urgente é importante, e nem tudo que é importante precisa ser feito por você.
- Desconecte-se digitalmente: Estabeleça períodos sem checar e-mails ou mensagens de trabalho.
- Priorize o sono: Não há produtividade sustentável sem descanso adequado.
Na minha experiência, os profissionais mais bem-sucedidos a longo prazo não são os que trabalham 16 horas por dia. São aqueles que trabalham de forma inteligente, protegem seu tempo pessoal e sabem que seu valor não está apenas no que produzem, mas em quem são.
O papel das empresas na prevenção do Burnout
Empresas não podem mais se eximir da responsabilidade sobre a saúde mental de seus colaboradores. Não estou falando de criar um “espaço zen” ou oferecer aulas de yoga (embora possam ajudar). Estou falando de mudanças estruturais profundas na cultura organizacional.
O que empresas genuinamente comprometidas com saúde mental fazem:
- Treinam líderes em gestão humanizada: Habilidades de comunicação, empatia e reconhecimento são tão importantes quanto competências técnicas.
- Estabelecem metas realistas: Desafios são importantes, mas metas impossíveis são destrutivas.
- Criam canais seguros de comunicação: Onde colaboradores podem expressar preocupações sem medo de retaliação.
- Oferecem suporte psicológico acessível: Programas de assistência ao empregado com psicólogos e psiquiatras disponíveis.
- Monitoram indicadores de saúde mental: Taxas de absenteísmo, turnover e engajamento são sinais de alerta importantes.
- Promovem flexibilidade real: Horários flexíveis, trabalho remoto quando possível e respeito aos limites pessoais.
Como disse anteriormente, a saúde mental dos colaboradores é um indicador direto do sucesso empresarial. Organizações que entendem isso não apenas retêm talentos; elas se tornam referências em seu setor, atraindo os melhores profissionais do mercado.
A tecnologia como aliada, não inimiga
Gosto muito de tecnologia e busco em meus tratamentos a conexão da tecnologia com o lado humano. Acredito que as ferramentas digitais podem ser grandes aliadas na promoção de saúde mental, quando usadas conscientemente.
Aplicativos de meditação, plataformas de telemedicina, wearables que monitoram padrões de sono e estresse, tudo isso pode ajudar tanto na prevenção quanto no tratamento de transtornos mentais. O problema não é a tecnologia em si, mas como a usamos.
Quando a tecnologia serve para conectar pessoas, facilitar o acesso a tratamento e promover autocuidado, ela é maravilhosa. Porém, quando serve apenas para nos manter disponíveis 24/7 e aumentar a pressão por produtividade constante, ela se torna parte do problema.
Quando procurar ajuda profissional?
Muitas pessoas adiam buscar ajuda porque acham que “não é tão grave assim” ou que “todo mundo passa por isso”. Mas reconhecer os sinais precoces de Burnout e outros transtornos mentais pode fazer toda a diferença entre uma recuperação rápida e um colapso completo.
Procure um psiquiatra ou psicólogo se você:
- Sente exaustão constante que não melhora com descanso.
- Tem dificuldade para dormir ou acorda cansado mesmo após dormir.
- Experimenta irritabilidade, ansiedade ou tristeza persistentes.
- Perdeu o interesse em atividades que antes lhe davam prazer.
- Tem dificuldade de concentração ou memória.
- Sente sintomas físicos sem causa médica aparente (dores de cabeça, problemas gastrointestinais, tensão muscular).
- Usa substâncias (álcool, medicamentos) para lidar com o estresse.
- Tem pensamentos negativos recorrentes sobre si mesmo ou sobre a vida.
Esses sintomas não são sinais de fraqueza, são sinais de que seu corpo e mente estão pedindo ajuda. Ignorá-los não os fará desaparecer. Apenas permitirá que se agravem.
Aqui no Instituto Alceu Giraldi, recebemos você com acolhimento, segurança e um plano de tratamento personalizado. Não existe uma fórmula única que funcione para todos, e é por isso que nossa abordagem é sempre individualizada, considerando suas circunstâncias únicas de vida e trabalho.












