Adolescentes depressivos: a dor invisível da geração conectada

Quando um jovem de 16 anos chega ao meu consultório com os olhos baixos, ombros curvados e a expressão de quem carrega o peso do mundo, eu vejo muito mais do que um “adolescente rebelde” ou alguém “passando por uma fase”. Vejo uma pessoa real, com dores reais, navegando por um dos períodos mais complexos e desafiadores da vida humana. E é sobre essa realidade, muitas vezes pouco compreendida aos olhos adultos – que preciso falar hoje.

A depressão não é um capricho ou drama adolescente. É uma condição séria que afeta milhões de jovens ao redor do mundo, e que merece nossa atenção.

Entendendo os desafios únicos da adolescência

A adolescência é como uma tempestade peculiar de transformações. Imagine um jovem cérebro em plena construção, com hormônios em ebulição, pressionado por expectativas sociais e familiares, tentando descobrir quem é em um mundo que muda a cada segundo.

Não é pouco, não é mesmo?

Neurologicamente, o cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente o córtex pré-frontal. Esse córtex é uma das áreas envolvidas no controle de impulsos, tomada de decisões e regulação emocional. Por isso, podemos afirmar que os adolescentes vivenciam as emoções de forma mais intensa e têm maior dificuldade para processá-las adequadamente.

O mundo emocional adolescente tem suas próprias regras, suas próprias intensidades. E deve ser moldado com carinho.

O mundo moderno: desafio para a saúde mental

O mundo digital trouxe novos desafios que precisamos reconhecer e compreender de perto. Os adolescentes de hoje crescem em um ambiente onde:

As redes sociais criam uma pressão constante por aprovação. Cada post, cada foto, cada story se torna uma oportunidade de validação ou rejeição. É como viver em um palco 24 horas por dia, onde a plateia nunca para de julgar.

A comparação social se intensificou exponencialmente. Antes, um jovem se comparava com os colegas da escola. Hoje, ele se compara com influencers, celebridades e versões “perfeitas” criteriosamente escolhidas para disfarçar aspectos não desejáveis – presentes em qualquer vida.

A sobrecarga de informações gera ansiedade constante. Notícias ruins, cobranças acadêmicas, pressões sociais – tudo chega instantaneamente através de uma pequena tela que carregam no bolso.

Por isso, o olhar atento, a imposição de saudável de limites e o companheirismo por parte dos pais/responsáveis é tão valiosa. Os adolescentes ainda não atingiram uma maturidade para tomar todas as decisões por si, e precisam de um adulto para ajudar na condução das suas vidas. A imposição de limites saudáveis é amor.

Entendendo as raízes da dor

Baseado em evidências científicas e na minha experiência, posso identificar os principais fatores que contribuem para o desenvolvimento de depressão em adolescentes:

Pressões acadêmicas e expectativas irreais

Vivemos em uma sociedade que coloca sobre os ombros jovens uma pressão acadêmica sem precedentes. A mensagem constante de que “só os melhores conseguem sucesso” cria um ambiente tóxico hostil onde o fracasso é visto como catástrofe pessoal.

Vejo isso quase todo dia: jovens de 15, 16 anos com síndrome do pânico por conta de
provas de vestibular, adolescentes que não dormem pensando nas notas, que se sentem fracassados antes mesmo de começar suas jornadas adultas.

Questões de identidade e aceitação

A adolescência é o período de construção da identidade, e isso inclui questões como orientação sexual, identidade de gênero, valores pessoais e senso de pertencimento. Quando um jovem sente que não se encaixa nos padrões esperados, a dor pode ser grande.

Mudanças corporais e autoimagem

As transformações físicas da puberdade, combinadas com padrões de beleza irreais propagados pela mídia, criam uma tempestade perfeita para problemas de autoestima e autoimagem.

Isolamento social paradoxal

Paradoxalmente, uma geração hiperconectada está experimentando níveis recordes de solidão. Ter 500 “amigos” no Instagram não substitui a necessidade humana básica de conexão genuína e compreensão. Hoje, vemos crianças e adolescentes nos celulares, se falando por redes sociais mesmo estando um ao lado do outro.

A família no centro de tudo

Agora, quero falar diretamente com os pais e familiares que podem estar lendo este texto: vocês não estão sozinhos, e muito provavelmente não são os “culpados” pela depressão de seus filhos. A depressão é uma condição multifatorial, que pode afetar qualquer família, independentemente de amor, estrutura ou recursos disponíveis.

Os desafios que as famílias enfrentam

O gap geracional digital: Muitas vezes, os pais se sentem perdidos tentando entender um mundo digital que não existia em suas adolescências. Como orientar sobre algo que não vivenciaram?

A comunicação intergeracional: Os adolescentes de hoje expressam suas emoções de formas que podem parecer estranhas ou alarmantes para os adultos. O que para um pai pode parecer “drama”, para o adolescente é uma dor real e intensa.

O equilíbrio entre proteção e autonomia: Como proteger sem sufocar? Como dar
liberdade sem negligenciar? Estes são dilemas reais que toda família moderna enfrenta.

Sinais de alerta que merecem atenção

Como psiquiatra, considero fundamental que as famílias reconheçam os sinais que podem indicar depressão em adolescentes:

Mudanças súbitas no comportamento: Isolamento social, perda de interesse em atividades antes prazerosas, além de alterações no sono e apetite (dormir demais ou insônia, perda ou aumento significativo de peso). Gostaria de chamar a atenção também para possíveis quedas no rendimento acadêmico. Não apenas notas baixas, mas desinteresse importante
pelos estudos.

Há também outros fatores:

Irritabilidade excessiva: Explosões de raiva desproporcionais às situações vividas. Além dos sentimentos de desesperança, que segue frases como “nada vale a pena”, “não consigo fazer nada direito”. E por fim, comportamentos de risco, como o uso de substâncias, automutilação, comportamento sexual de risco

Tratamento com uma abordagem integrativa

Aqui no Instituto Alceu Giraldi, acredito firmemente que o tratamento de adolescentes com depressão deve ser integral, envolvendo não apenas o jovem, mas toda a rede de apoio ao seu redor.

O papel da psicoterapia

A terapia oferece ao adolescente um espaço seguro para expressar suas emoções sem julgamento.É um ambiente no qual ele pode experimentar, entender e processar suas experiências de forma saudável.

Técnicas como a Terapia Cognitivo-Comportamental têm se mostrado especialmente eficazes, ajudando os jovens a identificar padrões de pensamento negativos e desenvolver estratégias mais saudáveis de enfrentamento.

Quando a medicação se faz necessária

Em alguns casos, a medicação pode ser uma ferramenta valiosa no tratamento. Importante esclarecer que antidepressivos não são “muletas” ou sinais de fraqueza. São tratamentos médicos baseados em evidências científicas que podem restaurar o equilíbrio neuroquímico necessário para a recuperação.

Por isso, posso afirmar que a combinação de psicoterapia e medicação (quando indicada), oferece os melhores resultados no tratamento da depressão adolescente. Eu, particularmente, trabalho em parceria com psicólogos aqui do Instituto e com outros profissionais que conquistam a confiança de meus pacientes e se tornam peças chaves. Além disso, o medicamento pode ser também uma ferramenta muito útil no tratamento.

O envolvimento familiar

A família é uma peça fundamental no processo de cura. Isso não significa que os pais devem se tornar terapeutas, mas sim que precisam aprender a criar um ambiente acolhedor e compreensivo em casa, com regras claras e limites.

Vejo transformações lindas quando as famílias se envolvem de forma saudável no tratamento, aprendendo a comunicar-se de forma mais efetiva e a criar vínculos mais profundos com seus adolescentes.

Estratégias práticas para o dia a dia

Agora quero compartilhar algumas estratégias que podem fazer diferença no cotidiano:

Para os adolescentes:

  • Pratique a autocompaixão: Trate-se com a mesma gentileza que trataria um amigo querido
  • Mantenha uma rotina básica: Horários regulares de sono e alimentação são fundamentais
  • Busque atividades que tragam prazer: Mesmo que pequenas, elas são sementes de recuperação
  • Limite o tempo nas redes sociais: Especialmente quando se sentir vulnerável e entristecido. Busque conexões reais, de pessoas que se importam com você.

Para as famílias:

  • Escute, e pontue de forma cuidadosa as suas orientações.
  • Valide as emoções. “Entendo que você está sofrendo” é mais poderoso que “isso vai passar”
  • Mantenha-se disponível. Mesmo quando parecer que não querem sua presença
  • Cuide de si também. Os pais ou responsáveis são um dos principais alicerces no tratamento. Precisam se cuidar também.

Uma mensagem final

Se você é um adolescente lendo este texto e se reconheceu nessas linhas, quero que saiba: sua dor é real, suas lutas são válidas, e você não está sozinho. A depressão pode parecer um túnel sem fim, mas existe luz no final dele. Existe ajuda disponível, existem pessoas que se importam, e existe um futuro esperando por você.

Se você é um pai, uma mãe, ou um familiar preocupado, saiba que buscar ajuda não é sinal de fracasso. Ajuda é sinal de amor e coragem. Por isso, reconhecer que seu filho precisa de apoio profissional é um ato de força, não de fraqueza.

A adolescência é uma fase de transição, e como toda transição, é temporária. Com o apoio adequado, compreensão e tratamento profissional, os adolescentes podem não apenas superar essa fase, mas emergir dela mais fortes, resilientes e conscientes de sua própria capacidade de cura.

Lembre-se: não existe vergonha em pedir ajuda. Na verdade, reconhecer que precisamos de apoio é o primeiro passo para a transformação. Se você ou alguém que conhece está passando por essa situação, procure um psiquiatra ou psicólogo especializado em adolescentes. Juntos, podemos construir um caminho de cura e esperança.

A jornada pode ser desafiadora, mas você não precisa percorrê-la sozinho. Estamos aqui para caminhar ao seu lado.

Dra. Tamara Saba Schriek

Dra. Tamara Saba Schriek

Médica Psiquiatra que une ciência, empatia e acolhimento em seus atendimentos. Com vasta experiência em transtornos do humor, psicogeriatria, psiquiatria infantil e dependência química, compreendeu que o verdadeiro tratamento vai além da remissão de sintomas. Para ela, cada paciente é único e merece ser ouvido com atenção e respeito, construindo juntos uma jornada de recuperação clara e acessível.

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