Uma das maiores preocupações dos pais de crianças e jovens autistas é a transição para a vida adulta.
Você está aqui, acordado às 3 da manhã. Seu filho, talvez com 14 anos e diagnosticado com autismo. E você não consegue dormir porque uma pergunta não sai da sua mente:
“E quando ele crescer? Como vai se virar? Quem cuida quando eu morrer?”
Essa angústia que você sente, ela é real, legítima e, deixa eu dizer, extremamente comum. Pois, nos últimos anos como psiquiatra, ouvi essa frase centenas de vezes. De pais e mães desesperados, de gente que ama profundamente e que sente o peso da responsabilidade eternizada.
Bem, deixa eu ser direto com você: essa noite insone que você passa precisa terminar. Não porque o futuro será perfeito, pois ninguém tem futuro perfeito. Mas porque, ao contrário do que muitos acreditam, a vida adulta para um autista é totalmente possível, planejável e, com as estratégias certas, pode ser incrivelmente realizadora.
A mentira que ninguém questiona
Deixa eu falar algo que me comove como psiquiatra. Existe um mito silencioso que circula entre pais de autistas e que só são expressos quando estão no consultório. Pois é difícil para alguns pais abrirem isso e, infelizmente, muitas vezes, nem os pais conversam sobre isso.
Esse mito soa geralmente assim: “Meu filho é autista. Logo, ele não vai conseguir trabalhar, vai ficar dependente da gente para sempre. E o que vai acontecer quando morrermos? Ele está condenado?”
Essa narrativa é destruidora. Dói só de escutar. Porém, é importante entender que ela é falsa!
Primeiro, porque autismo não é uma sentença. Autismo é uma forma diferente de processar o mundo. Segundo, porque dados reais mostram que muitos autistas conseguem se sustentar, trabalhar, viver com autonomia relativa, e alguns até prosperam profissionalmente. Aqui na clínica mesmo, temos autistas independentes, que se comunicam muito bem e que sabem fazer a auto regulação quando necessário.
Mas, isso não acontece por acaso. Acontece porque pais e profissionais fizeram o que você está começando a fazer agora: planejar e preparar o futuro daquele que ama.
Os 3 pilares da transição para vida adulta
Deixa eu simplificar algo complexo. A transição para a vida adulta em autismo funciona em três pilares. Se você entender esses três, você entenderá por onde começar, combinado?
1. Independência e habilidades práticas
Sabe aquele adolescente autista que não consegue fazer sua higiene pessoal? Que não consegue fazer um prato de comida? Que não consegue gerir dinheiro? Bem, essas não são limitações imutáveis. Elas são habilidades que podem ser ensinadas, gradualmente, com estrutura visual clara e repetição organizada.
Você começa pequeno, como por exemplo, escovar os dentes com sua supervisão. Depois, sozinho, mas com lembretes visuais. Depois, sem lembretes. Isso, feito mês após mês, funciona!
O mesmo com finanças, tarefas domésticas e até com segurança pessoal. O segredo não é deixar ele fazer sozinho. Mas, estruturar os passos para que ele aprenda a fazer.
2. Empregabilidade e trabalho
Aqui vem a grande notícia que muitos pais não sabem: em 2024, entrou em vigor a Lei 14.992/2024, uma legislação brasileira que finalmente reconhece o direito de autistas adultos ao trabalho com dignidade.
Essa lei:
- Exige que empresas ofereçam capacitação profissional específica para autistas
- Garante adaptações ambientais no trabalho
- Oferece suporte psicossocial
- Gera incentivos fiscais para empresas que contratam
Traduzindo: não é mais “impossível” que um autista trabalhe. Agora existem ferramentas legais para que isso aconteça.
Muitos autistas trabalham. Alguns em trabalho freelancer (que é menos exaustivo sensorialmente) e outros em ambientes adaptados. Além disso, neste mundo digital ainda há oportunidades de teletrabalho (famosos home office ou remoto). Cada um encontrará seu caminho.
3. Planejamento financeiro e segurança jurídica
Essa é a parte que mais assusta, mas é também a que oferece mais alívio quando bem feita. Porque você não vai viver para sempre. E quando você partir, seu filho precisa estar protegido.
Existem três ferramentas fundamentais:
Curatela: Não é uma coisa ruim. Curatela é um documento jurídico que permite que você administre os bens e decisões do seu filho autista adulto sem perder os direitos fundamentais dele (voto, trabalho, educação, casar, socializar). É proteção, não prisão. Você dá o início na justiça e fica tudo documentado.
BPC/LOAS: Benefício da Prestação Continuada. Basicamente, é um salário mínimo mensal garantido pelo governo para seu filho autista adulto, desde que sua renda familiar seja baixa (menos de 1/4 do salário mínimo per capita). Exige laudo médico e perícia social, mas é direito dele.
Planejamento Financeiro: Deixar uma herança documentada é uma excelente opção. Definir quem vai ser o curador depois que você partir (pode ser outro filho, pode ser instituição de confiança). Recomendo deixar orientações claras sobre rotinas, preferências e contatos. Essas orientações podem ser fundamentais em momentos de crise, por exemplo.
Começar cedo é diferença entre sucesso e caos
Uma das coisas que gosto de ser bem específico é quanto mais cedo você começar a preparar seu filho para a vida adulta, melhor.
Não espere até os 18 anos, não fique tratando seu filho o tempo todo como “especial”. Sua mente consegue absorver melhor, se tratá-lo normalmente. É apenas seu cérebro que funciona diferente e seus sentidos são mais aguçados. Mas isso não significa que ele não consiga ter sucesso como pessoa. Comece na adolescência que é a janela de oportunidade onde você consegue ensinar habilidades num contexto ainda “de criança”, onde erros são esperados, onde estrutura é mais fácil de manter.
Se você esperar até ele fazer 18 e aí tentar começar a ensinar independência, vai ser exponencialmente mais difícil.
Durante esses anos, você faz mapeamento. Você identifica:
- Quais são os pontos fortes dele? (Talvez ele seja bom com computador, talvez com organização)
- Quais são os desafios genuínos? (Comunicação social? Sensorialidade?)
- Qual seria uma vida adulta realista? (Trabalho formal? Trabalho protegido? Atividades ocupacionais?)
Depois, a gente constrói em cima dessas informações um plano estratégico de vida e desenvolvimento. É lindo de ver essa criação e seu sucesso.
A conversa sobre seu filho autista que você precisa ter
Deixa eu ser honesto: alguns autistas vão conseguir morar sozinhos, porém outros vão precisar de supervisão permanente. Alguns conseguirão trabalhar formalmente, mas outros vão precisar de ambientes mais protegidos.
Não existe “fracasso” nesse espectro. Existe realismo! Porque planejamento é o que te salva da angústia noturna que você sente agora.
A conversa que você precisa ter com seu psiquiatra, seu terapeuta e os educadores é: “Qual é o cenário mais realista para meu filho? Daqui a 5 anos, daqui a 10, daqui a 20?”
Não é conversa depressiva. Muita gente encara assim, mas a real que essa é uma conversa de planejamento. E planejamento só acontece quando a gente verdadeiramente olha para a situação. Isso gera paz, isso te tranquiliza na hora de dormir.
Sua próxima ação é crítica
Você está com um adolescente autista e essa angústia começou a aparecer? Você não consegue dormir pensando no futuro dele?
Não continue com essa mochila sozinho. A transição para a vida adulta é complexa, mas ela é absolutamente gerenciável, desde que você tenha orientação profunda, individualizada e honesta.
Agende uma consulta comigo. Vamos conversar sobre o seu filho especificamente. Vamos mapear cenários realistas, construir um plano de transição que funciona para SUA família e não para uma família genérica. Combinado? É importante entender que cada paciente é diferente, um do outro, e seus contextos familiares também.
Porque aqui no Instituto Alceu Giraldi, a gente entende que ser pai de um autista não é viver em ansiedade permanente. É viver com esperança fundamentada em planejamento e estratégia.
Seu filho pode ter uma vida adulta significativa. Precisa de estrutura? Sim. Precisa de apoio permanente? Talvez. Mas significativa? Absolutamente sim.
Vamos planejar essa jornada juntos?












